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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

"Toda Nuzez..." Exemplo de adaptação

Constatamos ser Nelson Rodrigues um dos mais importantes dramaturgos brasileiros não restam dúvidas que a sua relação com o cinema teria de ser diversa e repetida e o resultado seria um salto de onze adaptações do seu teatro para o cinema ( sem contar os romances que tiveram também sua versão cinematográfica. Além de sua relevância como autor, notamos anteriormente, que o autor tem uma relação íntima com o cinema já denotando em seus textos, sugestões ao roteirista. Trata-se de um teatrólogo de índole cinematográfica. Encerrando a seqüência de textos sobre Nelson Rodrigues e o cinema , resolvemos apontar como exemplo de adaptação bem sucedida de sua obra, o filme Toda Nudez Será Castigada, dirigido por Arnaldo Jabor (agora em DVD) .
No caso de Toda Nudez Será Castigada, temos cenários e situações contendo em si, seqüências cinematográficas.

Vejamos por exemplo, a montagem do 3 Ato da peça:
Cena 1 -gabinete do delegado
Cena 2 - tias com Herculano
Cena 3 -Delegacia - Delegado e Herculano
Cena 4- Padre e Herculano
Cena 5- Médico e Herculano
Cena 6 - Padre e Herculano
Cena 7 - Herculano com Geni
Cena 8 - Herculano com as tias
Cena 9 - quarto de Serginho no Hospital
Cena 10 -Cena Geni e Patrício
Cena 11- Herculano e médico
Cena 12- Serginho Patrício/Serginho Geni
Cena 13- cena escura - voz gravada
Cena 14 - Geni e Serginho
Cena 15 - Herculano e Médico
Cena 16 - Herculano e Padre
Cena 17- Herculano e Médico
Cena 18- cena escura - voz gravada
Cena 19 - As tias
Cena 20 - Patrício Serginho
Cena 21 - Geni e Serginho
Cena 22 - cena escura - voz gravada
Cena 23 - Geni e Patrício
Cena 24 - cena escura - voz gravada.

Podemos observar nesse terceiro ato, o estilo sincopado do teatro rodriguiano.
No filme roteirizado e dirigido por Arnaldo Jabor notamos sua fidelidade ao texto da peça , e em certos momentos, esclarecendo para um público não acostumado às salas de espetáculos, um texto onde o autor traz à tona os abismos em que , muitas vezes, se perdem criaturas aparentemente comuns. O filme mostra as obsessões do autor, desnuda sua morbidez, seu terrível pessimismo e compõe perfeitamente o herói expressionista que tem parentesco com a fatalidade e o trágico.
O filme mantém a estética popular rodriguiana no trato das tragédias cariocas e cultuava o mau gosto, o trash, o kitch. A cafonice é geral em todas as cenas e vestuário. São elementos contitutivos do universo do autor. Paixões irrefreáveis, violências incontidas, suicídio. Mantém o ritmo vertiginoso da peça ao começar por um longo flashback que permite atualizar o passado, dando-lhe força de ação presente.

Na abertura, Herculano ( Paulo Porto) passeia de carro pelo centro do Rio em direção ao subúrbio. Chega em casa e grita por Geni (Darlene Glória ) . Nazaré, a criada, negra que ,na peça, entrega a Herculano a fita que contém a narração gravada da suicida, é retirada do filme, que dá ênfase apenas ao gravador de rolo ainda em movimento, como se Geni estivesse por perto. Herculano o recoloca para rodar e então, passa a ouvir a mulher iniciando o monólogo, exatamente como no teatro:
"Herculano, quem te fala é uma morta, Eu morri. Me matei. Herculano, ouve até o fim. Você pensa que sabe muito. O que você sabe é tão pouco! Há uma coisa que você não sabe, nem desconfia, uma coisa que você vai saber agora, contada por mim e que é tudo. Falo pra ti e pra mi mesma ( dilacerada, ressentida e séria) . Escuta a, meu marido. Uma noite em tua casa...."
Na seqüência do filme sabemos através da discussão das tias que Herculano encontra-se em estado deplorável, após a morte da primeira mulher. Segue-se a cena de Patrício ( Paulo César Pereio) induzindo o irmão a procurar Geni mostrando-lhe a fotografia da prostituta e deixando ao seu lado, propositadamente, uma garrafa de uísque. A cena é mais objetiva que no teatro.
Jabor reduz dois personagens da peça : o Padre e o Médico.

