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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Werther, Emília e Luísa

Amor , a dignidade trágica do pré-romantismo alemão

Com o movimento das luzes em seu último lustre e o nacionalismo, o século XVIII aponta novas tendências que passam a desabrochar simultâneamente, nas publicações da imprensa, palestras, críticas teatrais, procedimentos estéticos e ainda, nos romances, novelas, poemas e dramaturgia . Na Alemanha, as novidades despontam , quase que imprevisivelmente, pelos anos 1770-1780, sob a pressão do movimento Sturm und Drang 1 . Os ideais dos Stürmers 2 norteavam-se pela recusa da rígida estruturação das classes sociais nos estados germânicos, estavam atentos às forças históricas em curso na sociedade alemã e, de forma mais ampla, na Europa. O nacionalismo pedia uma forma de expressão que fosse reconhecida como sua, embora temperada de influências cosmopolitas. A recusa das normas em proveito da expressão direta da realidade sensível era outro traço marcante do movimento que interessava-se pela arte popular, proclamava Shakespeare , rejeitava o modelo estético francês e opunha-se ao artificialismo das manifestações artísticas criadas para e nas cortes. No terreno religioso, o pietismo opõe-se aos dogmas do corpo doutrinário das religiões constituídas. As influências de Diderot e Rousseau são marcantes durante esse período.

E como o amor será tomando pelos revolucionários do Sturm und Drang? No grande Classicismo francês do século XVII, o amor tinha ascendido ao nível dos mais elevados objetos trágicos , abstraídos da realidade cotidiana, e mais tarde, nos começos do romance de costumes da Europa Ocidental, tal como na comédie larmoyante , volta a tomar contato com a realidade comum da vida, perdendo , contudo, em dignidade.

Torna-se mais nitidamente erótico , comovente e sentimental. É dessa forma que o amor será tomado pelos Stürmers , na visão de Erich Auerbach . O movimento literário alemão irá conferir ao amor, novamente a mais elevada dignidade trágica mas sem abandonar o seu caráter burguês e sentimental.

O amor torna-se , pois, para cada ser humano, dentro de todos os ambientes , “sublime como o mais natural e imediato ; as suas mais simples e puras relações parecem condições de uma virtude natural e a sua liberdade diante da mera convenção , objeto do direito natural inalienável”

Tentaremos demonstrar em três obras escolhidas : Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, Emília Galotti,de Lessing e Intriga e Amor,de Schiller, como a literatura revolucionária burguesa expressa-se ainda que em contradições, a tragédia amorosa e suas ramificações na sociedade .

No estudo de Auerbach , “o amor em Luisa Miller, torna-se o ponto de partida do politicamente revolucionário e de um realismo politicamente fundamentado [...] parece haver aqui, uma primeira tentativa de fazer ressoar , num destino individual, toda a realidade contemporânea”
O mesmo se dá em Emília Galotti, quando Lessing constrói sua trama mesclando o singular e o coletivo em várias instâncias contraditórias : o âmbito político é regido pela vontade individual do Príncipe mas no amor, ele não tem autonomia. É o que observa Fátima Saadi:
O indivíduo não tem direitos políticos, no entanto, a autonomia do Príncipe, suficiente para violar os direitos de seus súditos, não basta para livrá-lo de um casamento de conveniência e da etiqueta da corte. O Príncipe chega a invejar a autonomia do conde Appiani, que pôde casar-se com uma burguesa sem posição e sem fortuna..estruturados de forma rígida, os domínios público e privado são, ambos, incapazes de garantir ao indivíduo a felecidade.

Já o amor do jovem Werther por Lotte também vai enfrentar um mundo superficial, estreito e fechado.

O livro, é uma das novelas de amor mais importantes da literatura universal, como observa Lukács, mas, como toda configuração poética realmente grande da tragédia do amor, também Werther nos dá muito mais que uma mera tragédia amorosa. Faz uma exposição típica dos problema de sua época .Trata as contradições do “casamento burguês” . Impõe o ideal do homem livre - tendências já demonstradas em Göetz de Berlichingen, e nos primeiros ensaios do Fausto.
O amor no Sturm und Drang se reveste, portanto, de uma atmosfera trágica no seio de uma sociedade burguesa envolta em contradições , dúvidas e rigidez moral.

O jovem Schiller, em sua fase pré-romântica escreve a “tragédia burguesa”, Intriga e Amor, onde trata o amor do aristocrata Fernando, pela burguesa Luísa Miller. O romance envolve em combate moral, os dois universos distintos do casal ; ele, proveniente do mundo da corte, cruel, corrompido e desumano , enquanto Luísa representa o virtuosismo , a sinceridade e o humanismo da vida burguesa.

Como em Emília Galotti, os súditos carecem de todos os direitos e dependem da clemência ou da inclemência arbitrária do Príncipe, dos seus favoritos e amantes . Nesse contexto, a fatalidade atua , inexoravalmente , atingindo a ambos segmentos sociais e os amantes sucubem apesar do grande amor que os une , a exemplo de Romeu e Julieta.

O argumento empolgou o público germânico no período em que o drama burguês estava em voga . Seu texto, pleno de verbosidade apaixonada, sua grandeza trágica e poética , evocando em muitos momentos a sombra augusta de Shakespeare 7 , fere , revolucionáriamente, o gosto aristocrata tendenciosamente afrancesado da Alemanha daquele tempo

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