Colunas
Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Telenovela e Melodrama

Depois que Ivete Huppes lançou há dois anos, seu livro O melodrama – o gênero e sua permanência,passei a observar a essência do gênero e sua atualização aplicada à telenovela.Isto é : o melodrama que teve sua origem no século XIX mas perpetuou-se na ficção literária e chegou à cultura de massa através dos meios eletrônicos – radionovela e telenovela . Falar em melodrama é percorrer temáticas associadas às emoções, aos sentimentos e à eterna luta travada entre o Bem o Mal.

O gênero tem como pilar, a estética romântica. Ao dar ênfase ao emocional, desloca os eixos ideológico e psicológico bem ao agrado do público. O melodrama no teatro, onde surgiu, no século XVIII, procurava falar especialmente à uma platéia de burgueses menos cultos e não para um publico de origem aristocrática mais erudito. Assim como hoje, a telenovela quer ser entendida por uma grande massa heterogênea da população brasileira e não apenas à grupos de formação intelectual mais rígida.

Cinema e televisão são habitats apropriados ao melodrama uma vez que o gênero caracteriza-se também por utilizar ao máximo a exuberância cênica para atrair o público. E é por preocupar-se com a audiência, que o melodrama ganha novos ares incorporando inovações temáticas e composicionais absorvendo as modificações sugeridas pelo contexto histórico-social. A intenção melodramática é produzir determinadas reações no público a quem deseja agradar. E ele sabe como atingir o gosto popular jogando o Bem contra o Mal , a Virtude contra o Vício. A fórmula já é conhecida. Durante meses e meses de telenovela assistimos os personagens representantes do Mal, oprimindo e dificultando a realização dos que representam o

Bem. Mas, para o agrado da audiência, no final ,todo o mal será punido e seus destroços reparados. A virtude é restabelecida. O esquema é simples mas cabe aos novelistas enredarem a trama com pinceladas de originalidade dosando bem as porções ora de intriga, ora de satisfação . O público fruidor estará sempre atento aos arranjos visuais e estéticos com toda parafernália tecnológica que serve como base para as peripécias dos personagens, os desdobramentos da história e principalmente, as surpresas. O suspense é que vai manter o telespectadora atento para seguir a novela diariamente.

O melodrama na cena contemporânea vai destacar enredos elaborados em cima de temas atuais. Vejamos por exemplo, a novela Por Amor , de Manoel Carlos ( TV Globo –reprisada à tarde) que , apesar de funcionar como uma espécie de crônica do cotidiano carioca, com personagens típicas de uma grande cidade industrializada e moderna, faz como manda a cartilha melodramática; aproximações forçadas entre os personagens, abusa dos casos providenciais e das soluções milagrosas . Ao estreitar a intimidade do público com as personagens, favorece a identificação e revira os antigos arquétipos – o amor materno, por exemplo.Helena e Atílio se casam , assim como Eduarda ( filha de Helena) e Marcelo. Mãe e filah engravidam na mesma época e acabam dando a luz no mesmo dia e horário, inclusive, no mesmo hospital em que trabalha César, médico apaixonado por Eduarda. O filho de Helena nasce saudável, mas o de Eduarda morre após o parto. Helena, para poupar a filha de um enorme sofrimento. Troca as crianças, auxiliada por César. Eduarda cria o irmão pensando ser seu próprio filho enquanto que Atílio sofre pensando que seu filho está morto.

Temos então, a estrutura básica do melodrama . E por dias seguidos os telespectadores irão sofrer ou regozijarem com o sentimentalismo da trama no desenrolar do “novelo”.

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