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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

AUTO DA COMPADECIDA

  Em teatro ,TV, cinema e DVD

Em janeiro de 1999, a televisão brasileira colocava no ar um dos melhores programas daquele ano baseado em obra teatral. Tratava-se da adaptação feita por Adriana e João Falcão em parceria com Miguel Arraes , do clássico O Auto da Compadecida, peça escrita por Ariano Suassuna ,na década de 50. Tendo por base romances e histórias populares do Nordeste, o Auto narra as aventuras dos "amarelos" João Grilo e Chicó vividas no sertão de miséria e desmandos da igreja e dos coronéis assediados pelos cangaceiros de plantão. Na cidade paraibana de Taperoá, os dois amigos envolvem-se em episódios cômicos até que um deles, o esperto e criativo João Grilo, morre e vai ser julgado pelo Tribunal das Almas juntamente com alguns habitantes da cidadezinha, todos envolvidos nas confusões de João e Chicó.

A TVGlobo apostou no teleteatro mas, estratégica e comercialmente, dividiu o espetáculo em quatro capítulos transmistidos às 22h30, um horário inacessível à grande massa trabalhadora da sua audiência. Quem teve a oportunidade de assistir à microssérie pode conferir a correta interpretação de Matheus Nachtergaele ( João Grilo) e de se companheiro de artimanhas , o Chico , vivido por Selton Mello. O elenco trouxe ainda o brilhante Marco Nanini ( o cangaceiro, Severino) e a impecável Fernanda Montenegro ( a Compadecida). Excelentes atuações também mereceram destaque como Diogo Vilela ( o padeiro), Denise Fraga ( sua mulher, Dora ) Lima Duarte ( o bispo) , Paulo Goulart ( o coronel) e muitos outros.

Estou relembrando tudo isso porque toda a microssérie pode ser vista agora em DVD que inclui ainda, o filme dirigido por Guel Arraes, lançado o ano passado, entrevistas , making of , notas da produção etc. O filme, com legendas também em inglês, é uma história bem condensada , ao contrário da microssérie . Mas, a meu ver, peca pelo ritmo acelerado demais da narrativa beirando ao estilo clip à exceção das cenas do julgamento no Tribunal das Almas.

Como a microssérie foi toda ela gravada em HDTV ( gravações feitas em Cabaceira, no sertão da Paraíba, em três semanas e mais 15 dias em estúdio) tornou-se fácil o reaproveitamento do material para sua transposição ao cinema. A antiga amizade de Guel Arraes com o autor, ambos de Recife ( lembro aqui, que durante anos Suassuna foi avesso à produções televisivas) propiciou a concretização desse imenso projeto . Para realizá-lo, Arraes recorreu ao Decameron onde encontrou ligações entre o Nordeste e o Renascimento na Europa. Incluiu na trama elementos de outras peças do autor do Auto, como por exemplo, Torturas do Coração onde se baseou para criar as cenas em que Chicó enfrenta dois valentões que disputavam o coração de Rosinha (Virgínia Cavendish) .

Por se tratar de uma peça famosa, fazer bem o Auto da Compadecida tornou-se quase uma obrigação e o resultado foi sua inclusão entre os melhores espetáculos produzidos pela TV em todo o mundo, na lista organizada pelo professor de Rádio e Televisão da USP, Arlindo Machado ( ver livro A Televisão Levada a Sério - Ed. Senac. Ano 2000).Segundo ele, a microssérie foi uma das mais "eloqüentes demonstrações do que se pode fazer em termos de dramaturgia na televisão".

 

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