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Ficção, crítica, história e teatro na
TV
"Toda
Nuzez..." Exemplo de adaptação
Constatamos ser Nelson Rodrigues um dos mais importantes dramaturgos
brasileiros não restam dúvidas que a sua relação
com o cinema teria de ser diversa e repetida e o resultado seria um
salto de onze adaptações do seu teatro para o cinema (
sem contar os romances que tiveram também sua versão cinematográfica.
Além de sua relevância como autor, notamos anteriormente,
que o autor tem uma relação íntima com o cinema
já denotando em seus textos, sugestões ao roteirista.
Trata-se de um teatrólogo de índole cinematográfica.
Encerrando a seqüência de textos sobre Nelson Rodrigues e
o cinema , resolvemos apontar como exemplo de adaptação
bem sucedida de sua obra, o filme Toda Nudez Será Castigada,
dirigido por Arnaldo Jabor (agora em DVD) .
No caso de Toda Nudez Será Castigada, temos cenários e
situações contendo em si, seqüências cinematográficas.
Vejamos
por exemplo, a montagem do 3 Ato da peça:
Cena 1 -gabinete do delegado
Cena 2 - tias com Herculano
Cena 3 -Delegacia - Delegado e Herculano
Cena 4- Padre e Herculano
Cena 5- Médico e Herculano
Cena 6 - Padre e Herculano
Cena 7 - Herculano com Geni
Cena 8 - Herculano com as tias
Cena 9 - quarto de Serginho no Hospital
Cena 10 -Cena Geni e Patrício
Cena 11- Herculano e médico
Cena 12- Serginho Patrício/Serginho Geni
Cena 13- cena escura - voz gravada
Cena 14 - Geni e Serginho
Cena 15 - Herculano e Médico
Cena 16 - Herculano e Padre
Cena 17- Herculano e Médico
Cena 18- cena escura - voz gravada
Cena 19 - As tias
Cena 20 - Patrício Serginho
Cena 21 - Geni e Serginho
Cena 22 - cena escura - voz gravada
Cena 23 - Geni e Patrício
Cena 24 - cena escura - voz gravada.
Podemos observar nesse terceiro ato, o estilo sincopado
do teatro rodriguiano.
No filme roteirizado e dirigido por Arnaldo Jabor notamos sua fidelidade
ao texto da peça , e em certos momentos, esclarecendo para um
público não acostumado às salas de espetáculos,
um texto onde o autor traz à tona os abismos em que , muitas
vezes, se perdem criaturas aparentemente comuns. O filme mostra as obsessões
do autor, desnuda sua morbidez, seu terrível pessimismo e compõe
perfeitamente o herói expressionista que tem parentesco com a
fatalidade e o trágico.
O filme mantém a estética popular rodriguiana no trato
das tragédias cariocas e cultuava o mau gosto, o trash, o kitch.
A cafonice é geral em todas as cenas e vestuário. São
elementos contitutivos do universo do autor. Paixões irrefreáveis,
violências incontidas, suicídio. Mantém o ritmo
vertiginoso da peça ao começar por um longo flashback
que permite atualizar o passado, dando-lhe força de ação
presente.
Na abertura, Herculano ( Paulo Porto) passeia de carro pelo
centro do Rio em direção ao subúrbio. Chega em
casa e grita por Geni (Darlene Glória ) . Nazaré, a criada,
negra que ,na peça, entrega a Herculano a fita que contém
a narração gravada da suicida, é retirada do filme,
que dá ênfase apenas ao gravador de rolo ainda em movimento,
como se Geni estivesse por perto. Herculano o recoloca para rodar e
então, passa a ouvir a mulher iniciando o monólogo, exatamente
como no teatro:
"Herculano, quem te fala é uma morta, Eu morri. Me matei.
Herculano, ouve até o fim. Você pensa que sabe muito. O
que você sabe é tão pouco! Há uma coisa que
você não sabe, nem desconfia, uma coisa que você
vai saber agora, contada por mim e que é tudo. Falo pra ti e
pra mi mesma ( dilacerada, ressentida e séria) . Escuta a, meu
marido. Uma noite em tua casa...."
