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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

O que eles dizem sobre telenovelas

Há algum tempo comecei a pesquisar algumas definições sobre a telenovela brasileira, procurando entre livros , jornais e revistas, afirmações prós ou contra que abrandessem o universo ficcional da nossa teledramaturgia. A listagem foi ficando enorme por isso resolvi condensa-la e passo para voc6es alguns aspetos interessantes de pensadores que estão atentos à cultura nacional. Então, vejamos:
“A telenovela destina-se a um consumo indiscriminado. Enquanto havia apenas a tecnologia do livro, este ,necessariamente, discriminava o consumo, pois só chegava aos letrados. A telenovela veio estender formas literárias ou literalizantes a um público indiscriminado.Chega ao culto e ao não culto.Tal realidade modela-lhe forma e conteúdo.Vive da aceitação do mercado. A telenovela está em íntima relação com quem a consome.O telespectador é pesquisado, conhecido, logo sua opinião tem peso.Seu mercado se manifesta ao longo dos capítulos e precisa ser permanentemente “consultado”por pesquisas.”
( Arthur da Távola O Globo. 1985)
“A telenovela foi a única coisa que a televisão brasileira inventou com características de um produto típico de televisão.Isso porque , a nossa televisão surgiu copiando ou adaptando velhos programas de rádio e também tirando alguma coisa do teatro ou veiculando cinema e matando o teatro de revista ao transferi-lo para a própria televisão .A novela, entretanto, conseguiu se desenvolver como gênero e um fenômeno na televisão brasileira.” “...No Brasil , a novela evolui para um produto mais sofisticado , culturalmente mais pretensioso, embora ainda possa acusá-lo de superficialidade e outras coisas, mas de qualquer maneira é um produto inteiramente novo, pois em outros países ela conservou sua forma original folhetinesca.”(Dias Gomes é autor de várias telenovelas entre elas, “Roque Santeiro” – já falecido)

“O segredo da telenovela consiste na combinação de dois ingredientes : a ficção sem fantasia e uma moral doméstica.Sincronizando e homogeneizando o real e o imaginário, a telenovela faz da ficção um espelho do real e incorpora ao enredo fatos correntes e situações contemporâneas. Essa apropriação do real se faz a partir de parâmetros morais da instituição familiar, ajustando seus conteúdos ideológicos a determinados sentimentos, costumes , tendências já existentes socialmente. A telenovela brasileira com seu inegável apuro técnico é um exemplo desse drama de moral doméstica, jornalisticamente atento a fatos reais...A realidade que a telenovela restitui a seu público é a realidade sonhada da moral caseira, convenientemente administrada pelo “médium”. (Muniz Sodré – Estudioso da Cultura brasileira – prof. De Comunicação da UFRJ)

“O fascínio das multidões que seguem os capítulos das telenovelas se alimenta também pela consciência de que estão participando de um passatempo, de um divertimento.Trata-se de uma trégua no ritmo de vida intenso das grandes cidades ou na monotonia experimentada nos subúrbios e vilas do interior.As histórias fluem, lentamente, criando suspenses diários e motivando os telespectadores a retomarem o fio da meada no dia seguinte.É o que se pode chamar de catarse coletiva. Tudo isso facilitado pela completa inteligibilidade : a novela fala a linguagem da transparência , para todo mundo se sentir por dentro “
(José Marques de Mello – Jornalista prof. De Comunicação da USP).

“As novelas brasileira são uma invenção genial.Elas são uma arte aplicada aos modernos meios de comunicação que não perdem o brilho das origens “( Alberto Moraiva – escritor italiano)

“Novela é produção em série.Mas não é por ser indústria que você pode enganar o consumidor.Pode-se fazer coisas muito boas em televisão.Talvez seja difícil , mas isso é um problema da cultura brasileira de que as coisas são feitas para se tirar vantagem.Eu sou contra isso. Posso fazer qualquer coisa , mas pode saber que foi o melhor que pude fazer “.(Tizuka Yamasaki- diretora de cinema e televisão )

“A novela é um discurso compensatório que trata de noções abstratas como o mal, o amor, a felicidade e onde se organizam e se resolvem afetos de personagens junto a um público que encontra nas intimidadas e nas soluções oferecidas pelas imagens, diferentes níveis de gratificação e que acredita na autoridade da narração televisiva”....Não há duvida de que a telenovela é uma forma narrativa produzida em escala industrial(...) Na verdade podemos dizer que ela representa um tipo de ficção onde as razões de indústria foram levadas ao máximo.Entretanto, subsiste ainda uma contradição entre “ser cultural”ou “mercadoria “, entre “padronização “diferença”o que faz com que a narrativa seja estirada por fios opostos, um que procura a uniformidade , a racionalização, outro que desliza para a diferença e a criatividade”. ( Renato Ortiz, estudioso da cultura brasileira. Professor da USP ).
“Uma telenovela será verossimilhante sempre que, em variados graus, parecer-se com o que se crê ser (a) realidade. A liberdade admissível no exercício de sua criação e de sua realização ( vale dizer, a verossimilhança de sua narrativa) , está confinada às prescrições de um modelo textual, às determinações de um gênero, às regras de um dispositivo discursivo. Toda telenovela, à vista do exposto, constituirá uma expressão retórica tanto mais crível, quanto mais parecer conformada à referência à realidade. Não haverá verossimilhança artística sem participação cúmplice de um receptor, o qual busca, apaixonadamente, enredar-se na ilusão. ( Note-se, a propósito , que são íntimos os vínculos da verossimilhança com a “ilusão realista”que, retoricamente, ela proporciona). Em seu mais elevado grau, a verossimilhança se confunde à realidade da vida”. ( Aluízio Ramos Trinta. Estudioso de Teledramaturgia – Professor de Comunicação da UFRJ )

“A chamada “intelligentsia”brasileira passou a encarar a telenovela menos como uma máquina demoníaca e mais como uma indústria cultural - cheia de contradições sim, mas capaz de oferecer trabalho e até compensações não somente materiais....E os nossos mocinhos
estão levando a melhor no contínuo tiroteio contra os enlatados importados . ( D. Márquez .Crítico da ISTO É )

 

 

 

 

 

 

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