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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Telenovela e fragmentação

O produto teledramático é em sua essência fragmentado para dar ritmo ,agilidade e economia de custos e sem dúvida, para melhor se ajustar ao ritmo industrial exigido pela televisão de um modo geral. Existem vários setores que funcionam de forma independente. A fragmentação da ficção produzida por nossa TV começa pela teledramaturgia. Sabemos que na década de 70, por exemplo, existia um único autor do início até o fim da novela. A novelista Janete Clair consagrou-se como a “dona do horário das oito”e escrevia sozinha suas novelas. Hoje, apenas Benedito Rui Barbosa ( autor de “Esperança”) ainda prefere ele mesmo, escrever seus capítulos. Mas na maioria das novelas, trabalham dois autores ou mais, dois diretores etc.

Para os atores , a fragmentação que ocorre na gravação de cenas, separadas uma das outras, sem o menor vínculo de enredo ou emoção linear como ocorre no teatro, foi assim definida pelo ator Cláudio Marzo : “...em novela cada capítulo é um happening você faz e não sabe o que vai acontecer depois .Você realiza aquele “pedaço”.É tudo pronto. não tem ensaio , não se troca idéias , deixa amadurecer a coisa dentro de você ...Volta e grava . O ator faz parte de uma engrenagem”.

A “rentabilidade do produto”ficcional em televisão exige que o mesmo produto seja feito “ em pedaços” .O resultado é uma segmentação de tarefas que isola as partes que a executam. As ilhas de edição funcionam 24 horas por dia ( de segunda à sábado ). Os autores escrevem de 2O a 25 laudas por dia. Gilberto Braga define seu trabalho como “massacrante maratona literária “. O ritmo de trabalho é alucinante para os diretores também .Os atores gravam os capítulos durante toda a semana e decoram os textos nas horas de folga. O diretor grava um capítulo por dia em 8 horas de trabalho , no mínimo. O mesmo acontece com as séries americanas . Fragmentação e ritmo acelerado - dois aspectos constantes no trabalho industrial.
Telenovela ainda é o negócio mais lucrativo da televisão brasileira e “ seus negócios” e seu lucro são pouco divulgados e muitas vezes o custo de cada capítulo varia de novela para novela. Novelas custam caro para as emissoras mas o retorno financeiro é garantido enquanto continua sendo para a maioria dos brasileiros, uma das mais baratas fontes de lazer.

Para um público mais exigente, a TV tem oferecido as minisséries que não têm retorno de audiência garantido mas assemelham-se aos teleteatros nas décadas de 50 e 60, trazem prestígio às emissoras. Veja você que a minissérie tem 28 pontos de audiência enquanto que a novela chega a 48 ou até 50 pontos nos seus melhores picos de audiência. Para citar um exemplo, a minissérie Chiquinha Gonzaga mobilizou 300 pessoas entre figurinistas, costureiras, cenógrafos, operários, marceneiros, eletricistas, pintores etc. Utilizando cerca de 2 mil figurinos até seu término. A reconstituição de época, ( no caso, século 19) encareceu a produção em 60% , se comparada a uma novela comum onde os cenários ( as locações ) se repetem infinitamente ao longo da novela). Enquanto o custo por capítulo de uma novela ficava em torno de 90 mil reais, a minissérie chegava a 150 mil .

Tudo começou com Roque Santeiro

Podemos ilustrar o modo de produção de uma novela tomando como exemplo , “Roque Santeiro”, de Dias Gomes que foi ao ar obtendo um dos maiores índices de audiência da década de 8O . A novela foi exibida entre 85 e 86. A ação se passa numa pequena cidade nordestina , fincada na zona rural.Para tanto, foi aproveitada a paisagem urbana de Guaratiba, uma pequena cidade fluminense , evidentemente complementada e adaptada para incluir ingredientes simbólicos de um centro nordestino de peregrinações. Ali foram gravadas as cenas externas ,contando muitas vezes com mais de 500 figurantes e envolvendo aproximadamente 800 pessoas , incluindo técnicos , artistas e pessoal de apoio.

Em se tratando de um produto híbrido, que passa por centenas de mãos antes de chegar ao vídeo, cada capítulo exige a mobilização de um exército de trabalhadores culturais.O script ,por exemplo, foi escrito por quatro pessoas - dois dramaturgos , um roteiristas e um pesquisador - que liam e discutiam todos os capítulos.A gravação se fez ao ritmo de seis capítulos por semana; o bloco de seis e indispensável para permitir o aproveitamento de estúdios, cenários e figurantes. Tudo é planejado através de computador,dividindo-se as cenas segundo locações , cenários , figurinos e atores que deverão estar presentes em cada gravação.

De cada capítulo eram impressas 15O cópias, contendo a listagem de gravação fornecida pelo computador, permitindo assim que todos os departamentos da emissora providenciassem antecipadamente o que fosse necessário .Muitas vezes, uma gravação começava a ser preparada às duas horas da tarde ,quando atores, técnicos e figurantes se reuniam em frente ao edifício da TV, no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, seguindo numa frota de ônibus para a cidade cenográfica , em Guaratiba, onde permaneciam até mais de meia noite em plena atividade , sob o comando do diretor e contando com a assistência de trinta técnicos .As gravações ocorriam em clima de total disciplina ,ao qual já estão familiarizados os atores , mas difícil de ser absorvido pelos figurantes .Os artistas ensaiam as cenas de estúdio apenas uma vez mas em todas elas são rigorosamente acompanhados e controlados pela continuísta. Ela observa penteados, adereços, vestuário , de modo a evitar que alguém entre em cena com algum detalhe diferente da gravação anterior, pois os descuidos são apontados por cartas ou telefones à emissora. Gravadas as cenas externas e de estúdio, a novela começava a tomar corpo na mesa de edição , onde se gasta cerca de 1O horas para montar um capítulo de 4O minutos .A seguir o capítulo recebia a sonorização e os demais retoques técnicos ,antes de ser colocado no ar via satélite.

Cada capítulo de uma novela custa ã Globo 14 vezes mais do que sua concorrente no mercado externo, a Televisa , do México .O investimento mais elevado permite ã Globo , no entanto, a obtenção de um produto de boa qualidade técnica e artística .Na opinião de Daniel Filho, “a novela não é mais uma grande novidade; tornou-se um programa prêt-à -porter e poucas coisas restam a serem descobertas em sua linguagem que chamem atenção do público como no início. Ela atingiu a maturidade”.

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