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Ficção, crítica, história e teatro na TV Algumas palavras sobre roteiro
Poderemos tomar como base para o estudo dos procedimentos
que levam adaptadores de obras literárias a criarem espetáculos
teatrais, ( são também considerados dramaturgos ) as diretrizes
apontadas por Linei Hirsch . A autora propõe uma metodologia
definida como “transcriação teatral”onde são
vistos os mecanismos utilizados para a passagem do texto narrativo-literário
para o palco. Segundo ela, a terminologia “transcriação”
foi retirada da Teoria da Literatura, mais precisamente na conceituação
de Haroldo de Campos para a Tradução Poética para
designar uma obra dramática proveniente de uma obra literária
narrativa . O neologismo utilizado para designar tradução
poética pareceu-lhe plenamente satisfatória para denominar
as obras dramáticas advindas da Literatura, pois contém
as idéias de “transcodificação “e de
“criação’. Ampliação – é um mecanismo oposto à condensação porque funciona como uma lente de aumento para focar determinado assunto ou personagem . Pode, ainda, como já comentamos acima, trazer ao universo dramático aspetos de outras obras do autor enfocado, que, de algum modo, têm relação com a obra de base; Fragmentação – procedimento que extrai da obra de base uma unidade, fraciona-a e redistribui-a pela obra dramática . Ao fracionar essa unidade, os elementos ficam evidentemente, menores e, por essa razão são passíveis de ampliação posterior; Associação – é oposta à fragmentação. Tem por objetivo unir episódios que se encontram em capítulos diferentes , na obra de base e coloca-los em uma ordem seqüencial na peça. Tal mecanismo permite ao dramaturgo alterar a Trama, sem com isso alterar a Fábula da obra de base. Como a transcriação teatral será regida pelas leis do teatro, é fundamental o trabalho de um dramaturgo pois tal tarefa não se realiza sem o conhecimento de dramaturgia . É imprescindível que o autor dramático transcriador tenha habilidade na criação de diálogos pois irá criar um texto absolutamente original e, ao contrário do cinema e televisão, o teatro é mais exigente (tanto a crítica quanto o público) na cobrança do transcriador de uma “fidelidade” ao autor da obra literária de origem , ou melhor,identificar-se ao projeto do autor da obra narrativa de base. Os candidatos a dramaturgos , afirma Ilíada de Castro partem para o processo de adaptação sem medirem esforços . “Tentam a reprodução o mais fiel possível da história, mantendo o enredo, a característica dos personagens e as falas” apenas alterando o que pensam ser imprescindível para que a obra possa atingir o público através de outro código, sem dúvida, o da linguagem cênica.“Esses criadores acreditam que mantendo a organização da estrutura, com o mínimo de modificações do original, o resultado será a colocação da obra literária no palco”, assegura Castro.. Os procedimentos do dramaturgo/adaptador, na visão de Ilíada de Castro para transformar a linguagem narrativa em dramática exigem inovações significativas , pois na linguagem da ação, os personagens tornam-se donos do espaço , o que incide na forma de apresentação do enredo e dos próprios personagens e ainda, na obra narrada , a palavra é o único elemento para a transmissão da obra e no teatro, ela é apenas um dos componentes.. O dramaturgo utilizará, os mecanismos listados por Linei Hirsch especialmente, a condensação ou ampliação de personagens e fatos da narrativa. O dramaturgo imagina o seu texto no palco porque ele deverá escrever além dos diálogos, as rubricas que completam as informações da linguagem visual - gestual e plástica – e sonora – sons , ruídos e música. O aspecto temporal é também observado aqui ( como já vimos no cinema e televisão ). O espetáculo teatral impõe limite de tempo , e exige “concentração”das cenas pois o tempo de fruição do espectador é delimitado , enquanto que na obra literária esse tempo é individual e variável. O espaço também é limitado mesmo que o diretor queira romper com o tradicional palco italiano e partir para relações espaciais diferentes entre atores e platéia. Com a presença do ator, a comunicação é direta, opondo-se ao uso da imaginação, exigido pela narração. Aqui se abandona a idéia de encenar uma história
e se adota a de produzir uma peça teatral identificada com o
texto original, que seja porém, uma obra de Arete autônoma
, com suas próprias características, conforme às
leis da dramaturgia. Na transformação de narrativa literária
em texto dramático, o transcriador deve assumir, sobretudo, o
papel de dramaturgo Para Nunes, essa forma de adaptação faz com
que a voz do autor desapareça, transmudadas nas vozes dialogadas
dos personagens. Ao contrário, sua proposta é a de conservar
o discurso autoral através da narração , descrição,
comentário ou reflexão. A fala autoral é atribuída
ao ator que ,por sua vez , resgata uma forma milenar de comunicação
,saltando do mundo ficcional para contá-lo ou comentá-lo
como era prática comum no teatro grego, romano, medieval, elizabetano
e espanhol : Em A Vida Como Ela É , Luiz Arthur não quis desprezar a narração “saborosa de Nelson Rodrigues, os comentários agudos , o estilo tão faiscante e a imagética tão poderosa”do dramaturgo. Esse procedimento para levar ao palco as crônicas rodriguianas faz com que o autor/narrador quase dispute o território com os personagens em determinados momentos. A dramaturgia de Luiz Arthur Nunes é fidelíssima ao material fornecido por Nelson Rodrigues que, muitas vezes, mesmo distante do exercício dramático fornecia praticamente cenas “prontas para o palco”, atesta Nunes, o mesmo não acontecendo com a novela de Henry James, conduzida por um narrador que elege como campo de observação a subjetividade de dois personagens . O relato introspectivo que dominou a maior parte da ficção ao ser transposto para o palco poderia resultar num discurso excessivamente intelectualizado e literário. Nesse caso, o dramaturgo optou por transportá-lo para a primeira pessoa e reparti-lo entre os protagonistas , transformando a extensa fala monológica em diálogo de narrações e comentários , numa dinâmica de elocução, que o palco exige. “Minha pesquisa, afirma Luis Arthur , não se limita a penas em investigar as formas de teatralização do discurso narrativo . Preocupa-se ainda mais com a sua interação contínua com o dramático”. Assegura que ao passar para o teatro, a ficção literária enriquece-o com uma liberdade de procedimentos e uma multiplicidade de recursos que lhe eram negados pelas velhas tradições canônicas . Em contrapartida o teatro faz a palavra do escritor materializar-se no palco. O encenador vê no jogo interativo entre texto literário e texto cênico “ uma via de revitalização da invenção dramatúrgica e cênica” lembrando que o Brasil demorou para arriscar-se nessa aventura mas que hoje já possui na história de seu teatro experiências fecundas como as de Bia Lessa ( composta quase que totalmente por romances teatralizados como Orlando , de Virgínia Woolf ,Os Possessos, de Dostoievski, Viagem ao Centro da Terra,de Júlio Verne e O Homem Sem Qualidades , de Robert Musil. Também Aderbal Freire Filho transpôs para o palco, quase integralmente, o romance de João de Minas A Mulher Carioca aos 22 Anos e o conto de Guimarães Rosa, Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha. Luiz Carlos Vasconcelos e André Paes Lemes levaram ao palco as memoráveis Vau da Sarapalha , de Guimarães Rosa e Alcassino e Nicoleta,história anônima da tradição oral medieval. Acrescentamos ainda, a encenação de Regina Bertola, do romance de Guimarães Rosa, Grande Sertão : Veredas sem contar as lendárias A Hora e a vez de Augusto Matraga, (G. Rosa) e Macunaíma ( de Mário de Andrade) na direção de Antunes Filho . O site O Click não se
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