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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Recordando A TV dos anos 70

A década de setenta está intimamente relacionada com a expansão da indústria cultural no Brasil. Quando abordamos a TV brasileira nesse período, de certa forma estamos dialogando com a cultura industrial. Esses anos, passados sob o jugo militar, tutelados pela expansão de bens eletrônicos e motivados pela promessa do milagre econômico brasileiro, têm a TV como veículo mais eficaz . O país não é mais o “subdesenvolvido’dos anos sessenta, período em que a esquerda regeu e deu o tom da produção cultural, consumida inclusive pela burguesia no poder, conforme escreveu Robertto Schwarz. Nos anos 70, de acordo com a análise de Maria Rita Kehl os “noventa milhões em ação” que a televisão cantou até a exaustão por ocasião da Copa de 70 e que podem ser traduzidos em termos mais concretos por 30 milhões em audiência, “não desejavam outra coisa senão serem bem-sucedidos ( ou seja ao nível da ascensão social individual, conquista de símbolos de status)” ou indiretamente através da identificação com uma nação vencedora , um “país que vai pra frente”. A autora observa que o Padrão-Globo de Qualidade (referindo-se à TV Globo) que se firmou sobretudo a partir de 1973, com a chegada no Brasil da televisão colorida é incompatível com a estética do subdesenvolvimento criada por produtores culturais de esquerda – os grupos teatrais Arena e Oficina ( considerando Evidentemente as diferenças entre suas propostas) , o CPC da União Nacional dos Estudantes , os cineastas do Cinema Novo.

O teórico Muniz Sodré ao comentar o período, concorda que a modernização tecnológica das comunicações, conjugada com a reconcentração da renda e uma maior diversificação dos bens de luxo, favoreceu diretamente a expansão da TV no período. A opulência visual eletrônica inaugurada pela TV Globo, “contribuiu para apagar definitivamente do imaginário brasileiro a idéia de miséria, de atraso econômico e cultural”. A partir de 1969, a produção de programas concentra-se no Rio de Janeiro (uma linha carioca para todo o país) com ligações às redes regionais chamadas de “afiliadas”, ou seja, as repetidoras da programação da emissora “cabeça de rede”, no caso a que nos referimos, trata-se da Rede Globo de Televisão.

O telespectador começa a consumir uma imagem glamourizada, luxuosa, que contamina os setores da produção cultural e artística que se propunham a atingir um grande público. A emissora, segundo declarações do então diretor de programação Walter Clark à revista Banas “vive de um universo quantitativo; essa idéia e a de integração nacional, acabaram com a imagem de programas específicos para cada região... A Globo tratou de formular uma programação que induz a esse Universo global”.
A busca de um público maior é compatível com a industrialização generalizada da produção de bens de consumo no país e com a penetração de bens simbólicos, o que cria uma nova mentalidade quanto à relação do fruidor com a obra de arte: agora o circuito pequeno, regional ou local, parecia inútil, patético. A peça única transformava-se num luxo descabido. A linguagem experimental, intimista ou mais elaborada (dos primeiros teleteatros) é vista como “aristocrática”.

No ensaio que escreveu sobre a televisão brasileira, o francês Dominique Wonton defende a idéia de que entre os anos 1964-1975, a TV enfrenta sua fase de “decolagem” no momento em que as classes C e D começam a ganhar acesso ao veículo, incorporando novas e diferenciadas faixas sociais ao mercado de consumo cultural. O governo militar, que dominou o período, oferece à população esse instrumento de modernização e de afirmação da identidade nacional, com a idéia de construir para a grandeza a força do Brasil . Todavia, esse mesmo militarismo esquecia-se das aspirações de liberdade que a televisão poderia estar suscitando. Para Wonton, os militares “serviam-se”da televisão, mas, como sempre, não dominavam a sua influência. A televisão resultou, “ao mesmo tempo, num instrumento de propaganda política, de influência mais ilimitada do que pensavam os militares e também num instrumento de modernização, de identidade nacional e de abertura cultural”. Vamos notar que os realizadores eram muitas vezes progressistas e, se por um lado, as informações estavam sendo rigorosamente controladas, por outro, o resto da programação não o era.

