Colunas
Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Antunes Filho Fala Sobre Televisão

Na pesquisa que faço para a minha tese de Doutorado na Uni Rio, onde irei abordar os procedimentos de um diretor de teatro ao recriar uma obra da dramaturgia para a televisão, senti a necessidade de uma entrevista com o diretor teatral Antunes Filho. Diante de suas declarações lúcidas e até mesmo provocantes sobre a televisão brasileira, achei pertinente divulgar parte dessa entrevista aqui, na minha coluna do “O Click”. Espero que vocês gostem . Vale lembrar que Antunes Filho adaptou em 1974 , para a TV Cultura, um clássico da dramaturgia brasileira : Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues.

Na década de 70, você iniciou seu trabalho na TV CULTURA. Segundo depoimento que deu, agora, recentemente na TV SESC/SENAC, você disse que queria fazer uma coisa brasileira e começou a encenar textos de dramaturgos nacionais, você disse que estava fazendo Brasil, na época... você começou...e entre esses textos você escolheu o Vestido de Noiva. E antes de levar o Vestido de Noiva pra TV, você já havia feito A Falecida na Escola de Arte Dramática, em 65 e o Bonitinha mais ordinária, em 73. Estas peças te influenciaram em alguma coisa nessa montagem na TV do Vestido de Noiva?

-Claro! Sempre! Nelson Rodrigues...Resíduos de outras peças do Nelson...eu era e sou apaixonado por Nelson Rodrigues e não estou fazendo mais Nelson Rodrigues. Por enquanto não. Eu queria... Naquela época nós fazíamos teleteatro na TV Cultura. Éramos quatro ou cinco pessoas: era o Cassiano Gabus Mendes, que morreu já, o Ademar Guerra, que também faleceu, o Abujamra.... o Sílvio de Abreu trabalhava de vez enquanto lá com a gente. E o Fernando Faro que até hoje continua com essas coisas brasileiras que ele faz, etc. Cada um fazia uma peça por mês, pra ganhar um dinheirinho por mês. Cada semana era um que fazia um grande espetáculo. E eu iniciei com os brasileiros: Rubem Fonseca, Jorge Andrade, Roberto Gomes...

Eu fazia o que podia do Brasil. Levantar o Brasil. E Nelson Rodrigues, evidentemente, Vianinha, tudo que era brasileiro eu fazia. Mensalmente eu fazia um brasileiro. Me interessava levar a dramaturgia do Brasil, na época e nós tínhamos uma liberdade para fazer...era incrível! Hoje em dia não daria mais pra fazer esse Vestido de Noiva, porque a coisa agora é muito comercial e na época, pra conseguir até o Vestido de Noiva eu estourei o tempo. Eu teria uma semana e eu fiz em quinze dias, estourando o tempo. Foi uma calamidade, mas era permitido. Essas coisas, esses deslizes eram permitidos. Coisas que hoje em dia não é possível. A produção não deixa mais...Tanto é que me gozavam...quando me chamavam na TV Cultura, na sal de produção, o produtor me dizia: “Não me venha com idéias!” É incrível! A gente paga pras pessoas terem idéias e lá...

Chegou um momento... a gente tinha tantas e tantas...eles: “Não me venha com idéias Antunes!” Nós quatro:eu, o Abujamra, o Cassiano e o Ademar, nós brincávamos muito com a expressão. Com o que seria a TV? Nós queríamos brincar, estudar o que era TV. E foi nesse rol de coisas, nesse momento, que eu consegui fazer o Vestido de Noiva, estourando o tempo, estourando a verba de produção... Nós contávamos com uma pessoa nos apoiando muito que era a Nídia Lícia que tomava conta do departamento de teleteatro, então ela nos dava muita força e então foi possível realizar, fazer um pouquinho mais... Hoje não é possível! Estourando mais o tempo e a verba, foi possível naquele tempo. Então foi uma TV que eu chamo de TV Amadora. Hoje em dia é muito profissional.

Antunes, como é para você essa dramaturgia passada para TV? É um dispositivo de enunciação completamente diferente? O Texto de Nelson, ele projetado pra TV? Teleteatro? Como é esse casamento da dramaturgia com a TV pra você?

