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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Reflexões sobre a telenovela (3)

A telenovela é um fenômeno bastante complexo que passou a ser analisada através de dissertações e teses a partir de 1989, quando Renato Ortiz , Sílvia Borelli e José Mário Ortiz Ramos ( professores da USP) lançaram o primeiro livro registrando a história e a produção desse gênero ligado à nossa cultura, com todos os jargões de latinidade e de subdesenvolvimento e que prosperou  e se consolidou em plena era do obscurantismo, fruto de vinte anos de recessão.

O hoje chamado folhetim-eletrônico tem suas origens  na Paris do século XIX , com os rodapés jornalísticos e as séries feuilletons – histórias românticas contadas em capítulos.Indo um pouco mais longe, citamos por exemplo, o Decamerão, escrito por Boccacio por volta de 1348, composto por 100 pequenas novelas, que hoje poderiam se entrelaçar e seguir suas narrativas paralelamente, uma vez que os temas se aproximam. A telenovela como gênero também segue essa estrutura, ou seja, exibida em capítulos que vão desenrolando várias tramas ao longo das semanas. Eletrônica, porque utiliza , ao invés das páginas dos jornais, um veículo como a televisão. Uma das principais autoras de novelas, Janete Clair (1925/1983) esclareceu uma vez , brincando: “novela , o próprio nome já define: um novelo que vai se desenrolando aos poucos”. Talvez uma resposta simples demais para definir um fenômeno tão complexo que na virada dos anos 60/70 encontrou uma linguagem própria e tipicamente brasileira que vem se modernizando para acompanhar  as mudanças  sociais. Tornou-se  uma arte brasileira , popular, como o Carnaval e o nosso samba. O Brasil conheceu então, uma rara e hábil dramaturgia  respeitada pela população e esse aval de cerca de 70 milhões de telespectadores é soberano e indiscutível.

As histórias veiculadas pelas telenovelas misturam ficção com realidade e esse é um desafio para quem se aventura na busca de uma lógica para essa questão. A capacidade que a televisão tem de absorver o real faz com que o telespectador coexista com o acontecimento à maneira do sonho, para o qual não contam nem o tempo, nem a distância, nem a identidade, nem quaisquer barreiras, exceto as que presidem sua elaboração.  É comum encontrar nos enredos das telenovelas, fatos reais absorvidos – acoplados a uma personagem ou mesmo copiados. Assim, tudo na TV tende a ser percebido como real, formando e estabelecendo uma lógica impossível .Por outro lado, não podemos esquecer que a telenovela  não alcançaria o estágio em que se apresenta hoje se não houvesse o aparato comercial. O  interesse econômico não se esconde  ao usar a telenovela para projetar suas grifes e produtos.

Quanto a teledramaturgia, sabemos que o gênero reuniu autores que tornaram-se mais populares que muitos escritores da nossa literatura. Autores, como Janete Clair, Dias Gomes, Aguinaldo Silva, Gilberto Braga, Benedito Ruy Barbosa, Glória Perez, Ivani Ribeiro e Manoel Carlos  adquiriram a técnica de como escrever para a televisão tramas que contêm uma  grande história de amor no centro, rodeada por conflitos familiares. Um mistério ou um segredo que o público conhece e os personagens não.O passado influindo decisivamente no presente. O sonhos e ascensão de uns e a decadências de outros. O choque de classes , resumido na sofrível mistura de pobres e ricos. 

As  fórmulas básicas  são reunidas em plots ( nome técnico adotado pelos teóricos da dramaturgia televisiva para designar qualquer enredo). Doc Comparato, valendo-se de estudos de Geoges Polti, retomados por Lewis Herman ( 36 situações dramáticas),faz a classificação dos mais usuais na ficção de vídeo por exemplo: plot  de amor – casal que se ama e é separado por alguma razão, volta a se encontrar e tudo acaba bem; plot de sucesso – histórias de um homem ou mulher que ambiciona o sucesso, com final feliz ou infeliz, de acordo com o gosto do autor; plot Cinderela – é a metamorfose de uma personagem de acordo  com os padrões sociais vigentes; plot triângulo – é o caso típico de triângulo amoroso; plot famíliamostra a relação entre famílias ou grupos etc. Na verdade as telenovelas são histórias multiplots contendo vários plots. Samira  Youssef  Campedelli mostra em seu livro sobre a telenovela que ao longo dos anos, os enredos telenovelescos giraram sempre em torno de alguns enfoques básicos, ou seja :  a falsa identidade/dupla personalidade; o mistério do nascimento;os enganos intencionais ( falsos testamentos, papéis incriminadores, cartas anônimas; a perseguição da inocência; as falsas mortes/ “ressurreições”; os triângulos amorosos, a vingança.

A acirrada censura generalizada dos anos 70, em tudo semelhante à repressão macarthista no pós-guerra americano, alcançou a programação de TV em geral, marcadamente as telenovelas, em cujos enredos não se admitiam outros elementos que não os da “moral doméstica”, os mesmos que regiam , na década de 30, o famoso Código Hays, como mostra Muniz Sodré:
“a) será  mantida a santidade da instituição do casamento e do lar;
b) não se justificará o adultério;
c)nenhum filme ou episódio deverá ridicularizar qualquer crença religiosa(...);
d) não serão ridicularizadas as leis, não se suscitará jamais a simpatia para com a violação da lei etc”( ver bibliografia)

A obediência a esse código é visível  na maioria dos plots das novelas da Rede Globo  quando o gênero  tenta vincular-se pedagogicamente a uma ideologia, que tanto pode ser a do processo dominante , como a “doméstica”. Chegamos então ao discurso da telenovela que é a forma verbal e imagística do gênero que pode ser eminentemente conservador  ou pode ultrapassar as propostas ideológicas do sistema – do capital ou do estado.

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