Colunas
Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Trocando o palco pela câmera

 

Sabemos que desde sua instalação em São Paulo e no Rio de Janeiro, na década de 50, a televisão sempre requisitou autores e atores, dramaturgos, jornalistas, diretores de cinema e teatro , técnicos especializados , cenógrafos, de todos os campos de produção artística .Além da motivação financeira , a TV seduzia com altos salários os atores e autores de outras áreas , principalmente do teatro , que trocaram o palco pelas câmeras. Era a possibilidade de falar para vinte, trinta milhões de pessoas numa só noite. "Em 68, o teatro estava muito cercado, eu tinha duas opções; ou tinha que ser funcionário público ou ir para TV .

Mas não tinha o que discutir , se você luta por um teatro de massa, como recusar um público de 20 milhões", dizia Dias Gomes O dramaturgo ainda acrescenta que a TV é boa ou má ,dependendo de quem faz e que limitações também existem no teatro". Falecido em 1977, o dramaturgo Paulo Pontes , oriundo do grupo de teatro opinião, também manifestava-se a favor do poder democrático da televisão : "... é um veículo essencialmente democrático(...) o grande tema é o que interessa à maioria da população ". Oduvaldo Vianna Filho(Vianinha) que mantinha uma fértil produção para a TV Globo, desde 1968, escrevendo e dirigindo teleteatros em parceria com Paulo Pontes, explicou as razões por que fez televisão, em entrevista a Luiz Werneck Vianna:

A revista TV Guide (americana, com tiragem de 6 milhões de exemplares) fez uma análise da programação mundial de televisões. Chegou à conclusão de que praticamente em todo o mundo, no chamado horário nobre, predomina a produção americana, as séries para a TV: a mentalidade do policial, de um perseguindo o outro. A revista porém notava, com indulgente estranheza, que num país da América do Sul a televisão não seguia essas normas mundiais.

Era o Brasil. No Brasil, das 6 da tarde até as 10 da noite - uma faixa bem mais extensa do que o "horário nobre" - só existe produção de autor nacional, só produção nacional . The novels, como eles dizem. Será que este simples fato não justifica a participação de um homem de cultura na TV brasileira, ou o preconceito exige mais justificativas? Nada tenho contra o que é exibido na TV. O problema da TV não é o que ela exibe, é o que ela deixa de exibir. (...) No plano da formação cultural, a televisão não é criadora - é extensiva, é democratizadora, difusora de valores vigentes socialmente e também difusora de valores espirituais conquistados pela humanidade ao longo de sua grande aventura espiritual. (...)

Nos anos 70, a televisão iria consolidar sua relação com dramaturgos , atores e diretores de teatro , não só por apresentar-se como um veículo democrático que contorna as barreiras de classe e de linguagem, mas também por abrir espaço para os produtores de cultura , entre eles, aqueles que buscavam desesperadamente fugir do ostracismo a que propostas intelectualizadas de esquerda dos anos 60 os haviam relegado.

No Brasil dessa época,falar tornara-se uma coisa perigosa. Enquanto os Esquadrões da Morte proliferavam nas grandes cidades, transformando a violência em matéria do dia-a-dia, nas masmorras político-militares, a tortura era rotina.Palavra e ação, matérias,primas da criação dramática, eram práticas temerárias sob jugo do Estado por isso o teatro agonizava .
Augusto Boal foi preso em 1971 e depois de meses de tortura, foi libertado e saiu do país p\em peregrinação por países latino-americanos e europeus.Desenvolveu o conceito de "teatro do oprimido" alcançando projeção internacional. Mas sua saída foi fatal para o Teatro de Arena que, sem seu maior líder e enfrentando aguda crise econômica, passou a ser um capítulo encerrado na História do Teatro Brasileiro. Naquele mesmo ano, o Grupo Oficina montava Gracias Señor , uma criação coletiva que amadurecera no grupo em 1970, em "condições subterrâneas"conforme definia o diretor Zé Celso:

Foi um ano de tortura, de fascismo da mídia, do Médici, da Copa do Mundo. A porrada foi mais forte do que a de 64.Porque caía direto em cima da gente.Tudo era desconcertante.Foi o ano das drogas ,também.Tudo estava desconjuntado.Ficamos quase um ano sem trabalhar. Em dezembro nos trancamos dentro do Teatro Oficina pra ver o que tinha acontecido conosco,com o nosso corpo.E começamos a descobrir uma esquizofrenia muito grande na gente .Havia uma forma externa, uma máscara, uma couraça .Mas uma energia muito grande continuava viva ,apesar de já ter começado o massacre cultural...

O período onde a censura imperava absoluta, mutilando ou proibindo textos, interditando espetáculos prontos, lançando companhias a prejuízos irreparáveis, sua ação sobre o teatro, por mais ignominiosa que fosse, ainda assim não foi o mal maior. Como podemos observar no depoimento de Zé Celso, a verdadeira desgraça eram os efeitos no corpo teatral da situação sócio-política nefasta.Faziam o homem trancar-se dentro de si mesmo, sem fé e à deriva , com medo, desconfiança, ressentimentos.


O Grupo Oficina ainda faria , em 1973, As Três Irmãs, de Tchécov marcando a saída de s Renato Borghi, um dos fundadores do grupo e último integrante do antigo elenco .No ano seguinte, após ter sido preso, Zé Celso optou pelo exílio acompanhado por alguns atores. O desaparecimento do Arena e a clandestinidade do Oficina marcaram o fim de uma época para o nosso teatro. O produto artístico encontrava-se geralmente deteriorado pelas próprias condições em que fora criado.

A televisão, começara , definitivamente, a invadir o espaço do teatro aparecendo como uma nova opção de trabalho para os profissionais do teatro ou até mesmo a única possibilidade de sobrevivência.
Acredito porém, que mesmo que a TV tenha cobrado desses artistas, o preço de condicionarem-se a um veículo ideologicamente sob domínio de um sistema repressor, o que germinou ali, na década de 70, foi o mais intenso e criativo da história da nossa televisão.

Arquivo

O Teatro na Tv Está de Volta

Sobre a TV Cultura e Arte

Votar: na política ou no Big Brother?

Othello, no cinema popular

Antunes Filho na Televisão

Transitando entre o erudito e os bens de massa

Quando o radiodrama volta à cena

Arte e Democracia

A imagem da mulher na mídia

Ricos e pobres na telenovela

Como conceituar a telenovela

Programação cultural na Tv

Cineastas fazendo televisão

Estrangeiros na mídia eletrônica

Cultura superios, midcult e masscult

Desenjaulados

Lei de incentivo à cultura

Do romance ao filme

Benjamin reflete sobre a arte

Investigando a cultura de massa

Brava Gente

Lembrando Walter Avancini

Audiência Ditadora

Autores discutem cultura e mídia

A fórmula da telenovela

Novela - Comédia

Perfil da telenovela

Reflexões sobre o telespectador

Televisão é meio popularesco?

Os anos 70 e a telenovela

Elite gosta de baixaria?

... e a televisão virou novela - (capítulo 2)

... e a televisão virou novela - (capítulo1)

No tempo das "novelinhas" de 20 minutos

Auto da compadecida

Televisão que gera fortuna

Fernanda Montenegro há muito tempo na nossa TV

TV de vanguarda, projeto arrojado da nossa TV

As primeiras experiências em linguagem televisiva

Incluo Os Maias na nossa quality television

A vida por um fio

Televisão, um projeto cultural que divulgou o teleteatro

  Teleplay ou teleteatro