-É outra mídia. Outro meio. Quando você faz um teatro, uma coisa tem que segurar, o ritmo tem que segurar, o espaço como ele vai fazer a sua ação. Na TV você tem a câmera que diz muito. A música que pode dizer muito também. Muitas coisas que o ator teria que fazer no teatro, não terá que fazer na TV e além do mais, no teatro você pode ser até muito mais redundante em certas coisas. Na TV tem que ser “tac, tac, tac”. Além do mais, essa peça eu não sei nem quanto tempo demorou. Acho que foi duas horas. Eu teria uma hora só, então eu tive que fazer dois capítulos, né?

Quando você encena um espetáculo televisivo, você pode escolher entre anular algumas manifestações mais evidentes e cênicas da teatralidade buscando um efeito mais cinema, mais naturalizando a ação? Você buscou no Vestido de Noiva incentivar um pouco mais a teatralização do espetáculo não é?

-Sim. Porque Nelson Rodrigues é assim mesmo. Você tem que saber cortar o Nelson Rodrigues. Quando eu corto Nelson Rodrigues no teatro, eu não corto uma metáfora dele. Não corto uma idéia dele. Eu só enxugo, eu não corto. Mas sem perder uma idéia, uma metáfora dele, nada, nada, e, também na TV. Os diálogos de Nelson Rodrigues é “blá, blá, blá, blá! Eu tenho que conservar senão perde aquela coisa do Nelson Rodrigues: o relampejar. O diálogo relampejante dele. A poesia do Nelson Rodrigues. Então eu sou obrigado a conservar na TV, mesmo se eu fizesse cinema com ele eu iria conservar isso porque o que é bonito dele é o blá,blá,blá. É o diálogo!.

Você acha que conseguiu uma pesquisa estética na linguagem televisiva, nesse período?

-Todos nós fazíamos essa experiência estética: a linguagem da TV. Nós procurávamos saber qual seria a linguagem da TV. Eu acho que tivemos alguns bons resultados. Hoje em dia não se faz isso não na TV. Naquele tempo nós fizemos. Eu acho que nós enriquecemos muito a linguagem da TV. Tanto é que esses programas que nós fizemos até hoje ainda são como padrão. Depois de 30 anos, ainda é padrão. Que coisa incrível! Eu acho isso um absurdo! O comércio invadiu a TV!.

Você acha que foi um problema para vocês saber que estavam fazendo para uma tela pequena?

-A tela pequena, o som... O que nós fazíamos com o som? Pra pegar o som? Foi muito difícil! Hoje em dia há uma tecnologia perfeita. O som sai perfeito. Tinha muitas partes do Vestido de Noiva que o som era muito ruim porque não havia esses recursos que nós temos hoje em dia. Mas valeu a pena ser assim, desse jeito. Foi uma época!!!

Fazendo para a tela de TV isso não limita um pouco a criatividade de vocês, ou não?

-Não! Amplia as possibilidades. Você faz Vestido de Noiva no palco, você tem que fazer todos aqueles pequenos cenários que o Santa Rosa fez pro Ziembisncki. Ali não. Você vai pra rua, você vai pra onde você quiser. Pensou uma coisa, você vai, manda haver!

Você acha que teve alguma influência do cinema, fazer a TV nesse período?

-Não, não! Não é que quando eu faço TV tenho influência do cinema, mas em tudo do que eu faço eu tenho influência do cinema, tudo que eu faço. Eu sou e sempre fui rato de cinema. Rato de livraria e de cinema, né! Eu gosto muito de cinema, então, é claro que isso me influencia muito. Cinema no Ar... me influenciou muito pra fazer Nelson Rodrigues, demais!

O Expressionismo?

-Isso eu gosto! Gosto! A linha expressionista porque é a linha dramática por excelência. A mais dramática de todas é a linha expressionista.

Antunes, você fazia um roteiro e os câmeras obedeciam? Como é que era exatamente o trabalho? Já havia um roteiro das cenas? Como era resolvido?