A fotografia de Eduardo Escorel está precisa e funciona harmoniosamente com o décor. A trilha sonora pontua os momentos dramáticops com tangos de Astor Piazzolla, porém os melhores momentos são aqueles em que Jabor recorre à voz da própria Darlene Glória cantando no rendez-vouz. Uma ilustração usada apenas na fita. Diríamos que o diretor fez aqui, um procedimento que chamaríamos de acréscimo. A movimentação na casa de "Laura"ao som de Give My Regards to Broadway é melhor explorada no filme, inclusive Jabor amplia a atuação do travesti Odésio.

Na tela, não temos a divisão em atos e o filme adapta o segundo ato da peça transferindo a cena para o cemitério onde o rapaz está velando o túmulo da mãe e não no quarto, onde Serginho encontra o pai colocando talco nos pés e vê nisso uma ação obscena e desrespeitosa ao luto pela morte da esposa. A cena no cemitério é perfeita e mais dramática, mantendo, no tentando, os pontos-chave da discussão entre pai e filho. Serginho questiona o falso luto do pai e exige que ele não tenha contato com mulher alguma. Arnaldo Jabor suprime algumas cenas que intercalam, na peça , o diálogo de Herculano e Serginho. São passagens em que o pai questiona a educação dada pelas tias ao "menino" e a veneração que ele tem à mãe, como se ela ainda estivesse viva.
Mas a adaptação de Toda Nudez ganha intensidade mesmo obstruindo algumas cenas utilizadas no teatro. É que o cinema, como definiu Ismail Xavier, traz novos movimentos: mobilidade de câmera, ritmo da ação e da montagem, aceleração do tempo, dinamismo musical : "Estes movimentos ritmos e tempos também , por sua vez, se aceleram, se conjugam , se sobrepõem. Por mais banal que seja a fita de cinema é uma cateral de movimentos. Despertos e provocados já pela situação espetacular".((XAVIER, 1983. p.158)

Quase todas as técnicas de movimento tendem para a intensificação do drama, no caso de Toda Nudez, o filme pode mostrar em detalhes, por exemplo, a cena do banho de Serginho ( no teatro o banho é apenas sugerido numa conversa de Herculano com o médico : "O Sr.sabe que até hoje, é sempre uma tia que dá banho no Serginho, com as outras assistindo?"Já o cinema optou por mostrar ao público uma ótima cena que diz respeito à pisquê do personagem. Arnaldo Jabor , transfere para esse momento, uma discussão sobre uma possível viagem de Serginho que ,na peça, fora discutida com o padre e o médico e no filme, é resumida enquanto Serginho toma banho.

Na crítica que fez sobre o filme, José Lino Grünewald ressalta a aparição física do ladrão boliviano com um dos "grandes êxitos de Toda Nudez....No teatro, o ladrão funciona como uma espécie de sombra, representando um ladrão obscuro e escondido da psique. Representando um arquétipo de desejos reprimidos que atormentam o instinto homossexual de Serginho. Na película também há essa conotação mas, acrescida da imagem, do acréscimo.Grünewald explica a modificação introduzida por Jabor:
Uma das modificações enfrentadas pelo diretor ( e não era necessária ), com grande êxito, é a aparição física do ladrão boliviano. Na peça, este era apenas um componente do universo referencial dos diálogos . Na fita, muito bem escondida, a figura emerge numa das sequ6encias mais bem elaboradas, com o contraste muito bem bolado do ato de sodomia ser acompanhado do coro de prisioneiros entoando "Bandeira Branca".No teatro a cena do estupro é apenas narrada, o filme leva-a ao espectador com intensidade..( GRUNEWALD , (fortuna crítica) , 1993 p. 231)
No depoimento que deu ao Serviço Nacional de Teatro em 1974, Nelson Rodrigues reclama porque a cena fora interditada pela censura na época ( mais tarde liberada).

