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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Aliança teatro e cinema cria o fantástico expressionista

Parte 1

Em 1912, o cinema alemão ainda concorria com o teatro, cujos representantes, assim como toda a elite reagiam com desprezo à nova arte . Os diretores teatrais ainda proibiam seus atores de atuar em filmes . Na França, ao contrário, a Pathé , já havia fundado, em 1908, uma Société Cinématrographique des Auteurs et Gens de Lettres,desenvolvendo o chamdo Film d’Art , engajando escritores, dramaturgos e grandes atores de teatro, incluindo os membros da Comédie Française.

No mesmo ano, na Inglaterra, o dramaturgo Emil Moreau escrevia especialmente para a grande atriz Sarah Bernhartdt , o filme Queen Elisabeth. Os produtores alemães então, resolveram contra-atacar obtendo de escritores como Jakob Wassermann, Oscar Blumenthal, Gerhart Hauptmann, Hermann Sudermann e Arthur Schnitzler o direito de adaptar suas obras para o cinema. Ousando mais ainda, o produtor Paul Davidson , responsável pelas primeiras salas de cinema na Alemanha além de outras tantas de teatro, quem mudou radicalmente a situação. Primeiro, Davidson importou da Dinamarca sua principal estrela, Asta Nielsen para rodar diversos filmes com seu marido Urban Gad. Depois, atraiu para o cinema o grande encenador Max Reinhardt , diretor do Deutsches Theater de Berlim , que revolucionava o teatro com efeitos mágicos de luz, obtendo em cena a atmosfera de quadros de Rembrandt.

O dramaturgo mostrava-se um notável diretor de atores, com um gosto pelo fantástico que prenunciava o expressionismo. Mas, acredita Anatol Rosenfeld, estudioso do teatro alemão, ( Teatro Alemão – esboço histórico .Parte 1. São Paulo: Brasiliense) que conquanto avançasse ocasionalmente até o expressionismo, Reinhardt nunca foi um diretor engajado nesse movimento porque não entusiasmava-se demasiadamente pela abstração extrema e o espiritualismo patético dos expressionistas, afinal, passara pela escola de Otto Brahm.

( Adepto do naturalismo psicológico e do ilusionismo cênico,Brahm equivale , em termos alemães, a Antoine e Stanislavski) embora tivesse rompido com ele, preferiu apresentar personagens matizadas e não arquétipos. Em suas afinidades com o expressionismo, calcadas no livro de Georg Fuchs, “ Reteatralização do Teatro” ( 1909) que influiu de forma diversa , tanto em suas concepções como nas de outros diretores expressionistas, construiu o Kammertheater , teatro íntimo em que o cunho grotesco , opressivo e fantasmal poderia obter o máximo efeito.

Não resta dúvida que Max Reinhardt notabilizava-se pela estilização dos cenários, pela dramatização da atmosfera, pela movimentação de massas no palco , pelo arranjo coral dos coadjuvantes , pelas decorações construídas por fachos de luz, pela utilização das artes plásticas cenografadas, remodelando a natureza real. Assim como na pintura expressionista , também no teatro e no filme, a natureza é negada enquanto tal, e deformada para expressar as convulsões da alma, compondo uma clautrofobia existencial.

A encenação expressionista usava, de preferência, um palco achatado, pouco profundo, em que colocavam alguns elementos “veristas”, mas deformados pela visão subjetiva, obsessiva , do personagem central. Os elementos reais cercados de sombras, pareciam flutuar no vácuo,arrancados do nada pela iluminação elétrica, com violentos contrastes de claro-escuro , depois devolvendo os personagens às trevas. A luz, bem de acordo com o ensinamento de Appia, longe de ser apenas veículo de visibilidade, tornou-se recurso expressivo de grande poder contribuindo intensamente para a subjetivação onírica ou deformadora da cena, modelo mais tarde incorporado ao cinema. O filme herdaria também do teatro, a maquiagem violenta que torna a face em máscara arquetípica, através do tratamento hiperbólico dos traços, muitas vezes levados à caricatura e ao grotesco ou à rigidez da marionetes. Com a chamada “máscara branca”, uma maquiagem utilizada nos filmes expressionistas, o personagem se isola dos outros, porque carrega o drama em seu corpo .Também as olheiras permanentes dos heróis expressionistas não são olheiras de cansaço , nem olheiras de doença .São olheiras filosóficas , de inquietação existencial, reflexos da pressão constante do Mal impressos na face dos que vivem nos limites da existência.