-Na hora! Eu pegava a câmera e... punha a luz assim... Na hora tudo era improvisado. Não tinha roteiro. Roteiro não. Tinha o texto. O texto da peça dividido em tapes, em seqüências. Não tinha nada de câmera. A câmera era na hora. Tudo na hora e a gente ia improvisando e íamos em frente. Naquele tempo se permitia isso. Hoje não dá. A TV permite mais isso.

Na sua opinião, hoje a TV está mais padronizada?

Tá! Muito! Muito ruim. Eu não consigo ver nada. O teleteatro então eu acho uma porcaria. Novela... Tem pessoas que vêem novela. Eu acho aquilo horrível! É tudo chapado! Pasteurizado!

Você acredita que hoje as pessoas só veriam o teatro através de uma transmissão, uma gravação de teleteatro ou o público ainda é assíduo ao teatro?

-O teatro está sempre em crise. É da natureza do teatro estar sempre em crise. Á própria natureza dele. A não ser que você comece a fazer grandes musicais, shows que tentam fazer, aí dá certo. Porque o teatro, o grande teatro na verdade é alta cultura. Aí fica um problema, porque tem que dar escolaridade: as faculdades, as universidades...Hoje em dia está tudo um pouco relaxado. Não se pena muito em alta cultura não. E é a alta cultura que vai dar de uma maneira ou de outra, vai dar significado à civilização, pelo menos a civilização brasileira ,e isso não é muito cuidado porque havia muitos analfabetos. O analfabetismo é muito intenso no país... então estão cuidando para reduzir o máximo possível o número de analfabetos. Mas a escola, a alfabetização , ela dá vantagens, mas não resolve os problemas da própria democracia e da própria alta cultura. Hoje em dia você vê que 90% dos espetáculos são banais, são tolos, imbecis. Que são feitos pra burguesia, etc, não querem dizer nada, apenas diversão.

Um ato de diversão, um ato tolo de diversão, pra encher o tempo das pessoas, e depois uma pizzaria... então é isso que a sociedade de consumo está fazendo: deixando uma coisa de consumo mesmo. Não existe mais o silencio, o retraimento da pessoa consigo mesma. Ele é bombardeado, hoje, por toda essa tecnologia: internet, essas coisas tosas. Então o homem não tem mais aquele valioso silêncio onde ele poderia forjar suas idéias, pensar e chegar realmente a alta cultura. É uma coisa desprezada, hoje em dia, a alta cultura. E é uma pena, mas quando você fala: “Vamos popularizar isso” eu temo, porque a popularização de uma obra é muito desvantajosa para a própria obra, pra própria arte, pra própria cultura. Porque se faz coisas por aí...Eu fico arrepiado... Eu penso que é melhor não fazer.

Mas é elitista isso? Não é elitismo mais é tentar preservar uma coisa valiosa que é a espiritualidade da obra de arte e eu preservo isso e hoje em dia essa espiritualidade não existe mais, da obra de arte existe a materialização. Só, matéria do texto, a matéria do espetáculo. Aquilo que deveria vir a mais, não vem, então estamos todos carentes. Não é só o Brasil, o mundo está carente! Hoje em dia, você vê, até o próprio cinema desandou completamente...não tem mais aqueles grandes autores e diretores. Não tem mais isso. É um ou outro que se salva! E a TV é essa coisa! Eu não consigo ver um canal aberto! E aqueles da TV paga eu só vejo alguns. Aqueles que tem aquele filme...aquela coisa...aquele documentário da BBC...Então está, há muita tristeza hoje em dia. Eu vivo muito triste no andamento da TV. Eu não posso fazer nada. é assim! É assim! Como é que eu posso reagir? Tentando verticalizar o meu trabalho. Tentar ver se consigo verticalizá-lo e deixar ficar numa horizontal de consumo. É isso que eu acho!
-Eles podem fazer o que eles quiserem, eu não vou ver.

Mas você fez o Vestido de Noiva na TV?

-AH! Sim! Outro veículo, outra coisa! Em outro veículo eu posso até fazer um dia O Rei da Vela na TV, mas nunca no teatro porque é coisa sagrada do José Celso. Eu respeito, ele fez e foi maravilhoso nisso! Eu tenho que ficar quieto! Colocar o meu rabo entre as pernas e ficar quietinho!

