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Ficção, crítica, história e teatro na TV Texto articula teatro e cinema
Alaíde e Lúcia moram numa casa que tinha sido habitada por Madame Clessi, prostituta afamada, que foi assassinada, em 1905, por seu amante, um jovem de 17 anos. Alaíde se intera de diversos fatos da vida daquela mulher, revirando seus objetos encontrados no sótão e procura em jornais da época, informar-se sobre a surpreendente morte de Mme.Clessi e de seu velório. No começo da peça, Alaíde procura insistentemente por Mme. Clessi, no plano da alucinação e será sempre nesse plano que se dará a aproximação entre as duas. Clessi instiga Alaíde a elucidar os recentes episódios que marcaram sua vida, principalmente, o casamento com Pedro, no plano da memória. Assim descobrem a presença de uma mulher de véu que mais tarde, concluem tratar-se de Lúcia , sua irmã pela qual Alaíde é acusada de sempre “tomar os namorados”, inclusive o último, Pedro. Por outro lado, Alaíde descobre o relacionamento amoroso que sua irmã mantinha com o cunhado, às escondidas. Acredita que os dois, inclusive, estavam planejando sua morte. Num dos embates com Lúcia, Alaíde ameaça: “Ouça bem, eu posso morrer cem vezes, mas você não se casará com Pedro”. Todavia, a ironia do destino, um traço característico da dramaturgia rodriguiana vai provar o contrário: depois de uma viagem à fazenda, Lúcia retorna animada, pois já havia extinguido uma efêmera rejeição à Pedro, experimentada durante o velório da irmã. Agora, prepara-se para o seu casamento com ele. Vestida de noiva está radiante. Sua mãe ajuda-a a vestir-se e sua sogra acha-a “linda! Um amor!” Pergunta excitada se Pedro já chegou, querendo que ele a veja apenas na igreja. A peça termina com Lúcia estendendo os braços para receber o bouquet e Alaíde se aproxima numa atitude de quem vai entregá-lo, quando a cena se paralisa deixando “todos imóveis em pleno gesto”.As luzes se apagam, “só ficando iluminado, sob uma luz lunar, o túmulo de Alaíde. Crescendo da Marcha Fúnebre. Trevas”. A modernização estética introduzida no palco brasileiro com Vestido de Noiva articulava-se com o pensamento de um grupo de intelectuais ligados ao teatro e ao cinema da década. Nelson Rodrigues, sintonizando os anseios da modernização teatral, iria radicalizar a proposta de fragmentação da ação utilizada pelo cinema. E de que forma? João Roberto Faria define bem este procedimento: o autor propositadamente, subverte o tempo cronológico e apresenta uma sucessão de cenas que, fragmentariamente, nos informa que uma mulher atropelada , à beira da morte, sofre uma cirurgia enquanto escapam de sua mente e se materializam no palco , algumas imagens de um passado recente e outras que parecem fazer parte de um sonho delirante. A peça caminha mesclando as lembranças e fantasias da protagonista até o momento em que rompem as barreiras que separavam o plano da memória e da alucinação. Vestido de Noiva é ainda, um grande flashback, conclui Faria. Um procedimento bastante usado em filmes contemporâneos da obra rodriguiana. Vejamos, para exemplificar, o filme Rebecca, de A. Hitchcock, uma produção de 1940, composta de um prólogo de três minutos seguido de um longuíssimo flashback. O personagem central, a jovem senhora de Winter, ao mesmo tempo que funciona como narradora, está onipresente na imagem em posição de não-saber, de não-lucidez, de não-discernimento. Ela é o guia e ao mesmo tempo está no centro da intriga e também “no centro do campo”pois aparece em todas as seqüências do filme. O mesmo se dá com Vestido de Noiva, onde o espectador segue passo a passo o percurso de Alaíde - protagonista agonizante que funciona como guia, numa dupla posição a de narradora/protagonista. Rebecca é um filme gótico que conta a história
de uma jovem , chegando a um lugar “assombrado”, o castelo
de Manderley , onde passa a reconstituir fatos que beiram à fantasmagoria.
Ali habitara Rebecca, a exuberante mulher de Maxim que fora assassinada
pelo marido. Rebecca tinha sido uma mulher sensual e de personalidade
marcante. Do mesmo modo, Alaíde também chega a uma casa
meio sinistra, habitada por uma prostituta que fora assassinada. Ali,
reconstitui os fatos que antecederam seu atropelamento, além
de outros, bastante mórbidos, que explicam o assassinato daquela
mulher que visitava. Assim como a nova Sra. De Winter gostaria de ser
como a cativante Rebecca , Alaíde também tinha seus desejos
reprimidos.Um deles, viver como Mme Clessi que a indaga: “Quer
ser como eu quer? Alaíde (veemente) Quero ,sim. Quero.”E
Clessi continua: “Ter a fama que eu tive. A vida . O dinheiro.
E morrer assassinada? “ As tendências vanguardistas do teatro brasileiro, naqueles anos, já conviviam com os textos dos dramaturgos modernos como Ibsen, Strindberg, Shaw, Hauptmann, Tchekhov e Schnitzler. Eles desvelaram a superfície banal da vida cotidiana, lidaram com a ironia amarga dos diálogos e com os desejos reprimidos. O simbolista Maeterlinck, (Os Comediantes montaram Pelleas e Melisanda) em suas peças, voltava-se especialmente para a vida interior dos personagens, mas ao mesmo tempo, mantinha uma interação com o exterior, o subjetivo e o objetivo, o naturalismo e o não-naturalismo. Todas essas tendências mostram que Nelson Rodrigues dialogava, ao mesmo tempo, com os fundadores da modernidade dramatúrgica. A genialidade de Nelson Rodrigues reside no fato de lidar, ao mesmo tempo, com uma realidade impiedosa que contracena com a deformação expressionista da tragédia de Alaíde. A peça Vestido de Noiva foi também identificada como uma espécie de porta-voz das vanguardas teatrais européias.De certa forma, Nelson Rodrigues correspondeu às expectativas do grupo de intelectuais que se reunia na Associação de Artistas Brasileiros e que se preocupava com a cena moderna. Aqueles que atuavam direta ou indiretamente no setor teatral, acreditavam que a influência de técnicas européias trazidas por diretores refugiados da Guerra, como Ziembinski e Turkov , ou mesmo Louis Jouvet ( que permaneceu aqui, com sua companhia , impedido de voltar à sua terra natal ) contribuíram para elevar os espetáculos ao patamar da cultura internacional de elite e difundir o padrão europeu de teatro. Todavia, nos últimos anos do Estado Novo, apostava-se num projeto mais amplo de modernização do país. Eram tempos da Política de Boa Vizinhança. O Brasil seria aliado de guerra dos Estados Unidos e os símbolos americanos combinados com a aspiração de uma pátria grandiosa povoavam a cabeça dos brasileiros. Nos anos 40, o padrão de vida americano, o fetiche dos gadgets, a sedução pelo cinema, atuavam como tropa na invasão de nossa cultura. Para o público de classe média ascendente e, portanto, mais escolarizado, os Estados Unidos passavam a ser o paradigma. Em certos setores sociais, a divulgação de idéias cosmopolitas através das universidades, possibilitava a substituição da influência européia pela americana. Era preciso superar o nosso “atraso.” E quanto a Nelson Rodrigues ? Teria ele, como muitos acreditam, colhido certas características do seu Expressionismo, na obra de Eugene O’Neill, dramaturgo americano que elegeu Strindberg como seu modelo? O site O Click não se
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