Colunas
Pérolas da Web
Padinha

Explicação de um Operário Sinistrado

31/10/96 – Explicação de um operário português sinistrado, à Companhia Seguradora que expunha a forma como o acidente ocorreu. Este é um caso verídico cuja transcrição abaixo foi obtida através de cópia de arquivo na Companhia Seguradora. O caso foi julgado no Tribunal Judicial da Comarca de Cascais.

Exmos. Senhores.

Em resposta ao pedido de informação adicional informo:
No quesito nº 3, da participação de sinistro, mencionei “Tentando fazer o trabalho sozinho” como causa de meu acidente. Disseram na vossa carta que deveria dar uma explicação mais pormenorizada pelo que espero que os detalhes dados abaixo sejam suficientes.

Sou assentador de tijolos. No dia do acidente, estava a trabalhar sozinho no telhado de um edifício novo de 6 (seis) andares. Quando acabei o meu trabalho verifiquei que tinham sobrado 250 quilos de tijolos. Em vez de levar à mão para baixo decidi coloca-los dentro de um barril com a ajuda de uma roldana, a qual felizmente estava fixada num dos lados do edifício no 6º andar.

Desci e atei o barril com uma corda, fui para o telhado, puxei o barril para cima e coloquei os tijolos dentro. Voltei para baixo, desatei a corda e segurei-a com força de modo que os 250 quilos de tijolos descessem devagar (de notar que no quesito nº 11 indiquei que o meu peso era de 80 quilos).

Devido a minha surpresa por ter saltado repentinamente do chão, perdi a minha presença de espírito e esqueci-me de largar a corda. É desnecessário dizer que fui içado do chão à grande velocidade. Na proximidade do 3º andar, embati no barril que vinha a descer. Isto explica a fratura de crânio e a clavícula partida.

Continuei a subir a uma velocidade ligeiramente menor não tendo parado até os nós dos dedos das mãos estarem entalados na roldana. Felizmente já tinha recuperado minha presença de espírito e consegui, apesar das dores, agarrar a corda. Mais ou menos ao mesmo tempo, o barril com os tijolos caiu no chão e o fundo partiu-se, sem os tijolos o barril pesava aproximadamente 25 quilos (refiro-me novamente ao meu peso indicado no quesito nº 11).
Como podem imaginar, comecei a descer rapidamente. Próximo ao 3º andar encontro o barril que vinha a subir em alta velocidade. Isto justifica a natureza dos tornozelos partidos e das lacerações das pernas, bem como a parte inferior do corpo.
O encontro com o barril diminuiu a minha descida o suficiente, que minimizou os meus sofrimentos quando caí em cima dos tijolos e felizmente só fraturei 3 vértebras.

Lamento no entanto, informar que enquanto me encontrava caído em cima dos tijolos com dores, incapacitado de me levantar, e vendo o barril acima de mim, perdi novamente a presença de espírito e larguei a corda. O barril pesava mais que a corda e então desceu como um desesperado e caiu em cima de mim partindo-me as duas pernas.

Espero ter dado a informação solicitada do modo como ocorreu o acidente.