O formato teleteatro hoje, você acha impossível de ser retomado? Porque a TV Cultura e Arte está fazendo algumas peças, inclusive o Valsa número 6 do Nelson Rodrigues. Eles estão fazendo, mas é uma coisa muito limitada, para um público segmentar que tem assinatura da TV, que pode pagar a mensalidade e vai assistir alguns teleteatros pela TV. Você acha isso uma iniciativa pequena?

-Talvez seja bom! Não sei.

Você acha que na TV comercial é possível levar teleteatro?

-Tem que fazer nos moldes que eles querem. Aí não dá! O artista é obrigado a ceder. O artista tem que ceder. O artista é artista! Tem que deixar ele à vontade. Agora quando tem que fazer sobre essas regras, esses gastos, esses dias, é muito ruim. Só para que é muito profissional. Quem acredita no profissionalismo. Eu não acredito no profissionalismo! Um artista não é um comerciante, ele é outra coisa! Ele está fora dessa!

É impossível o teatro na TV, hoje?

-Eu acho que está sendo impossível. Não estou vendo como. Com o dinheiro que rola na TV e com o tempo que é minuto por minuto. E tem que ser eficiente, tem que agradar, tem que fazer pra gostar. É ruim! Tem que fazer concessão uma atrás da outra! Não dá. Pra mim não dá. Eu não quero mais fazer TV. Eu evito.

Na época, pelo menos a TV era mais romântica..?

-Romantismo puro! Vamos estudar como era a linguagem de TV? Vamos ver o que é isso e vamos brincar...Então a gente brinca! Mas era isso: teatro, TV, cinema...tem que ser sempre uma brincadeira. Quando tem que fazer e tem que dar certo, aí é ruim!

Muito obrigada!

O site O Click não se responsabiliza por artigos assinados, sendo os mesmos de inteira responsabilidade dos colunistas.
É proibido o arquivo em banco de dados eletrônicos e a reprodução integral ou parcial de textos ou fotografias sem a
expressa autorização do O Click.

Arquivo

Breve comentário sobre a televisão na Alemanha

Telenovela e Melodrama

Telenovela e Fragmentação

O "produto telenovela"

O que eles dizem sobre telenovelas

Convivendo com os Olimpianos

Pensadores discutem televisão e cultura

Teatro Eletrônico

Pós-modernismo-Arte/ecletismo

Globo aliena e Band debate

Refletindo sobre o pós-moderno

Trocando o palco pela câmera

O Teatro na Tv Está de Volta

Sobre a TV Cultura e Arte

Votar: na política ou no Big Brother?

Othello, no cinema popular

Antunes Filho na Televisão

Transitando entre o erudito e os bens de massa

Quando o radiodrama volta à cena

Arte e Democracia

A imagem da mulher na mídia

Ricos e pobres na telenovela

Como conceituar a telenovela

Programação cultural na Tv

Cineastas fazendo televisão

Estrangeiros na mídia eletrônica

Cultura superios, midcult e masscult

Desenjaulados

Lei de incentivo à cultura

Do romance ao filme

Benjamin reflete sobre a arte

Investigando a cultura de massa

Brava Gente

Lembrando Walter Avancini

Audiência Ditadora

Autores discutem cultura e mídia

A fórmula da telenovela

Novela - Comédia

Perfil da telenovela

Reflexões sobre o telespectador

Televisão é meio popularesco?

Os anos 70 e a telenovela

Elite gosta de baixaria?

... e a televisão virou novela - (capítulo 2)

... e a televisão virou novela - (capítulo1)

No tempo das "novelinhas" de 20 minutos

Auto da compadecida

Televisão que gera fortuna

Fernanda Montenegro há muito tempo na nossa TV

TV de vanguarda, projeto arrojado da nossa TV

As primeiras experiências em linguagem televisiva

Incluo Os Maias na nossa quality television

A vida por um fio

Televisão, um projeto cultural que divulgou o teleteatro

  Teleplay ou teleteatro