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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Teatro rodriguiano é inspirado no cinema

Passaremos agora, mais de perto, a abordar a relação de Nelson Rodrigues com o cinema e partindo da influência que recebeu da arte cinematográfica na elaboração de seus textos teatrais à filmografia baseada na sua obra, ambos motivos de nosso estudo.

Maia de uma vez Nelson afirmou que distinguiam em sua obra as “as ações simultâneas em tempos diferentes”, técnica lançada em Vestido de Noiva quando utiliza os planos da realidade, memória e alucinação. Essa flexibilidade de linguagem é atribuída à influência do cinema :

O realismo cinematográfico, sobretudo depois que se passou a falar na tela, absorveu o diálogo espontâneo, natural, cotidiano sem prejuízo dos avanços dos cortes, das elipses dos flashbacks. O cinema tornou-se admirável escola de uma novas linguagem ficcional. Por que não incorpora-la ao palco? Acredito que a grande liberdade da técnica dramatúrgica de Nelson tenha nascido na observação de espectador cinematográfico . Se a Sétima Arte não teve pudor de assenhorar-se de procedimentos teatrais, a recíproca não mereceria condenação. ( (MAGALDI, 1992. p.43)

Podemos admitir que Nelson Rodrigues, estimulado pela linguagem do cinema, modificou a composição tradicional da peça que observava a apresentação, o desenvolvimento e o desfecho do tema, em escala cronológica. Retomando o exemplo de Vestido de Noiva, uma mulher morta assiste ao próprio velório e diz do próprio cadáver: “Gente morta como fica”. Apesar de morta em 1905, contracena com uma noiva de 1943, Alaíde, cuja desagregação da mente permite tal disparate.

A dramaturgia rodriguiana tornou o palco mais flexível , menos sobrecarregado. Nelson Rodrigues, na sua inclinação natural para a vanguarda, deu o ponto de partida com o Vestido de Noiva: um plano da realidade preenchido por poucas e rápidas cenas que vão do atropelamento à morte de Alaíde, passando pelos ruídos próprios do ambiente como a sirene da ambulância, a notícia transmitida na redação de um jornal, a sala em que os médicos operam a vítima.Simult6aneamente, o espectador começa a assistir às cenas que introduzem os planos da memória e alucinação. Os diálogos tornam-se projeções da mente da protagonista em coma. O autor trabalha com cenas curtas ligadas como por assim dizer, as fades in ou fades out (clareamento/ escurecimento da imagem que indica o início ou o término de uma cena ou seqüência) desligando as luzes que iluminam o palco entre uma cena e outra. Trata-se , portanto, de um dramaturgo de índole cinematográfica criando situações que já contêm em si, seqüências de sugestões de roteiros.

Outro elemento da linguagem cinematográfica que vemos no teatro de Nelson Rodrigues é a sua pontuação ou seja, a passagem instant6anea de um plano a outro que constitui o corte que quebra a narrativa ou a passagem de um enquadramento a outro que , no seu teatro, assemelha-se à técnica cinematográfica . ( Exemplo pode ser visto no texto da peça Vestido de Noiva, In: Teatro Completo de Nelson Rodrigues _ peças psicológicas . Nova Fronteira, 1981 pgs 157 e 158) . O fechamento ( fade out ) que é o escurecimento da tomada até o desaparecimento total da imagem e a abertura ( fade in ) procedimento contrário juntam-se na fusão , isto é, a combinação dos dois elementos. Enquanto um desaparece, o outro toma simultaneamente seu lugar. O fechamento corresponde a uma espécie de ponto final e a abertura equivale a um novo parágrafo e a fusão corresponde às reticências.

Em resumo, diríamos também que a pontuação teatral de Nelson Rodrigues dada à diversidade de cenas curtas , mudanças de planos, ritmos e seqüências assemelha-se à linguagem cinematográfica.

Os recursos técnicos tomados ao cinema estão presentes em quase toda sua obra , principalmente na constante de sua sintaxe narrativa sincopada. Nelson joga com os planos, fusões, e ritmo das sequências “com a segurança de um verdadeiro cineasta”, como diria Pompeu de Souza .

O biógrafo de Nelson, Ruy Castro acredita que o autor deveria ter assistido a um filme do final do Expressionismo Alemão. Trata-se de Varieté que passou no Rio em 1926e atraiu um público numeroso, no Centro e na Tijuca. O filme tinha todos os recursos do gênero alemão como o claro-escuro, a câmera olho , a cenografia muito abstrata , a atmosfera de alucinação e a morbidez. Nelson citaria Varieté em entrevista a José Lino Grunewald, como um dos seus filmes favoritos que assistira aos 14 anos.

No campo estético, o teatro rodriguiano tem toda a influência do Expressionismo onde seu gigantismo conduz, freqüentemente à disformidade, à falta de medida, aos procedimentos paroxistas. A deformação da realidade superficial, visível a olho nu, em proveito do descortinamento de uma realidade mais profunda, interior, vista através de uma lente que a transforma , amplia e a deforma. No terreno da concepção criadora a arte de Nelson Rodrigues é quase integralmente instintiva e adota recursos e propostas não só cinematográficos mas incorpora todas as artes que auxiliam na composição da “ilusão teatral'.

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