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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

A desconstrução do discurso inovador em Páginas da Vida

Gilberto Braga, Aguinaldo Silva, Glória Perez, Benedito Ruy Barbosa, Manoel Carlos, Maria Adelaide Amaral são  os autores contemporâneos que mais revezam-se  nas tramas do horário nobre da TV Globo.Seus discursos teledramáticos são marcados pela ironia de costumes e pela discussão dos valores da classe média e das elites urbanas. Suas personagens não se enquadram nos perfis traçados pelo melodrama, os vilões possuem qualidades admiráveis , as heroínas mostram-se capazes de errar.

Os autores contemporâneos criam personagens  honestos contracenando com seus opostos, aqueles  representantes das elites dominadoras ou outros que sem quaisquer escrúpulo tentam penetrar na intimidade das classes mais abastadas , pisando em ombros para atingir seus objetivos, sem quaisquer princípios e até matando se for necessário, num espelho da realidade social.

Os personagens de Aguinaldo Silva sempre se caracterizaram por mexer com o imaginário do povo brasileiro. A princípio suas tramas revelavam um certo realismo fantástico a fim de conduzir os telespectadores a um contexto lúdico, esquecendo assim os problemas e as mazelas da vida cotidiana. Tal estilo, porém, não se sustentou sozinho e com o passar dos anos, Aguinaldo vem expondo em suas novelas, agregado ao divertimento , problemas sérios no intuito de conscientizar as pessoas.

De junho de 2004 a março de 2005 foi ao ar Senhora do Destino, cuja transgressão foi característica dos plots da novela que introduz o homossexualismo discutido e tornado público, com maior profundidade, entre duas mulheres. Aguinaldo Silva fala ainda da gravidez na adolescência de uma forma realista. Menina negra e favelada entrega-se a um rapaz também adolescente, filho do prefeito do município  de subúrbio carioca  gerando  um filho que é cuidado pela avó e tio.Os políticos são todos corruptos e malévolos, não há de esperar deles nenhuma fímbria de decência. Da união estável de homossexuais lésbicas, sai a adoção de um bebê (negro).Violência, tiros, assassinatos, preconceito racial, traição, maldades, mentiras. O autor não poupa a sociedade brasileira carioca,às vezes condenando os corruptos e violentos e outras,  exaltando o sofrimento das classes mais pobres apontando suas lutas diárias pela sobrevivência e seus equívocos na vida. Como faz Glória Perez, suas telenovelas costumam incluir campanhas sociais, alcançando um status maior do que o entretenimento puro. Como sempre, levanta polêmicas em torno de assuntos  até  deixados de lado pelos autores  como : agressões domésticas a idosos, prostituição entre universitárias da classe média,  alcoolismo e , doenças terminais.

Em julho de 2006 entra no ar mais uma novela repleta de realismo social  mas, limitado ao Leblon, bairro da Zona Sul carioca onde personagens da classe média alta digladiam -se em verdadeiros “duelos verbais”. Talvez estejamos iniciando com essa novela de Manuel Carlos a radicalização da proposta dos  diálogos diretos e nada impolutos que víamos na inovadora Beto Rockefeller, dos anos 60 com a introdução da acidez verborrágica cuja coerência está na lógica do personagem  que comunica a impressão de mais absoluta realidade mesmo sendo uma criação de fantasia ficcional.  Estaríamos então entrando numa nova fase da teledramaturgia onde o autor  permite-se  uma maior acidez na narrativa, enfrentando tabus novelísticos , escancarando conceitos e transgredindo posições que diríamos hoje, “ politicamente  corretas”? Ao  transmitir seu pensamento, sua posição  diante de um fato. o autor , para tornar sua trama verossímil, passa à provocação  causando constrangimentos na audiência ou então,  paradoxalmente, o prazer  da audiência que enxerga suas mazelas refletidas   na tela . O que tenta esconder ou não admitir sequer em pensamentos por mais  condenáveis que sejam, está ali, diante dos seus olhos no horário nobre.

