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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Sherazade e as telenovelas

   A pesquisadora da ficção brasileira Roberta  Manuela Andrade   compara a telenovela a um fascínio  produzido pela narrativa de Sherazade acredita que as tramas levam cada telespectador para dentro de si mesmo numa espécie de auto-análise. “ Fala a cada um de sua geografia interior, de seus desejos, conflitos, energias, frustrações, de suas contradições.  Solicitado pela telenovela a se identificar a um coro de personagens centrais, o telespectador  se vê como plural, regrando e modulando sua identificação sobre a multiplicidade de figuras, procedendo a identificações parciais .”As audiências muitas vezes se vêem ligadas a valores  nos quais elas não sabiam que acreditavam, ou, o inverso, constatando com surpresa seu envolvimento a uma situação vista, a priori, com indiferença. Cada telespectador controla sua aproximação ou distanciamento dos valores sociais celebrados pelas telenovelas. O enigma da atração das telenovelas sobre as audiências não se explica apenas por sobre a satisfação de um desejo de “olhar e olhar-se” numa adesão funcional  aos valores postos na tela . Existe também o prazer do telespectador pela polêmica, pelo questionamento sobre o que viu na telenovela . De onde  poder tirar conclusões e administrar juízos, lições morais, eventualmente, em benefício de si próprio, de sua existência e de sua identidade.

Scheherazade grafado também como Xerazade ou Sherazade, é a narradora das Mil e Uma Noites que é uma obra clássica da literatura árabe, consistindo numa coleção de contos orientais compilados provavelmente entre os séculos XIII e XVI. São estruturados como histórias em cadeia, em que cada conto termina com uma deixa que o liga ao seguinte. Essa estruturação força o ouvinte curioso a retornar para continuar a história, interrompida com suspense no ar.

A origem dos contos  está na história de um rei persa  que, vitimado pela infidelidade de sua mulher, mandou matá-la e resolveu passar cada noite com uma esposa diferente, que mandava degolar na manhã seguinte. Recebendo como mulher a Sherazade, esta iniciou um conto que despertou o interesse do rei em ouvir-lhe a continuação na noite seguinte. Sherazade, por artificiosa ligação dos seus contos, conseguiu encantar o monarca por mil e uma noites e foi poupada da morte. Sherazade conseguiu sobreviver, graças à sua palavra sábia e à curiosidade do rei.

Fica então a metáfora traduzida por Sherazade: a liberdade se conquista com o exercício da criatividade e  sua ligação com a telenovela está no formato – história contada em capítulos que se interligam por “ganchos”, ou seja, o suspense , o mistério, que poderá ser  desvelado no próximo dia, ou no capítulo seguinte , fazendo o telespectador interessar-se em acompanhar a narrativa , tal qual os folhetins franceses publicados nos jornais , no século XIX por autores Alexandre Dumas e Victor Hugo entre outros. Marlise Meyer em sua obra sobre o folhetim, compara-o à telenovela :        

Dentre as histórias mais famosas que ela conta estão as de Aladin (o rapaz preguiçoso que se transforma num príncipe graças à ajuda de um gênio encontrado numa lâmpada), de Simbad (o marinheiro que fica rico em sete viagens fantásticas) e de Ali Babá (que consegue fortuna enganando os famosos quarenta ladrões). O champanhe borbulhante das taças de cristal do folhetim parisiense é substituído pelo tinir estereotipado do gelinho  no copo de uísque. Aqueles mesmos cenários completos que enfeitavam as revistas de moda brasileiras no século XIX e as casas ricamente mobiliadas ( pelos coronéis ) para as cocottes. O sonho de Paris substituído pelos sonhos da Zona Sul do Rio de Janeiro  ou dos Jardins de São Paulo, ressalta Meyer. Esse traço do folhetim vamos encontrar em todos os períodos da telenovela brasileira. As telenovelas jogam com as expectativas melodramáticas da audiência, continuamente estimulando o desejo de conclusão da história. Sugerem esse desejo como irrealizável porque apontam para conclusões direcionadas para novas tensões. A necessidade de retorno à ordem é sempre adiada indefinidamente por meses e meses, estabelecendo-se o suspense da narrativa. Um segredo aparece como estratégia de produção de um efeito:o da surpresa na revelação. O segredo da verdadeira identidade da personagem ( filho de quem, mãe/pai de quem) ou dos culpados  pelos crimes quase sempre mantido em segredo, autoriza uma série de desmascaramentos.
O sucesso dos “ganchos”  das  Mil e Uma  Noites, tão bem compreendidos por Janete Clair, ( novelista  dos anos 70) garantem a manipulação do suspense necessário para que a trama se desenrole. Dentro de um mesmo capítulo existem momentos de grande interesse , que precedem a entrada de um comercial. È um  pequeno ou grande clímax arranjado de modo tal que não permite ao telespectador abandonar a história.
     Em linhas gerais, a estrutura de uma novela brasileira se baseia numa narrativa com esquema relativamente fixo , construído a partir de contradições  desenvolvidas em “plots” principais e secundários. O enredo de uma  novela assemelha-se conforme Campedelli a um novelo se desenrolando, segundo traçados dramáticos apresentados, aos poucos , como uma história parcelada  onde cada pedaço tem o próprio conflito a ser trabalhado. O autor vai  enredando, ligando, relacionando os fios de uma narrativa central , incluindo muitas outras histórias paralelas.São várias histórias acontecendo ao mesmo tempo.

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