Os atores formados por Reinhardt como Paul Wegener, Albert Bassermann, Theodor Loos, Conrad Veidt, Werner Krauss, Emil Jannings, Alexander Moissi, Jacob Tiedtke, Max Pallenberg, Lucie Höflich, Viktor Arnold, entre muitos outros , descobriram no cinema a possibilidade de atingir um enorme público que mais tarde, gostaria de vê-los em “carne e osso”, no palco. A maioria participa de diversos filmes expressionistas , é o caso, por exemplo, de Krauss e Veidt no lendário Gabinete do Dr. Caligari ( filme que marca o expressionismo no cinema, em 1919- direção de Robert Wiene).

O produtor Paul Davidson conseguiu quebrar também o boicote da classe teatral com um contrato exclusivo assinado com o sindicato dos dramaturgos e criou o Autorenfilm – filme de autores – que levava prestígio ao cinema , destacando nas películas os nomes dos dramaturgos, mais do que os dos atores e diretores. Nesse período, o público assistiu ao primeiro drama psicanalítico do cinema , Der Andere ( 1913) , baseado na peça de Paul Lindau e dirigido por Max Mack Após uma queda do cavalo, o advogado dr. Hallers, é tomado por uma dupla personalidade . Possuído por seu outro “eu”converte-se num homem sem moral que, influenciado por um bandido de rua, assalta a própria casa. Após ser denunciado por uma garçonete, a polícia prende o bandido e o advogado em trajes vulgares. O choque da prisão, arruína a auto-estima do dr. Hallers, que aceita ser tratado e curado. O ator Albert Bassermann , cujo talento empolgava as maiores personalidades do mundo intelectual e artístico da Alemanha, provocou uma série de resenhas dedicadas ao filme, publicadas na imprensa o que ajudou a quebrar , definitivamente, o tabu em relação ao cinema conseqüentemente, ajudando a criar a “crítica de cinema” no país.

Outro fato importante na Alemanha que une teatro e cinema é a atuação de Paul Wegener no filme O Estudante de Praga ( 1913) , encomendado a Hanns Heinz Ewers e dirigido pelo dinamarquês Stellen Rye. Notável para a época era a trucagem que permitia ao ator, no papel do estudante Balduin, contracenar consigo mesmo. Tal representação do “duplo”era impraticável no teatro. O estudante Balduin aproxima-se do barbado Scapinelli , possuidor de poderes mágicos e diabólicos. Arrasado pela falta de dinheiro, assina com ele um contrato que o deixa abarrotado de moedas de ouro. Em torça do ouro , Scapinelli retira da casa do estudante, algo que o interessa: o reflexo do rapaz no espelho. Embora notando o ocorrido, Balduin parte para uma vida de aventuras, festas e desperdício , passando a cortejar a condessa Margit clandestinamente. Um desses encontros é realizado no cemitério de Praga.

Entre lápides e túmulos Balduin e a dama passeiam , num idílio romântico. Subitamente, por trás de uma das lápides, surge o reflexo do estudante, aterrorizando a dama , que foge em disparada. Uma cigana, antiga enamorada de Balduin, denuncia os encontros ao Barão, pretendente e primo de Margit que desafia o estudante para um duelo. Quando parte para o local determinado, Balduin cruza com seu reflexo que lhe mostra uma espada suja de sangue. Cada vez mais autônomo e perverso, o reflexo domina Balduin . Quando sua amada olha para o espelho do quarto e não vê o estudante, parte horrorizada para sempre. Balduin toma uma espada para suicidar-se mas, sentindo a proximidade do fantasma , dispara contra o reflexo. “Resolvido”, exclama, vendo-se novamente no espelho. Mas a alegria dura pouco: uma mancha de sangue cresce na camisa branca; disparando contra o reflexo , atingira a si mesmo . Scapinelli aparece no quarto e rasga o contrato sobre o cadáver do estudante. No cemitério, o reflexo aparece empoleirado sobre o túmulo de Balduin.