Na seqüência do filme sabemos através da discussão
das tias que Herculano encontra-se em estado deplorável, após
a morte da primeira mulher. Segue-se a cena de Patrício ( Paulo
César Pereio) induzindo o irmão a procurar Geni mostrando-lhe
a fotografia da prostituta e deixando ao seu lado, propositadamente,
uma garrafa de uísque. A cena é mais objetiva que no teatro.
Jabor reduz dois personagens da peça : o Padre e o Médico.
A fotografia de Eduardo Escorel está precisa e funciona
harmoniosamente com o décor. A trilha sonora pontua os momentos
dramáticops com tangos de Astor Piazzolla, porém os melhores
momentos são aqueles em que Jabor recorre à voz da própria
Darlene Glória cantando no rendez-vouz. Uma ilustração
usada apenas na fita. Diríamos que o diretor fez aqui, um procedimento
que chamaríamos de acréscimo. A movimentação
na casa de "Laura"ao som de Give My Regards to Broadway é
melhor explorada no filme, inclusive Jabor amplia a atuação
do travesti Odésio.
Na tela, não temos a divisão em atos e o filme
adapta o segundo ato da peça transferindo a cena para o cemitério
onde o rapaz está velando o túmulo da mãe e não
no quarto, onde Serginho encontra o pai colocando talco nos pés
e vê nisso uma ação obscena e desrespeitosa ao luto
pela morte da esposa. A cena no cemitério é perfeita e
mais dramática, mantendo, no tentando, os pontos-chave da discussão
entre pai e filho. Serginho questiona o falso luto do pai e exige que
ele não tenha contato com mulher alguma. Arnaldo Jabor suprime
algumas cenas que intercalam, na peça , o diálogo de Herculano
e Serginho. São passagens em que o pai questiona a educação
dada pelas tias ao "menino" e a veneração que
ele tem à mãe, como se ela ainda estivesse viva.
Mas a adaptação de Toda Nudez ganha intensidade mesmo
obstruindo algumas cenas utilizadas no teatro. É que o cinema,
como definiu Ismail Xavier, traz novos movimentos: mobilidade de câmera,
ritmo da ação e da montagem, aceleração
do tempo, dinamismo musical : "Estes movimentos ritmos e tempos
também , por sua vez, se aceleram, se conjugam , se sobrepõem.
Por mais banal que seja a fita de cinema é uma cateral de movimentos.
Despertos e provocados já pela situação espetacular".((XAVIER,
1983. p.158)
Quase todas as técnicas de movimento tendem para
a intensificação do drama, no caso de Toda Nudez, o filme
pode mostrar em detalhes, por exemplo, a cena do banho de Serginho (
no teatro o banho é apenas sugerido numa conversa de Herculano
com o médico : "O Sr.sabe que até hoje, é
sempre uma tia que dá banho no Serginho, com as outras assistindo?"Já
o cinema optou por mostrar ao público uma ótima cena que
diz respeito à pisquê do personagem. Arnaldo Jabor , transfere
para esse momento, uma discussão sobre uma possível viagem
de Serginho que ,na peça, fora discutida com o padre e o médico
e no filme, é resumida enquanto Serginho toma banho.
Na crítica que fez sobre o filme, José Lino
Grünewald ressalta a aparição física do ladrão
boliviano com um dos "grandes êxitos de Toda Nudez....No
teatro, o ladrão funciona como uma espécie de sombra,
representando um ladrão obscuro e escondido da psique. Representando
um arquétipo de desejos reprimidos que atormentam o instinto
homossexual de Serginho. Na película também há
essa conotação mas, acrescida da imagem, do acréscimo.Grünewald
explica a modificação introduzida por Jabor:
Uma das modificações enfrentadas pelo diretor ( e não
era necessária ), com grande êxito, é a aparição
física do ladrão boliviano. Na peça, este era apenas
um componente do universo referencial dos diálogos . Na fita,
muito bem escondida, a figura emerge numa das sequ6encias mais bem elaboradas,
com o contraste muito bem bolado do ato de sodomia ser acompanhado do
coro de prisioneiros entoando "Bandeira Branca".No teatro
a cena do estupro é apenas narrada, o filme leva-a ao espectador
com intensidade..( GRUNEWALD , (fortuna crítica) , 1993 p. 231)
No depoimento que deu ao Serviço Nacional de Teatro em 1974,
Nelson Rodrigues reclama porque a cena fora interditada pela censura
na época ( mais tarde liberada).
