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Ficção, crítica, história e teatro na TV Nelson, sempre no topo das vanguardas - Parte I
O biógrafo de Nelson Rodrigues, jornalista Ruy Castro, relacionou a época em que foi escrita A mulher sem Pecado - a primeira peça do dramaturgo – meados de 1941 , a um predomínio de montagens do eixo Procópio-Jaime- Dulcina . O teatro brasileiro , segundo descreveu, ia do “Rocio à Cinelândia”. Ele queria dizer com isso que o Rocio era o antigo nome da praça Tiradentes (RJ), onde imperava o Teatro de revista . E a Cinelândia, que supostamente deveria abrigar o “teatro sério” era o reduto de Procópio Ferreira, Jaime Costa e Dulcina de Moraes. Todos os autores da época queriam escrever para eles e Nelson Rodrigues não desejava fugir a regra (CASTRO,1992 p.151). Sua intenção era a de escrever uma chanchada a exemplo de Família Lero Lero, de Magalhães Júnior que fazia grande sucesso. Para compensar suas dificuldades financeiras, bastante críticas naquele momento, pensou em tentar algo do gênero para ganhar dinheiro. Nelson escreveu mais tarde: Fui para casa decidido a fazer uma chanchada. Escrevi a primeira e a segunda páginas. A peça tomou conta de mim e saiu uma coisa tenebrosa : um mendigo humano, espectral, paralítico e uma mulher que foge com o chofer...(NELSON, 1949, p.16) A Mulher Sem Pecado não é uma chanchada e nem lhe trouxe dinheiro. O espetáculo estreou a nove de dezembro de 1942, no Teatro Carlos Gomes, numa montagem da Comédia Brasileira, uma companhia subsidiada pelo SNT, sob direção de Rodolfo Mayer e ficou apenas duas semanas em cartaz. O marido ciumento torturando-se e à sua mulher era um texto incomum . Principalmente numa época em que costumava-se dar gargalhadas em peças de adultério mas na peça de Nelson Rodrigues, o protagonista, Olegário, envereda-se por caminhos psicológicos até então ausentes da produção dramatúrgica da época. Nelson começaria a exibir os fantasmas do subconsciente , em vez de confiná-los em espaços subterrâneos. Deixava emergir sua atração pelas correntes obscuras da interioridade humana, o que caracterizaria toda a sua obra teatral a partir daí. Em A Mulher sem Pecado, o procedimento obsessivo e paroxístico de Olegário é uma característica definidora do herói rodriguiano. A sua trajetória delirante (at~e o próprio aniquilamento) concentra no personagem uma força, um vigor que o transforma em criatura exorbitante, exacerbada. S”ao traços comuns a tantos outros personagens que Nelson Rodrigues iria criar em toda sua obra. Seus heróis fazem uma espécie de psicodrama . Vivem suas fantasias de forma exteriorizada. S”ao compelidos a afirmar sua natureza de maneira mais radical possível . A partir de A Mulher sem Pecado a morbidez passou a figurar na galeria de seus personagens abrindo desvãos psicológicos , aguçando os frágeis limites entre a loucura e a sanidade. “Não tenho medo de confessar minha morbidez” - diria o autor – “E eu a compreendo e a recebo como uma graça de Deus”. ( Depoimento N. R. TV Cultura ) Da semi-obscura A Mulher sem Pecado para a segunda peça, Vestido de Noiva , Nelson Rodrigues deu um salto definitivo na renova~c”ao do teatro brasileiro moderno, contando decisivamente com a direção de Ziembinski. O espetáculo, encenado pelo grupo Os Comediantes, em 28 de dezembro, de 1943, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, obteve enorme sucesso celebrizando o autor que passou a ser uma referência obrigatória no processo da dramaturgia nacional . Enquanto em A Mulher sem Pecado, Nelson Rodrigues faz uma análise de uma situa~c”ao transcorrida no plano real, Vestido de Noiva rompe o véu da consciência e faz uma projeção exterior do subconsciente da protagonista Ala~ide ,nos planos da memória e alucinação enquanto que o plano da realidade serve para situar a aventura da subconsciência . Apesar da boa acolhida da peça junto ao público e a crítica, na fase seguinte, ou seja, o ciclo das peças míticas iniciado com Álbum de Família , levou-o ao quase ostracismo. O texto, escrito em 1945, ficou interditado pela censura at~e 1965. Muitos condenaram o dramaturgo que passou a ser sinônimo de obsceno, tarado, pela “insistência na torpeza”, “falta de diálogo nobre, morbidez, imoralidade etc. Em artigo de 1949, para a revista Dionysos, sob o título “Teatro Desagradável”o dramaturgo escreveu: Com Vestido de Noiva conheci o sucesso com as peças seguintes perdi-o para sempre. Não há nesta observação nenhum amargor, nenhuma dramaticidade. Há simplesmente, o reconhecimento de um fato e sua aceitação . Pois a partir de Álbum de Família – drama que se seguiu a Vestido de Noiva – enveredei por um caminho que pode me levar a qualquer destino , menos ao êxito . Que caminho será este: Respondo; de um teatro que poderia chamar assim – desagradável . (...) No gênero dessas inclui desde logo, Álbum de Família, Anjo Negro e a recente Senhora dos Afogados . E por que peças desagradáveis? Segundo já disse, porque são obras pestilentas, fétidas, capazes ,por si só de produzirem o tifo e a malária na platéia. As obras apontadas por Nelson Rodrigues de “desagradáveis” foram incluídas da fase mítica do seu teatro e têm em comum o fato do autor ter investido no inconsciente primitivo, nos arquétipos e mitos ancestrais . Sua última peça desta fase, Dorotéia , escrita em 1949, fugia totalmente aos moldes do teatro que se praticava no Brasil nos anos 50 o que levou o espetáculo também ao insucesso. O vanguardismo de Nelson Rodrigues, sua natureza metafórica , sobretudo em pecas repletas de símbolos, sinais, sugestões, afastaram o publico de seu teatro. Sua ultima fase, iniciada com A Falecida, em 1953 foi denominada por Sábato Magaldi como a fase das tragédias cariocas. O autor retoma a realidade consciente , onde predomina o espaço concreto em que os personagens movimentam-se , sobretudo na Zona Norte do Rio de janeiro. As tragédias cariocas já eram um sucesso no jornal Ultima hora, transformadas em crônicas ou contos de A Vida Como ela ~E . Nessa fase Nelson utilizou temas melodramáticos , situações folhetinescas e excessos tropicais trabalhando com uma estética popular . As tragédias do subúrbio por~em v'ao incluir o psicológico , o mitológico numa dimensão social sem ser proselitista . Sábato Magaldi considera que poucos dramaturgos revelam, como Nelson Rodrigues, um imaginário tão coeso e original, e com um espectro tão amplo de preocupações psicológicas , existenciais sociais e estilísticas. Por isso A Mulher sem Pecado contém em germe, todas as características do dramaturgo que poderão se observadas aos longo de seu teatro. ( No final dos textos apresento a bibliografia ). O Click não se responsabiliza
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