|
Ficção, crítica, história e teatro na TV Reflexões sobre a telenovela (3)
O hoje chamado folhetim-eletrônico tem suas origens na Paris do século XIX , com os rodapés jornalísticos e as séries feuilletons – histórias românticas contadas em capítulos.Indo um pouco mais longe, citamos por exemplo, o Decamerão, escrito por Boccacio por volta de 1348, composto por 100 pequenas novelas, que hoje poderiam se entrelaçar e seguir suas narrativas paralelamente, uma vez que os temas se aproximam. A telenovela como gênero também segue essa estrutura, ou seja, exibida em capítulos que vão desenrolando várias tramas ao longo das semanas. Eletrônica, porque utiliza , ao invés das páginas dos jornais, um veículo como a televisão. Uma das principais autoras de novelas, Janete Clair (1925/1983) esclareceu uma vez , brincando: “novela , o próprio nome já define: um novelo que vai se desenrolando aos poucos”. Talvez uma resposta simples demais para definir um fenômeno tão complexo que na virada dos anos 60/70 encontrou uma linguagem própria e tipicamente brasileira que vem se modernizando para acompanhar as mudanças sociais. Tornou-se uma arte brasileira , popular, como o Carnaval e o nosso samba. O Brasil conheceu então, uma rara e hábil dramaturgia respeitada pela população e esse aval de cerca de 70 milhões de telespectadores é soberano e indiscutível. As histórias veiculadas pelas telenovelas misturam ficção com realidade e esse é um desafio para quem se aventura na busca de uma lógica para essa questão. A capacidade que a televisão tem de absorver o real faz com que o telespectador coexista com o acontecimento à maneira do sonho, para o qual não contam nem o tempo, nem a distância, nem a identidade, nem quaisquer barreiras, exceto as que presidem sua elaboração. É comum encontrar nos enredos das telenovelas, fatos reais absorvidos – acoplados a uma personagem ou mesmo copiados. Assim, tudo na TV tende a ser percebido como real, formando e estabelecendo uma lógica impossível .Por outro lado, não podemos esquecer que a telenovela não alcançaria o estágio em que se apresenta hoje se não houvesse o aparato comercial. O interesse econômico não se esconde ao usar a telenovela para projetar suas grifes e produtos. Quanto a teledramaturgia, sabemos que o gênero reuniu autores que tornaram-se mais populares que muitos escritores da nossa literatura. Autores, como Janete Clair, Dias Gomes, Aguinaldo Silva, Gilberto Braga, Benedito Ruy Barbosa, Glória Perez, Ivani Ribeiro e Manoel Carlos adquiriram a técnica de como escrever para a televisão tramas que contêm uma grande história de amor no centro, rodeada por conflitos familiares. Um mistério ou um segredo que o público conhece e os personagens não.O passado influindo decisivamente no presente. O sonhos e ascensão de uns e a decadências de outros. O choque de classes , resumido na sofrível mistura de pobres e ricos. As fórmulas básicas são reunidas em plots ( nome técnico adotado pelos teóricos da dramaturgia televisiva para designar qualquer enredo). Doc Comparato, valendo-se de estudos de Geoges Polti, retomados por Lewis Herman ( 36 situações dramáticas),faz a classificação dos mais usuais na ficção de vídeo por exemplo: plot de amor – casal que se ama e é separado por alguma razão, volta a se encontrar e tudo acaba bem; plot de sucesso – histórias de um homem ou mulher que ambiciona o sucesso, com final feliz ou infeliz, de acordo com o gosto do autor; plot Cinderela – é a metamorfose de uma personagem de acordo com os padrões sociais vigentes; plot triângulo – é o caso típico de triângulo amoroso; plot família – mostra a relação entre famílias ou grupos etc. Na verdade as telenovelas são histórias multiplots contendo vários plots. Samira Youssef Campedelli mostra em seu livro sobre a telenovela que ao longo dos anos, os enredos telenovelescos giraram sempre em torno de alguns enfoques básicos, ou seja : a falsa identidade/dupla personalidade; o mistério do nascimento;os enganos intencionais ( falsos testamentos, papéis incriminadores, cartas anônimas; a perseguição da inocência; as falsas mortes/ “ressurreições”; os triângulos amorosos, a vingança. A acirrada censura generalizada dos anos 70, em tudo semelhante à repressão macarthista no pós-guerra americano, alcançou a programação de TV em geral, marcadamente as telenovelas, em cujos enredos não se admitiam outros elementos que não os da “moral doméstica”, os mesmos que regiam , na década de 30, o famoso Código Hays, como mostra Muniz Sodré: A obediência a esse código é visível na maioria dos plots das novelas da Rede Globo quando o gênero tenta vincular-se pedagogicamente a uma ideologia, que tanto pode ser a do processo dominante , como a “doméstica”. Chegamos então ao discurso da telenovela que é a forma verbal e imagística do gênero que pode ser eminentemente conservador ou pode ultrapassar as propostas ideológicas do sistema – do capital ou do estado. O
Click não se responsabiliza por artigos assinados, sendo os mesmos
de inteira responsabilidade dos colunistas. Arquivo Reflexões sobre a telenovela (2) Reflexões sobre a telenovela (1) Toda nudez. Exemplo de adaptação Pesquisas acadêmicas sobre teledramaturgia TV tem boa comédia aos sábados "Caminhos do Teatro" gera polêmica Toda nudez... Exemplo de adaptação Teatro rodriguiano é inspirado no cinema Tragédias cariocas - Linguagem inovadora Nelson, sempre no topo das vanguardas Veja se reconhece isso no rádio? Obras inesquecíveis na televisão Hipotexto e hipertexto no processo de adaptação Adaptação e criação em Cidade de Deus Aliança teatro e cinema cria o fantástico expressionista parte2 Aliança teatro e cinema cria o fantástico expressionista parte1 Tempo bom para se rever Nosferatu Algumas palavras sobre roteiro Texto articula teatro e cinema Pérolas do cinema francês e teatralidade Antunes Filho Fala Sobre Televisão Breve comentário sobre a televisão na Alemanha O que eles dizem sobre telenovelas Pensadores discutem televisão e cultura Refletindo sobre o pós-moderno Votar: na política ou no Big Brother? Transitando entre o erudito e os bens de massa Quando o radiodrama volta à cena Estrangeiros na mídia eletrônica Cultura superios, midcult e masscult Investigando a cultura de massa Autores discutem cultura e mídia Reflexões sobre o telespectador ... e a televisão virou novela - (capítulo 2) ... e a televisão virou novela - (capítulo1) No tempo das "novelinhas" de 20 minutos Fernanda Montenegro há muito tempo na nossa TV TV de vanguarda, projeto arrojado da nossa TV As primeiras experiências em linguagem televisiva Incluo Os Maias na nossa quality television | |||||||