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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Obras inesquecíveis na televisão

No inicio dos anos 70, a TV Cultura flertava com o teleteatro e iniciou em 1974, o seu Teatro 2, com a estimulante presença de diretores como Fernando Faro, Antônio Abujamra, Cassiano Gabus Mendes e Antunes Filho. A idéia inicial era a de realizarem adaptações de textos literários para a TV e estava fundamentada em uma orientação de cunho cultural, que de resto, já era a orientação geral da TV Educativa . Pensava-se em levar ao conhecimento do público, obras culturalmente importantes graças ao seu valor artístico e sobretudo pelo fato de arrancar do esquecimento textos fundamentais do teatro brasileiro e levá-los a público numeroso.

Dentre esses tesouros gravados em videoteipe que em 1977 somavam aproximadamente 80 telepeças, poucas coisa restou nos arquivos da TV Cultura e tornaram-se inviáveis para retransmissão devido às limitações técnicas da emissora e nenhum empenho por parte das sucessivas administrações do canal. O único teleteatro possível foi, felizmente, o Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, adaptado e dirigido por Antunes Filho, e que foi ao ar, no dia 28 de dezembro de 1974, para comemorar o aniversário da encenação revolucionária da peça que alterou radicalmente todos os conceitos e formas do teatro brasileiro Se em dezembro de 1943, Ziembinski dirigindo o grupo

Os Comediantes, com cenários de Santa Rosa, conseguiu fazer com um texto de Nelson Rodrigues o equivalente ao que Oswald de Andrade havia feito na poesia, 31 anos depois, Antunes Filho conseguiu realizar o momento mais sério e criativo que a televisão já teve, tornando-se uma espécie de clássico que é reapresentado por ocasião das comemorações de aniversário da TV Cultura.

A TV Cultura extinguiu seus teleteatros que estavam trilhando um caminho ímpar na televisão brasileira . “Foi uma pena que o Estado abortasse” esse tipo de pesquisa, reclama Nathália Timberg . “Não podemos entender que a televisão estatal,, pelo menos, não seja um parâmetro para essa qualidade já alcançada com a teledramaturgia adaptada do teatro.”conclui.

As possibilidades dos textos dramáticos adaptados para a televisão são múltiplas . Do texto de partida ao veículo de chegada , ou seja, a tradução intersemiótica de uma obra pode gerar um criador, um teledramaturgo que ofereça à grande audiência de TV, uma oportunidade única de ver uma grande obra dramática . O teatro, até então, restrito a uma platéia reduzida, seria ampliado para um público numeroso através do teleteatro. O teatro representa, na televisão, um papel que não deve ser negligenciado, pois todo um público só verá o teatro sob a forma de uma retransmissão, de uma gravação ou de um teleteatro.

Ao reportarmo-nos à televisão feita nos anos 70, acredito estarmos diante de uma experiência histórica de teleteatro. Antunes Filho fez para a televisão brasileira uma nova leitura da obra rodriguiana e, com ela, atingiu momentos antológicos na carreira dos nossos teleteatros, conseguindo realizar um dos momentos mais sérios e criativos que a ficção já teve no Brasil. Na ocasião, J.N. Pinto, crítico de TV de O Estado de São Paulo, escreveu: “da mesma forma que o Vestido de Noiva, de Ziembinski nunca foi esquecido, a adaptação de Antunes Filho para a TV será sempre um marco, uma espécie de clássico da TV de ficção no Brasil”.

Experiências similares chegam, com freqüência, à nossa pequena tela. É o caso, por exemplo, da série Contos da Meia Noite, exibida desde março de 2004 pela TV Cultura. Trata-se da leitura de obras de autores da literatura nacional a partir de padrões cenográficos e interpretações inusitados. Atores como Marília Pêra, Antônio Abujamra, Mateus Nachtergaele, Maria Luiza Mendonça, Beth Goulart, Giulia Gam, entre outros, declamam contos de Machado de Assis, Arthur Azevedo, Ribeiro Couto, Dalton Trevisan, Coelho Neto, João do Rio, Sílvio Fiorani, Aníbal Machado e Luis Fernando Veríssimo. Esses programas, com duração curta, são experiências que provam a função respeitável esperada da televisão brasileira. São modestas contribuições no sentido de se introduzir o público leigo no campo da produção literária e as quais se observarmos bem, vêm resistindo ao longo dessas seis décadas da implantação de emissoras de televisão no Brasil, desde os remotos teleteatros dos anos 50 até às minisséries reproduzidas a partir de obras de autores nacionais.

A qualidade em televisão passa, pois, sem dúvida, pela difusão ampla de obras universais que vêm sendo transmitidas desde os tempos das suntuosas e caras “adaptações” de clássicos da literatura ou do teatro

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