O controle da infra-estrutura não coincidia com o controle do conteúdo programático, freqüentemente burlado por seus realizadores. Em 1976, no ciclo de debates do Teatro casa Grande, Paulo Pontes instigava o público: “... Existem mil truques dramatúrgicos para aproveitar esta necessidade, essa ânsia de coisa viva da televisão. (...) fazer a piada curta que consiga gozar custo de vida, política... relações entre o poder e o povo...”.

A TV vai parecer ao artista, nessa época, como um veículo democrático, que contorna as barreiras de classe e de linguagem, transforma a qualidade em quantidade e abre um espaço para os produtores de cultura que buscavam desesperadamente fugir do ostracismo e que as propostas intelectualizadas de esquerda dos anos 60 os haviam condenado...
Os homens de TV bem sucedidos (assim como os de publicidade) precisavam afiar sua intuição para farejar tendências latentes e fazer delas a sua proposta, aparando evidentemente todas as arestas que podiam prejudicar o bom funcionamento da ordem social. Para manter seu público fiel a televisão precisava recriar o mito a cada dia, roubar a fala marginal ou de vanguarda, enquadrar os “malditos”. Khel acredita que “os cérebros que a televisão suga são aqueles que ela absorve para incorporar suas fileiras”. A televisão era capaz de fundir, sem escapar dos termos da ideologia dominante – ou melhor, a reiterar continuamente essa ideologia – padrões, valores e expressões culturais marginais, minoritárias e de oposição.

Sabemos que desde sua instalação em São Paulo e no Rio de Janeiro, na década de 50, a televisão sempre requisitou autores e atores, dramaturgos, jornalistas, diretores de cinema e teatro, técnicos especializados, cenógrafos, de todos os campos de produção artística. Além da motivação financeira - a TV seduzia com altos salários.A motivação de atores e autores de outras áreas, principalmente do teatro que trocaram o palco pelas câmeras, era a possibilidade de falar para vinte, trinta milhões de pessoas numa só noite. “Em 68, o teatro estava muito cercado, eu tinha duas opções; ou tinha que ser funcionário público ou ir para TV. Mas não tinha o que discutir, se você luta por um teatro de massa, como recusar um público de 20 milhões”, dizia Dias Gomes O dramaturgo ainda acrescenta que a TV é boa ou má ,dependendo de quem faz e que limitações também existem no teatro”. Outra vez, Paulo Pontes , oriundo do grupo de Teatro Opinião, também manifestava-se também a favor do poder democrático da televisão : “... É um veículo essencialmente democrático (...) o grande tema é o que interessa à maioria da população “. Oduvaldo Vianna Filho(Vianinha) que mantinha uma fértil produção para a TV Globo, desde 1968, escrevendo e dirigindo teleteatros em parceria com Paulo Pontes, explicou as razões por que fez televisão, em entrevista a Luiz Werneck Vianna:

A revista TV Guide (americana, com tiragem de 6 milhões de exemplares) fez uma análise da programação mundial de televisões. Chegou à conclusão de que praticamente em todo o mundo, no chamado horário nobre, predomina a produção americana, as séries para a TV: a mentalidade do policial, de um perseguindo o outro. A revista, porém notava, com indulgente estranheza, que num país da América do Sul a televisão não seguia essas normas mundiais. Era o Brasil. No Brasil, das 6 da tarde até as 10 da noite – uma faixa bem mais extensa do que o “horário nobre” – só existe produção de autor nacional, só produção nacional. The novels, como eles dizem. Será que este simples fato não justifica a participação de um homem de cultura na TV brasileira, ou o preconceito exige mais justificativas? Nada tenho contra o que é exibido na TV. O problema da TV não é o que ela exibe, é o que ela deixa de exibir. (...) No plano da formação cultural, a televisão não é criadora – é extensiva, é democratizadora, difusora de valores vigentes socialmente e também difusora de valores espirituais conquistados pela humanidade ao longo de sua grande aventura espiritual. (...).

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