Uma cena antológica destaca a perfeita interpretação
do trio de tias ( Henriqueta Brieba, Elza Gomes e Isabel Ribeiro) na
cerimônia do casamento de Herculano e Geni. A tia número
dois observa que a noiva "está com uns modos tão
bonitos que nem parece uma mulher que ..."para a tia número
um interrompê-la, indignada, não admitindo o comentário.
Insiste a tia número dois e menciona que parece que ela foi da
zona , para a tia número um debitar a citação à
arterioesclerose da irmã : "Geni nunca foi da zona. Honestíssima!
Você é quem pôs isso na cabeça, porque está
fraca da memória". A tia n. 1 faz a tia n. 2 repetir que
"Geni se casou virgem". Uma veia cômica de Nelson bem
enfatizada pelas atrizes.
Na estrutura das obras de Nelson Rodrigues, o diálogo do mundo
trágico e do cômico , em mescla, está sempre presente.
Em adaptações de seus filmes para o cinema, às
vezes , o diretor sente-se impelido a carregar mais numa ou outra tendência
. Acaba , geralmente sendo a veia cômica por manter mais nítido
o colorido típico do autor . Mas Jabor não escorrega pelo
cômico e enfatiza a morbidez do pensamento rodriguiano. Em suma,
uma s virulenta sátira do moralismo espectral.
À medida em que traz em primeiro plano a figura do ladrão
boliviano, Arnaldo Jabor, por outro lado, subestima a participação
de patrício na intriga. Patrício é o personagem
que arquiteta toda a destruição de Herculano e Geni ao
morderem sua isca envenenada.
No texto, Serginho está nas suas mãos, decepcionado
com o pai, olhado com espanto pelas tias, é forçado a
acreditar sem objeções na amizade que Patrício
lhe oferece. A idéia deste era fazer com que Herculano se casasse
com Geni e então, valendo-se do interesse de Serginho, conseguir
que ambos se unam para destruir Geni e humilhar o pai.Como vilão,
Patrício é perfeitamente coerente e participa com intensidade
dos dois últimos atos,. Sabemos que é ele quem revela
a viagem de Serginho com o amante boliviano. No filme, a direção
dilui a participação de Patrício na tragédia
final e deixa a cardo do próprio Serginho, a decisão de
casar o pai com Geni e depois traí-lo com a madrasta.No filme,
Geni descobrirá a relação homossexual de Serginho,
ao vê-lo partir com o ladrão boliviano.
Utilizando a elipse num instante decisivo da ação,
Jabor sustenta o momento dramático sugerido na peça ,
evitando uma ruptura da unidade, com a seqüência final que
aqui retorna ao início do filme, ou seja,. Herculano ouve os
últimos relatos da suicida, a câmera transita para um primeiro
plano onde o espectador vê Geni morta, nos degraus de uma escada.
Das relações de Nelson Rodrigues com o cinema talvez tenha
sido em Toda Nudez... que ele obteve a resposta mais coerente de sua
obra . Trata-se do melhor filme ajustado à sua índole
cinematográfica , isto é, explorando ao máximo
essa potencialidade do autor, oferecendo-nos um produto final de cuidadosa
harmonia entre teatro e cinema.
Cenas gravadas nas ruas dão o teor criativo da película.O
caráter quase mágico da imagem cinematográfica
aparece nesse filme com toda clareza: a câmera cria algo mais
que a simples duplicação da realidade da cena teatral.
O filme louva uma coisa rara no cinema nacional : a segurança
e boa caracterização dos intérpretes.
O cinema não é literatura mas faz literatura por outros
meios excepcionalmente visuais. A simbiose teatro e cinema tem aspectos
notáveis no caso brasileiro onde destaca-se Toda Nudez...
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