|
Ficção, crítica, história e teatro na TV Telenovela e fragmentação
Para os atores , a fragmentação que ocorre na gravação de cenas, separadas uma das outras, sem o menor vínculo de enredo ou emoção linear como ocorre no teatro, foi assim definida pelo ator Cláudio Marzo : “...em novela cada capítulo é um happening você faz e não sabe o que vai acontecer depois .Você realiza aquele “pedaço”.É tudo pronto. não tem ensaio , não se troca idéias , deixa amadurecer a coisa dentro de você ...Volta e grava . O ator faz parte de uma engrenagem”. A “rentabilidade do produto”ficcional em televisão
exige que o mesmo produto seja feito “ em pedaços”
.O resultado é uma segmentação de tarefas que isola
as partes que a executam. As ilhas de edição funcionam
24 horas por dia ( de segunda à sábado ). Os autores escrevem
de 2O a 25 laudas por dia. Gilberto Braga define seu trabalho como “massacrante
maratona literária “. O ritmo de trabalho é alucinante
para os diretores também .Os atores gravam os capítulos
durante toda a semana e decoram os textos nas horas de folga. O diretor
grava um capítulo por dia em 8 horas de trabalho , no mínimo.
O mesmo acontece com as séries americanas . Fragmentação
e ritmo acelerado - dois aspectos constantes no trabalho industrial.
Para um público mais exigente, a TV tem oferecido as minisséries que não têm retorno de audiência garantido mas assemelham-se aos teleteatros nas décadas de 50 e 60, trazem prestígio às emissoras. Veja você que a minissérie tem 28 pontos de audiência enquanto que a novela chega a 48 ou até 50 pontos nos seus melhores picos de audiência. Para citar um exemplo, a minissérie Chiquinha Gonzaga mobilizou 300 pessoas entre figurinistas, costureiras, cenógrafos, operários, marceneiros, eletricistas, pintores etc. Utilizando cerca de 2 mil figurinos até seu término. A reconstituição de época, ( no caso, século 19) encareceu a produção em 60% , se comparada a uma novela comum onde os cenários ( as locações ) se repetem infinitamente ao longo da novela). Enquanto o custo por capítulo de uma novela ficava em torno de 90 mil reais, a minissérie chegava a 150 mil . Tudo começou com Roque Santeiro Podemos ilustrar o modo de produção de uma novela tomando como exemplo , “Roque Santeiro”, de Dias Gomes que foi ao ar obtendo um dos maiores índices de audiência da década de 8O . A novela foi exibida entre 85 e 86. A ação se passa numa pequena cidade nordestina , fincada na zona rural.Para tanto, foi aproveitada a paisagem urbana de Guaratiba, uma pequena cidade fluminense , evidentemente complementada e adaptada para incluir ingredientes simbólicos de um centro nordestino de peregrinações. Ali foram gravadas as cenas externas ,contando muitas vezes com mais de 500 figurantes e envolvendo aproximadamente 800 pessoas , incluindo técnicos , artistas e pessoal de apoio. Em se tratando de um produto híbrido, que passa por centenas de mãos antes de chegar ao vídeo, cada capítulo exige a mobilização de um exército de trabalhadores culturais.O script ,por exemplo, foi escrito por quatro pessoas - dois dramaturgos , um roteiristas e um pesquisador - que liam e discutiam todos os capítulos.A gravação se fez ao ritmo de seis capítulos por semana; o bloco de seis e indispensável para permitir o aproveitamento de estúdios, cenários e figurantes. Tudo é planejado através de computador,dividindo-se as cenas segundo locações , cenários , figurinos e atores que deverão estar presentes em cada gravação. De cada capítulo eram impressas 15O cópias, contendo a listagem de gravação fornecida pelo computador, permitindo assim que todos os departamentos da emissora providenciassem antecipadamente o que fosse necessário .Muitas vezes, uma gravação começava a ser preparada às duas horas da tarde ,quando atores, técnicos e figurantes se reuniam em frente ao edifício da TV, no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, seguindo numa frota de ônibus para a cidade cenográfica , em Guaratiba, onde permaneciam até mais de meia noite em plena atividade , sob o comando do diretor e contando com a assistência de trinta técnicos .As gravações ocorriam em clima de total disciplina ,ao qual já estão familiarizados os atores , mas difícil de ser absorvido pelos figurantes .Os artistas ensaiam as cenas de estúdio apenas uma vez mas em todas elas são rigorosamente acompanhados e controlados pela continuísta. Ela observa penteados, adereços, vestuário , de modo a evitar que alguém entre em cena com algum detalhe diferente da gravação anterior, pois os descuidos são apontados por cartas ou telefones à emissora. Gravadas as cenas externas e de estúdio, a novela começava a tomar corpo na mesa de edição , onde se gasta cerca de 1O horas para montar um capítulo de 4O minutos .A seguir o capítulo recebia a sonorização e os demais retoques técnicos ,antes de ser colocado no ar via satélite. Cada capítulo de uma novela custa ã Globo 14 vezes mais do que sua concorrente no mercado externo, a Televisa , do México .O investimento mais elevado permite ã Globo , no entanto, a obtenção de um produto de boa qualidade técnica e artística .Na opinião de Daniel Filho, “a novela não é mais uma grande novidade; tornou-se um programa prêt-à -porter e poucas coisas restam a serem descobertas em sua linguagem que chamem atenção do público como no início. Ela atingiu a maturidade”. Arquivo O que eles dizem sobre telenovelas Pensadores discutem televisão e cultura Refletindo sobre o pós-moderno Votar: na política ou no Big Brother? Transitando entre o erudito e os bens de massa Quando o radiodrama volta à cena Estrangeiros na mídia eletrônica Cultura superios, midcult e masscult Investigando a cultura de massa Autores discutem cultura e mídia Reflexões sobre o telespectador ... e a televisão virou novela - (capítulo 2) ... e a televisão virou novela - (capítulo1) No tempo das "novelinhas" de 20 minutos Fernanda Montenegro há muito tempo na nossa TV TV de vanguarda, projeto arrojado da nossa TV As primeiras experiências em linguagem televisiva Incluo Os Maias na nossa quality television | |||||||