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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Reflexões sobre a telenovela (2)

Ente os personagens das tramas telenovelescas  identificamos  estereótipos mais usados como por exemplo, a grande vítima, a mãe terrível, a grande mãe, o marginal, a boa moça, o mau-bom, o bom-mau, o herói inocente, o bandido sedutor, o herói puro, o grande pai, a grande mulher, o passional simplório, o desamparado, o grande carente, o bonitão, o honrado, o ingênuo etc. O estereótipo é a forma pela qual a telenovela realiza em plenitude o seu discurso ou “recurso” que  amplia a comunicação e facilita a decodificação que toma por base a mídia, a simplificação, a massificação.

A  telenovela como aparelho ideológico  reproduz um discurso dominante na essência de sua obra ainda que sejam introduzidos ruídos e contradições. Autores  de telenovelas  que enfrentaram períodos autoritários usavam o incurso ideológico por meio de metáforas de alta complexidade e a conseqüente dificuldade de tradução (  como por exemplo, Dias Gomes em O Bem Amado, ou Bandeira Dois.) Os setores acadêmicos e intelectuais e a crítica jornalística tentam perceber os esforços dos autores em utilizar incursos mitológicos que tratam das questões fundamentais do ser humano.O conflito mitológico emerge com toda força porque pode ser livremente abordado. O mito Cinderela é um exemplo porque é emblemático do conflito social -  luta de classes- e do psicológico. Expressa a ascensão de classes menos favorecidas  na direção da ascensão social e o esforço psicológico do ser na direção do self. (ver a atual Belíssima,de Sílvio de Abreu)

Sabemos que as histórias na telenovela são baseadas em seis elementos que constituem a natureza de qualquer mito: éthos,o problema moral;logos, o problema do conhecimento, do saber; psyché , o problema da alma, da psicologia humana, da sensibilidade; eros,o problema amoroso, fundamental; théos, a idéia de Deus; pathos, que expressa a enfermidade , o drama, a tensão inerentes ao ser e ao viver. Esses conteúdos do mito compõem tanto a matéria prima da indústria cultural quanto a da literatura e do teatro.

O caráter dúplice da telenovela, conservador e desestruturador das cristalizações conservadoras que interessam ao sistema produtor, é o que lhe permite ser alimento diário de milhões de pessoas. Dominada pelo sistema produtor, ao mesmo tempo lhe escapa e contraria Concluindo, citaremos Artur da Távola:

Produto curioso, superficial como história, profundo como relação empático-mitológica, a telenovela funciona de modo subversivo junto a outras artes, as quais confirma enquanto revoga: dá trabalho a 855 dos autores e atores e gera um tipo de artisticidade própria que embora herdada do rádio, do teatro e do cinema, rejeita-os. A emoção profunda, base de toda dramaturgia, está presente na telenovela. O resto é preconceito.

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