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Ficção, crítica, história e teatro na TV Incluo Os Maias na nossa quality television Coube à portuguesa Maria Adelaide Amaral ,autora de peças de teatro e livros ( e ainda, da bem-sucedida adaptação para minissérie de A Muralha,de Dinah Silveira Queiroz) , transpor o clássico romance de Eça de Queiroz (publicado em 1888) para a televisão, o que, a meu ver, resultou num dos trabalhos de rara beleza visual conjugado com um apuradíssimo texto, preocupado em seguir de perto a ironia e o ataque corrosivos que o autor desferiu à indolente sociedade portuguesa de seu tempo, segundo ele, corroída pelo ócio. Para melhor acompanhar os procedimentos da autora em seu processo de adaptação submetido à direção de Luis Fernando Carvalho, li o romance, poucas semanas antes de inciar a minissérie , com o firme propósito de reter na memória, os mínimos detalhes da obra para que eu pudesse comparar ,com maior clareza, essa especial adaptação da literatura para a TV. Ao final dos capítulos, conclui que a televisão brasileira nos porporciou uma perfeita síntese da chamada "alta cultura" com a "indústria cultural" tendo por resultado, a acessibilidade a um público mais amplo , da sofisticada obra queiroziana. Como telespectadora, eu diria que a minissérie apresentou uma reconstituição ímpar e cuidadosa da época, com externas realizadas em terras portuguesas e interiores brilhantemente iluminados a velas, onde apreciava-se um requintado mobiliário do século XIX. Percebi que grande parte dos diálogos entre os personagens foi extraída do próprio texto de Eça , e, com uma enorme preocupação em ser fiel à linguagem usual daquele tempo, trazendo para a nosso "mal estar pós-moderno", um delicioso sabor de outras épocas. Para marcar ainda mais a presença do autor , a minissérie utilizou a narração de Raul Cortez descrevendo situações e sentimentos dos personagens. Eça, em sua descrição cinematográfica de ambientes e perfis humanos, facilitou sobremaneira a direção de arte e propiciou ao elenco um desempenho dramático raro em televisão. Walmor Chagas liderou , com sua postura moral e firme e às vezes, emocionada, no papel do "velho Maia". Mateus Nachtergaele , por sua vez, liderando a face cômica da trama, (inspirada no romance A Relíquia) criou um contraditório e bufão transgressor das normas religiosas vivendo o "Rapozon" em contraste com sua impagável "titi". De um modo geral, todos os atores tiveram bons desempenhos e eu gostei muito da altivez de Fábio Assunção ( Carlos Eduardo) , da malícia de Selton Mello ( João da Ega) e da melancolia poética de Ana Paula Arósio ( Maria Eduarda). O único senão foi a aparição nos últimos capítulos, da chorosa e arrependida mãe que abandonara o filho e , de certa forma, atirou os irmãos ao incesto. Maria Manforte, depois de mais velha e tísica , queria abraçar pegajosamente o filho , sua vítima. Isso, não consta do romance mas a TV obrigou a Marília Pêra a desempenhar esse papel abominável. O que mais me impressionou, a cada capítulo, foi a narrativa lenta e arrastada, talvez, um anti-padrão televisivo (esse, do qual já estamos habituados) e, por isso mesmo, acredito que tenha provocado um estranhamento na audiência, embora funcionasse perfeitamente no tratamento que se dava à uma obra da qualidade de Os Maias . A direção preocupou-se menos em manter a já decodificada estética habitual de telenovelas do que ligar-se à maneira pela qual o autor, vagarosamente, ia construído sua história. Ele gastou páginas e páginas do romance apenas descrevendo jantares, encontros sociais e as costumeiras reuniões da aristocracia portuguesa onde os homens jogavavam bilhar e faziam as melhores e mais picantes críticas a si mesmos, às suas mulheres e ao país. Tudo isso foi , habilmente levado à cena, na TV. Sem escrúpulos, as câmeras demoraram-se o quanto desejaram apenas focalizando uma única expressão, um pensamento não dito, um efeito psicológico de maior densidade ou uma reação que seria imperceptível de outra forma. Na entrevista que deu à revista Veja1 Maria Adelaide lamentou a baixa audiência da minissérie ( média de 14 pontos) e ponderou: "Não se pode apontar culpados. Todos fizeram o melhor, todos queriam atingir um vasto público. A emissora investiu alto na produção como nunca se viu na TV brasileira. Eu me frustei com a baixa audiência, não com aquilo que eu vi na tela, que é de uma beleza rara". A meu ver, ficou realmente um gosto de obra desperdiçada, ou não totalmente apreciada pelo público que, simplesmente desdenhou um trabalho artístico incomum na nossa TV. Ainda ontem, me lembrei que a historiadora Emília Viotti afirmou num programa da TV Cultura : " A televisão brasileira piorou muito nos últimos dez anos...não falo da televisão paga, mas essa aí, aberta e comercial que é para o povo..." E por que a audiência beira à indiferença quando a TV apresenta um bom produto? Seria o hábito prazeiroso de fruir apenas o banal, o descartável, o dejá vu de fácil assimilação? A própria televisão , teria ela determinado ao longo desses dez anos de mediocridade, um padrão de gosto mediano para seu público? E o horário? Muito tarde! Principalmente às quartas-feiras, quando a minissérie era exibida depois de uma partida entendiante de futebol ( aquelas do tipo que dão empate) . Para relevar a decepção, o jeito é retomar mais uma vez , o pensamento do otimista Arlindo Machado ( e que ele nos anime !) quando diz: "A verdade é que a televisão opera numa tal escala de audiência , que nela o conceito de "elitismo"fica completamente deslocado. Mesmo o produto mais "difícil", mais sofisticado e seletivo encontra sempre na televisão um público de massa"2 Isso quer dizer, que a baixa audiência de um programa televisivo, equivaleria à performance comercial de um best seller na área da literatura? Se é assim, então vamos esperar que as emissoras repitam tentativas semelhantes e continuemos a aplaudir e a torcer por uma teledramaturgia de peso que tão mornamente aparece no dia-a-dia dos telespectadores brasileiros . De minha parte, vou continuar relembrando aqui, nesse espaço, os grande feitos artísticos de uma televisão até certa forma, romântica, aquela, dos anos 50 e 60. 1 -Entrevista de Maria Adelaide Amaral .Revista Veja n. 1692 -21 de março de 2001. 2-Machado, Arlindo. A Televisão levada
a sério. São Paulo. Senac. 2000. p. 30.
Arquivo
Televisão,
um projeto cultural que divulgou o teleteatro
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