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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Da Literatura ao Palco

No momento em que um romance,conto ou lenda é adaptado para o palco , estamos diante de uma operação semiótica de transferência . O romance é transposto em diálogos que podem ser bem diferentes dos originais e sobretudo ganha ações cênicas que usam todas as matérias da representação teatral ( gestos, imagens, música etc) .

O ato de transformar histórias narradas em encenações é uma prática antiga na história do teatro . A transformação da rotineira lenda de heroísmo medieval na tragédia de Shapespeare é um dos mais famosos mistérios da literatura universal, nos lembra Bárbara Heliodora . Como os gregos anteriormente e Molière , depois , Shakespeare não teve qualquer preocupação com a originalidade de seu material .E o importante em Hamlet, diz sua tradutora, é o que resulta de uma história mais do que conhecida anteriormente à qual seu gênio “imprimiu vida nova por sua capacidade de , mudando o ponto de vista, dar-lhe maior alcance, intensificar-lhe o conteúdo por meio de novas formas”. A lenda heróica de Hamlet tem sua origens longínquas na Edda , figura que tem suas origens nas sagas nórdicas e já chegou às mãos de Shakespeare retrabalhada por vários autores.

A figura original de Amleth já havia passado pelas mãos de Saxo Grammaticus, Belleforest, e até mesmo de um autor teatral, possivelmente Thomas Kyd, (autor da Tragédia Espanhola ) que teria escrito uma antiga versão da história – o chamado Ur- Hamlet - que desapareceu sem deixar vestígios e hoje não passa de uma hipótese. E como todas as outras ocasiões em que o dramaturgo utilizou e material alheio, não fez mais do que mudar a ótica para realizar o total do potencial antes desperdiçado.
Hoje são numerosos os exemplos de obras narrativas e líricas transpostas para o teatro , bem como a indicação de casos também muito abundantes de teatralizações de contos, romances , folhetins, cartas, poesias , relatos, depoimentos,biografias e até notícias de jornais, ou seja, de textos não literários , usualmente utilizados em cena , sem mesmo passarem por processos de nítidas adequação à forma dramática, como salienta José da Costa O transporte do modo narrativo para o dramático , cujas fronteiras do drama se alargam, chega ao ponto de incluírem na encenação, roteiros cinematográficos e até mesmo fragmentos de falas esparsas , desconexas, usadas apenas para pontuar a dramaturgia cênica do diretor ou do ator a ponto de um estudioso do texto teatral contemporâneo ter dificuldades para distinguir seu objeto de estudo ,quando os artistas passam a usar todo tipo de escritura para eventual encenação, na tentativa de responder as exigências do teatro nesse início de século nos lembra Sílvia Fernandes.

No Brasil, a transposição de textos narrativos para o teatro em trabalhos mais ou menos recentes, envolveram encenadores como Antunes Filho, (Macunaíma, A Hora e a Vez de Augusto Matraga; Gilgamech, Drácula) Luiz Arthur Nunes , ( A Vida Como ela É, Cândido, Correio Sentimental de Nelson Rodrigues ) Moacyr Góes, Bia Lessa ( Orlando,Cartas PortuguesasAntônio Araújo, ( O livro de Jó ) Aderbal Freire Filho, O Tiro de mudou a história, Tiradentes) Marcos Fayad e Luiz Carlos Vasconcelos ,( Vau de Sarapalha ) para registrar apenas alguns nomes , preocupados em pesquisas que mostram uma tendência narrativizadora da cena ou alternativas de teatralidade não puramente dramáticas.

Os procedimentos do dramaturgo/adaptador, na visão de Ilíada de Castro para transformar a linguagem narrativa em dramática exigem inovações significativas , pois na linguagem da ação, os personagens tornam-se donos do espaço , o que incide na forma de apresentação do enredo e dos próprios personagens e ainda, na obra narrada , a palavra é o único elemento para a transmissão da obra e no teatro, ela é apenas um dos componentes..

O diretor e dramaturgo Luiz Arthur Nunes reflete sobre a tendência contemporânea da teatralização de obras literárias de ficção .Ele admite que nessa transposição seja possível preservar a voz autoral narradora e confiando sua transmissão, ao “ator rapsodo”. Tal procedimento foi adotado em dois de seus trabalhos : a encenação de onze contos coligidos de A Vida Como Ela É , de Nelson Rodrigues, e da novela A Fera na Selva , de Henry James e difere da simples proposta de adaptação de uma obra do gênero narrativo para o dramático, ainda que busquem manter nessa operação, os conteúdos imaginários e ideológicos do texto-matriz. Para Nunes, essa forma de adaptação faz com que a voz do autor desapareça, transmudadas nas vozes dialogadas dos personagens. Ao contrário, sua proposta é a de conservar o discurso autoral através da narração , descrição, comentário ou reflexão. A fala autoral é atribuída ao ator que ,por sua vez , resgata uma forma milenar de comunicação ,saltando do mundo ficcional para contá-lo ou comentá-lo como era prática comum no teatro grego, romano, medieval, elizabetano e espanhol :

A renovação radical da dramaturgia e da encenação operada nesse século,veio reabilitar o ator , que aqui chamaremos de “rapsodo”, numa alusão óbvia a seus ancestrais . O restabelecimento da teatralidade anti-ilusionista a partir da hibridização da forma dramática com procedimentos épicos e poéticos é, sem dúvida, é uma das maiores conquistas da revolução sofrida pelo palco contemporâneo. Esse movimento levou , nas últimas décadas , ao desenvolvimento da prática da teatralização de textos de ficção literária , salvaguardando sua epicidade constitutiva.O discurso narrativo direto é assumido integralmente: os atores tornam-se porta-vozes do autor-contador.

Em A Vida Como Ela É , Luiz Arthur não quis desprezar a narração “saborosa de Nelson Rodrigues, os comentários agudos , o estilo tão faiscante e a imagética tão poderosa”do dramaturgo. Esse procedimento para levar ao palco as crônicas rodriguianas faz com que o autor/narrador quase dispute o território com os personagens em determinados momentos .

A dramaturgia de Luiz Arthur Nunes é fidelíssima ao material fornecido por Nelson Rodrigues que, muitas vezes, mesmo distante do exercício dramático fornecia praticamente cenas “prontas para o palco”, atesta Nunes, o mesmo não acontecendo com a novela de Henry James, conduzida por um narrador que elege como campo de observação a subjetividade de dois personagens . O relato introspectivo que dominou a maior parte da ficção ao ser transposto para o palco poderia resultar num discurso excessivamente intelectualizado e literário. Nesse caso, o dramaturgo optou por transportá-lo para a primeira pessoa e reparti-lo entre os protagonistas , transformando a extensa fala monológica em diálogo de narrações e comentários , numa dinâmica de elocução, que o palco exige.

“Minha pesquisa, afirma Luis Arthur , não se limita a penas em investigar as formas de teatralização do discurso narrativo . Preocupa-se ainda mais com a sua interação contínua com o dramático”. Assegura que ao passar para o teatro, a ficção literária enriquece-o com uma liberdade de procedimentos e uma multiplicidade de recursos que lhe eram negados pelas velhas tradições canônicas . Em contrapartida o teatro faz a palavra do escritor materializar-se no palco.

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