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Ficção, crítica, história e teatro na TV Adaptação e Criação em Cidade de Deus
Um tom azul é misturado a um tom vermelho e o
resultado chama se violeta e não de uma “ dupla exposição”de
vermelho e azul. A mesma unidade de fragmentos de palavras permite todo
tipo de variação expressiva possível. A atividade tradutória envolve um universo multifacetado de questões no qual atuam em conjunto, o autor do texto de partida , o tradutor-adaptador, o veículo e os receptores. Cada um desses possui suas especificidades , estabelecendo um grande número de problemas para os quais é necessário encontrar soluções. Como ter controle sob algo tão vasto? As questões formam um emaranhado em aparente desordem , cujos temas atam-se às formas num contínuo fluxo e refluxo . A complexidade e a riqueza de um processo intersemiótico aumenta ainda mais quanto se tenta relacionar literatura e televisão . Nesta tarefa, ao apreciarmos os conceitos utilizados diferentemente pelos dois veículos, vimos que não são muito precisos. “Traduzir”, em sintonia com o pensamento de
Roman Jakobson, seria, no caso, manter a semelhança de uma estrutura
com outra forma, que se torna metáfora crítica do texto
traduzido, pressupondo para tanto que a qualidade do produto resultante
depende mais das qualidades repertoriais e inventivas do tradutor do
que, propriamente d, de teorias ou preceitos prévios A transcrição de linguagem irá alterar o suporte lingüístico utilizado para se contar uma história. Alteramos uma unidade de conteúdo e forma no momento em que fazemos que esse conteúdo seja expresso em outra linguagem dentro de um processo de criação com base no maior ou menor aproveitamento da obra original. O termo “adaptação” tornou-se popular no contexto cinematográfico para identificar películas cuja obra cinematográfica não se apoiava num roteiro original e o público podia identificar nos letreiros em cartaz nos cinemas , o subtexto, ou fórmulas como “adaptação de ...”, “inspirado na obra de...”, ou “livremente inspirado em...” . As adaptações passaram a admitir diferentes graus numa escala que vai da adaptação mais “fiel à obra”, ( quando é clara a reprodução de um original transubistanciado ) a “adaptação livre” ( quando o roteirista dá mais ênfase a um aspecto dramático da obra , criando uma nova estrutura para todo o conjunto ) e as que se declaram “baseadas em”( a obra original funciona como ponto de partida material para a construção de uma história que terá nova estrutura) ou ainda, a “recriação” na qual tomam-se algumas liberdades com relação ao texto de partida cujas exigências identificatórias com a obra original são totalmente relaxadas. Sempre que se debate a temática da transcodificação
fílmica de literatura, irremediavelmente, surge a problemática
do grau de fidelidade ao texto-original, como critério de valoração
e aceitação da qualidade da transposição
intersemiótica. Muitos escritores censuram o cinema sempre que se sentem traídos por uma adaptação quando esta é incapaz de transmitir o sentido textual que julga(va)m possuir absoluto,negando dessa maneira, a hermeneutização pluralista dos textos literários que escreveram .Rejeitam a possibilidade de serem lidos de formas diferenciadas e multívocas. Dessa forma, cabe ao produtor de literatura, apagar-se em prol de leituras plurais que a capacidade produtiva dos textos solicita de maneira a não cair em tentação autoral de fixar sentido dos textos que produz, defende Guimarães de Souza. Na visão de Doc Comparato , o fato de recriar implica o risco de que o produto reelaborado perca em relação ao original mas , em muitos casos sucede que a adaptação resulta melhor do que o próprio original . Isto deve-se ao fato de o material da história se prestar melhor para outro tipo de suporte dramático. A adaptação “implica em escolher uma obra adaptável , isto é, que possa ser transformada sem perder qualidade e nem todas as obras se prestam a esse gênero de trabalho”. É interessante observar que adaptar é, portanto, não apenas efetuar escolhas de conteúdo, mas também trabalhar, modelar , uma narrativa em função das possibilidades ou, ao contrário, das impossibilidades inerentes ao meio. Em regime de adaptação deve ter-se em conta que se está em contexto de arte que procura não só uma interpretação do objeto literário mas essencialmente a sua reconfiguração estética . O realizador que adapta literatura distancia-se do leitor que a lê, já que procede a um redimensionamento do livro numa nova obra de arte. Sendo em arte ilimitada a liberdade de criar, não se pode pensar em regulamentações ou instruções estritas sempre que o cinema ou a televisão escolham fazer-se a partir da literatura. A literatura a ser adaptada posiciona-se como um material estético destinado a um outro campo da estética, no qual poderá beneficiar com uma criação/ invenção. Concordo que caberá ao autor, ceder o seu texto para uma operação intersemiótica,sabendo de antemão, que , em se tratando de meios audiovisuais, que adaptar deverá significar uma re-escrita , ou re-interpretação da sua obra. Por essa razão, “um escritor não deve fornecer interpretações da sua própria obra, senão não escreveria um romance, que é uma máquina de interpretações”, nos lembra Umberto Eco . Em suma, a fidelidade que patenteia a crítica sempre que acusa de traição as transposições semióticas que não reivindicam tradução literal da literatura, supões um frontal desalinho com a idéia de que “existe na obra de arte uma substância que dela se desvincula e paira como gratuita oferenda à utilização por parte de quem a recolhe”. .Num dos seus interessantes ensaios reunidos livro Le Théatre au Croisement des Cultures, Patrice Pavis elabora sua teoria da encenação considerando a passagem do texto dramático à cena, como um “parto difícil. Lembra-nos que a encenação, não tem de ser fiel ao texto dramático, uma questão, que segundo ele, pode ser entendida de diversas formas como: “fidelidade ao pensamento do autor”, “fidelidade a uma tradição de desempenho”, “fidelidade à forma ou ao sentido em virtude de princípios estéticos ou ideológicos. Fidelidade sobretudo, é uma ilusão da representação”, reitera Pavis. Produzir uma encenação fiel, seria então, repetir para a figuração cênica aquilo que o texto já diz.Então, para que um bom diretor ? Pergunta. O diretor funcionando como um adaptador do texto de origem não aniquila e nem dissolve o texto dramático pois ele guarda seu status de texto lingüístico mesmo colocado em cena . O autor considera que encenações de um mesmo texto dramático , notadamente, aquelas realizadas em momentos históricos bem diferentes, não “leram”o mesmo texto. É certo que a “letra”, o texto é o mesmo mas seu espírito varia consideravelmente: Não existe no texto um reservatório não estruturado de significados , um baumaterial ,como diria Brecht ( um material de construção ); ele é mesmo o contrário : o resultado de um circuito historicamente determinável de concretização ;significando ( obra-coisa), significa ( objeto estético) e contexto Social ( abreviação daquilo que Mukarovsky chama o “contexto total de fenômenos sociais - ciência, filosofia, religião, política, economia etc) do meio em questão”são variações que modificam a concretização do texto e que ele é mais ou menos possível de reconstituir. No caso de “Cidade de deus”( Indicação
ao Oscar – Roteiro adaptado- 2004) o roteirista Bráulio
Mantovani já ganhou o apoio do autor do livro, Paulo Lins . “Paulo
achou que tínhamos bagunçado o livro dele. Mas, quando
ele começou a escrever roteiros, logo disse: O site O Click não se responsabiliza
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