O argumento de Ewers era um efetivo pastiche de diversos temas da literatura fantástica: o pacto diabólico de Fausto , a corrupção da imagem de Dorian Gray, a atmosfera dos contos de Hoffmann. Sacapinelli lembra o Conde Dapertutto, a personagem grotesca de Hoffmann. Mas seria Richard Oswald , adaptador e diretor quem faria uma série de filmes de detetive e mistério entre os quais o ator de teatro Werner Krauss , em seu primeiro papel no cinema, encarnaria o próprio Conde Dapertutto.

Enquanto isso, o teatro alemão estava povoado por encenadores que levavam a tendência expressionista às últimas conseqüências, transformando a cena berlinense, num laboratório fascinante de repercussão universal. Contam-se diretores como Leopold Jessner, Heinz Hilpert, Karlheinz Martin, Juergen Fehling e, em parte Erwin Piscator que esmagava o ser humano entre grandes estruturas metálicas e documentações cinematográficas.

O Die Tribuene foi um dos teatros mais importantes da cena expressionista. Com seus 300 lugares , foi inaugurado em 1919, com a peça, A Transformação, de Toller. Eliminou a caixa do palco, preferindo uma plataforma um pouco acima do nível da platéia .Sem luzes de ribalta, sem ponto ( coisa rara num mundo teatral com programa de repertório) , sem cortina, sem bastidores para começar a transformar o espaço cênico.
Fehling tornou-se famoso por lançar um estilo de desempenho de ator que foi também assimilado pelo cinema .“Aquecia” a emoção do ator até “ferver” para que se enregelasse no momento do êxtase máximo . A “figura”espumava, tinha olhos esgazeados, e se postavam , de súbito, paralisados como estátuas e permaneciam longamente em atitude rígida, de punhos cerrados , mas com as emoções esguichando da musculatura retesada.

De fato a criação de formas deliberadamente deformadas , o sacrifício do discurso ao essencial, a captação de um mundo em frangalhos,a preocupação com a doença e morte, a sublimação da loucura em contrastes e dissonâncias, o gosto pelo insólito e a visão de um absurdo que tira para sempre , a alegria de viver eram comuns nos artistas ligados ao expressionismo , como define Luiz Nazário ( As sombras móveis - Belo Horizonte: UFMG, 1999). No cinema, o expressionismo encontrou um terreno fértil , ainda aberto a todo tipo de experimentação, onde os artistas puderam realizar a maior parte de todas suas revoluções.

O sonâmbulo César, de O gabinete do dr. Caligari foi um dos “monstros involuntários”que se multiplicaram nos filmes expressionistas onde os criminosos praticam o Mal inconscientemente, levados por uma complusão irresistível e da qual se arrependem ao retomar a consciência. Em Von Morgens bis Mitternacht (1920) filme baseado na peça expressionista de Georg Kaiser, um caixa rouba o dinheiro do estabelecimento onde trabalha e, da aurora à meia-noite , vê-se perdido entre desejos confusos, atormentado pelos demônios da culpa tendo visões cruzando com mulheres que ora parecem policiais ora tomam a forma da Morte.

No teatro, Kaiser, Sternheim e Barlach foram os principais dramaturgos desse período mas o estilo expressionista perpetuou-se tanto no teatro como no cinema e nenhum encenador ou cineasta moderno pode ignorar as pesquisas daquele movimento.Dramaturgos como Eugene O’Neill, Nelson Rodrigues, Arthur Miller, Oswald de Andrade, Mas Frisch, Friedrich Duerrenmatt e tantos outros receberam enorme influência do expressionismo em suas obras.

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