Uma cena antológica destaca a perfeita interpretação do trio de tias ( Henriqueta Brieba, Elza Gomes e Isabel Ribeiro) na cerimônia do casamento de Herculano e Geni. A tia número dois observa que a noiva "está com uns modos tão bonitos que nem parece uma mulher que ..."para a tia número um interrompê-la, indignada, não admitindo o comentário. Insiste a tia número dois e menciona que parece que ela foi da zona , para a tia número um debitar a citação à arterioesclerose da irmã : "Geni nunca foi da zona. Honestíssima! Você é quem pôs isso na cabeça, porque está fraca da memória". A tia n. 1 faz a tia n. 2 repetir que "Geni se casou virgem". Uma veia cômica de Nelson bem enfatizada pelas atrizes.
Na estrutura das obras de Nelson Rodrigues, o diálogo do mundo trágico e do cômico , em mescla, está sempre presente. Em adaptações de seus filmes para o cinema, às vezes , o diretor sente-se impelido a carregar mais numa ou outra tendência . Acaba , geralmente sendo a veia cômica por manter mais nítido o colorido típico do autor . Mas Jabor não escorrega pelo cômico e enfatiza a morbidez do pensamento rodriguiano. Em suma, uma s virulenta sátira do moralismo espectral.
À medida em que traz em primeiro plano a figura do ladrão boliviano, Arnaldo Jabor, por outro lado, subestima a participação de patrício na intriga. Patrício é o personagem que arquiteta toda a destruição de Herculano e Geni ao morderem sua isca envenenada.

No texto, Serginho está nas suas mãos, decepcionado com o pai, olhado com espanto pelas tias, é forçado a acreditar sem objeções na amizade que Patrício lhe oferece. A idéia deste era fazer com que Herculano se casasse com Geni e então, valendo-se do interesse de Serginho, conseguir que ambos se unam para destruir Geni e humilhar o pai.Como vilão, Patrício é perfeitamente coerente e participa com intensidade dos dois últimos atos,. Sabemos que é ele quem revela a viagem de Serginho com o amante boliviano. No filme, a direção dilui a participação de Patrício na tragédia final e deixa a cardo do próprio Serginho, a decisão de casar o pai com Geni e depois traí-lo com a madrasta.No filme, Geni descobrirá a relação homossexual de Serginho, ao vê-lo partir com o ladrão boliviano.

Utilizando a elipse num instante decisivo da ação, Jabor sustenta o momento dramático sugerido na peça , evitando uma ruptura da unidade, com a seqüência final que aqui retorna ao início do filme, ou seja,. Herculano ouve os últimos relatos da suicida, a câmera transita para um primeiro plano onde o espectador vê Geni morta, nos degraus de uma escada.
Das relações de Nelson Rodrigues com o cinema talvez tenha sido em Toda Nudez... que ele obteve a resposta mais coerente de sua obra . Trata-se do melhor filme ajustado à sua índole cinematográfica , isto é, explorando ao máximo essa potencialidade do autor, oferecendo-nos um produto final de cuidadosa harmonia entre teatro e cinema.
Cenas gravadas nas ruas dão o teor criativo da película.O caráter quase mágico da imagem cinematográfica aparece nesse filme com toda clareza: a câmera cria algo mais que a simples duplicação da realidade da cena teatral. O filme louva uma coisa rara no cinema nacional : a segurança e boa caracterização dos intérpretes.
O cinema não é literatura mas faz literatura por outros meios excepcionalmente visuais. A simbiose teatro e cinema tem aspectos notáveis no caso brasileiro onde destaca-se Toda Nudez...
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