Em Páginas da Vida,  Manoel Carlos surpreende  ao abordar o aborto e a rejeição à crianças com Síndrome de Down  de maneira até certo ponto cruel mas, antes de tudo,  verdadeira, e engaja emocionalmente a audiência nos juízos morais desarticuladores de discursos conservadores.
 Vejamos para exemplificar, o trecho a seguir, reproduzido de um capítulo de Páginas da Vida. Trata-se do diálogo  travado  entre a médica Helena ( Regina Duarte ) e a avó Marta ( Lilian Cabral) no momento em que esta decide destinar um dos gêmeos, da filha que morrera no parto, para a  adoção , por ser a criança portadora de deficiência.

HELENA- Então, pensou? Pensou direitinho em tudo que nós conversamos?
MARTA- Pensei, pensei bem
HELENA- E o que resolveu?
MARTA- O menino vai comigo. A menina eu vou levar pro juizado de menores,
entregar lá pra ser adotada por alguém.
HELENA- A senhora percebe.. a Sra. Sabe bem o que está dizendo ?
MARTA- Por que ? Acha que eu sou uma tonta, que eu não estou no meu juízo
perfeito?
HELENA- Desculpe, mas eu nunca pensei escutar uma coisa assim.
MARTA- Ah! Não ? É porque a senhora deve viver num mundo melhor do que
todos nós. Eu não, eu ouço coisas  piores quase todos os dias.
HELENA- A avó é mãe duas vezes.
MARTA- Duas vezes infeliz, a senhora quer dizer! Quando é de crianças que não
são desejadas, que não vêm em boa hora...
HELENA- Não foram desejadas, tudo bem , eu sei que isso acontece muito com
muitos casais. Talvez até com a maioria. Eu atendo aqui centenas  de grávidas todos
os anos. E quase todas elas me dizem: “ veio sem querer, não estávamos pensando
em ter filhos tão cedo...” porque apesar de todos os meios que dispomos é comum
que a gravidez aconteça sem ser desejada.E aí, diante disso, o melhor ainda é ter os
filhos, acreditar que é uma missão sagrada, cria-los , ir em frente.
MARTA- Ah! Doutora, isso tudo é muito bonito mas não me comove. Eu vivo meu
dia-a-dia praticamente sem emoção, sem alegria.Eu to envelhecendo sozinha, sem
amor, sem que ninguém me ajude. Eu trabalhei muito pra que a minha filha Nanda
 fosse estudar fora do país porque eu sempre soube que isso era um bom
investimento. E a senhora viu no que deu? Investi dinheiro bom e recebi mercadoria
ruim.
HELENA- Pelo amor de Deus, não diga isso!
MARTA- Digo sim, digo e falo. Vamos encurtar o assunto. Eu compreendo a sua
situação. Agradeço as suas palavras de estímulo. No seu lugar eu estaria fazendo a
mesma coisa. Afinal a senhora é uma obstetra, tem que defender a maternidade. E se
todas as mães resolverem deixar de parir né, com que a senhora vai sobreviver , não
é mesmo? PAUSA . Desculpa, desculpa, por favor, eu não quis ofender . Afinal eu
agradeço, agradeço tudo o que a senhora fez pela minha filha. De coração, agradeço
 mesmo. Mas Dra. Helena, eu vou dizer uma coisa. Se eu tivesse do lado da minha
 filha, quando ela ficou grávida. Aqui mesmo no Brasil, e não na Holanda, eu teria
 feito minha filha abortar.
HELENA- A Sra. não sabe o que está dizendo!
MARTA- Eu sei sim o que estou dizendo. A senhora pode não concordar comigo
.Aí é outra coisa. Mas eu penso assim.Os filhos não devem vir ao mundo pra pagar
 pelo erro dos pais.
HELENA- Se a senhora visse a sua filha quando chegou aqui.Se visse a alegria
 dela, a esperança dela nos filhos que tavam pra nascer, tenho certeza que lavaria
esses dois netos com a senhora pra encher sua casa de alegria.
MARTA- Tá decidido. Eu fico com o menino. Eu nem sei se é pra sempre porque
por mim, eu deixava os dois.

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