Colunas
Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Convivendo com os olimpianos

 

Há muitos anos a influência dos olimpianos, ou seja, aqueles semideuses que povoam a mídia, incomodam os estudiosos da cultura de massa. Eu quero retomar aqui, o pensamento de Edgar Morin, de 1962 que, creio eu, ainda está valendo para os nossos dias. De início, vamos situar o espaço onde encontramos esses seres olimpianos – “no encontro do ímpeto para o real e do real para o imaginário”- diria Morin. São os astros do cinema, as vedetes das revistas , as modelos, os campeões esportivos, playboys, artistas de TV , os ricaços, artistas célebres,os políticos etc. Alguns nascem de papéis encarnados em filmes , outros, de funções profissionais, de trabalhos heróicos ou apenas de sua beleza física ou performances eróticas ou ainda Pertencem a famílias reais .

Jornais, revistas, televisão transformam os olimpos em vedetes da atualidade . Acontecimentos banais vividos por personalidades, acabam tendo a dignidade de acontecimentos históricos .
Não podemos negar que no passado, as estrelas de cinema já haviam sido promovidas a divindades mas o novo curso as humanizou, multiplicou as relações humanas com o público, acredita Edgar Morin. “Elevou ao estrelato, as cortes reais, os playboys e até certos homens políticos .Desde que as estrelas inacessíveis e sublimes desceram à terra, desde que as cortes reais se transformaram em Trianons da cultura de massa, -isto é, desde o progresso propriamente dito da cultura de massa”. Hoje os olimpianos participam da vida “real” dos mortais . Algumas “divas” podem até casar-se com seus guarda-costas com a condição de que esse casamento “plebeu’seja transfigurado pelo amor.

Os novos olimpianos são , ao mesmo tempo, ideais inimitáveis e modelos imitáveis . Olimpianos e alimpianas são sobre-humanos no papel que eles encarnam na imaginação do público mas humanos na existência privada que eles levam e que é tão devassada pela curiosidade alheia. A imprensa age de duas formas: ao mesmo tempo em que os coloca num altar mitológico, mergulha em detalhes de suas vidas privadas a fim de extrair delas a substância humana que gera a identificação com seus “devotos”. Têm assim natureza humana e sobre-humana . Morin acrescenta : “um Olimpo de vedetes domina a cultura de massa, mas se comunica , pela cultura de massa , com a humanidade corrente”. Essa dupla natureza, a divina e a humana, circulam entre dois pólos – projeção e identificação. Eles realizam os sonhos que os mortais não podem realizar e os chamam para realizar o imaginário. Ao conjugarem a vida cotidiana e a vida olimpiana, os olimpianos se tornam modelos de cultura no sentido etnográfico do termo , isto é: modelos de vida.

As estrelas e suas vidas de lazer, de jogo, de espetáculo de amor, de luxo, e na sua busca incessante de felicidade simbolizam os tipos ideais de cultura de massa .
Revistas especializadas em seguir os ritos de uma nova alta sociedade , mais mitológica do que as antigas altas c\sociedades burguesas ou aristocráticas, provam com sua tiragens vultuosas que a nova camada olimpiana são os heróis da informação vedetizada e da mitologia da felicidade.

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