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Ficção, crítica, história e teatro na TV Transitando entre o erudito e os bens de massa
Houve uma efervescência cultural na cidade de São Paulo iniciada na década de 40, quando surgiram os museus, teatros, as companhias cinematográficas e empreendimentos na área das comunicações , todas, manifestações culturais da área erudita . Nota-se , segundo Ortiz, que os mesmos empresários que estão na origem dessas atividades, preocupados com a modernização nas artes, acompanham também a modernidade visual dos meios de comunicação de massa. São exemplos: Chateaubriand, ao mesmo tempo fundador do MASP e proprietário de uma grande rede de jornais e rádios e televisão. Matarazzo se preocupa com o Museu de Arte Moderna e investe simultaneamente , na Cia. Vera Cruz; no Rio de Janeiro, Niomar Muniz Sodré controla o Correio da Manhã e funda o Museu de Arte Moderna . No período da vida brasileira em que se multiplicavam empreendimentos culturais de grande vulto e cunho empresarial, a instalação da TV em 1950, foi uma conseqüência natural. Estávamos numa época em que a "cultura ilustrada", definida por Edgar Morin como aquela que cria os padrões-modelos de uma cultura e organiza uma profunda estetização da vida, operando uma dialética comunicante, estruturante e orientadora entre o saber e uma participação no mundo, comandava as rédeas da indústria cultural. Por outro lado, existia interesses concretos dos empresários para atuarem nas áreas culturais e comerciais. A posposta da Vera Cruz era a realização de filmes nos moldes hollywoodianos para atender à bilheteria e experimentar uma produção mais industrial; o TBC, a cada peça "clássica", encenava outras menos pretensiosas para atrair maior público enquanto o MASP não atuava apenas na esfera erudita mas promovia o ensino sistemático de cursos de propaganda , desenho industrial, fotografia e comunicação visual.Enquanto isso, a Atlântida já havia descoberto uma fórmula para explorar o mercado brasileiro : utiliza a chanchada , apoiando-se na tradição do teatro ligeiro e utilizando as "estrelas"do rádio para alcançar um público mais popular. É interessante lembrar que no final dos anos 40 os padrões europeus davam lugar aos modelos americanos transmitidos pela publicidade, livros e programas musicais radiofônicos que davam espaço às bandas americanas como Grenn Miller. Levando em consideração , portanto, a presença ativa dos empresários no campo na cultura artística e na cultura de mercado, a popular, vamos concordar com Renato Ortiz quando ele considera que trânsito entre o "erudito"e os meios de massa transfere para esse último, um capital simbólico que adere à cultura popular de massa que é produzida. Um exemplo típico é o papel que o teatro desempenha na programação da televisão brasileira através do gênero teleteatro. "A televisão era uma coisa de elite, ela nasceu alienada e totalmente fora da realidade brasileira.Exatamente o sonho de uma certa burguesia", diria Walter George Durst A arte teatral foi tomada como modelo da cultura burguesa, o que de certa forma afirma o domínio cultural de uma elite dominante . Existia de fato, uma hierarquia de valores no seio das emissoras . De um lado, agrupavam-se os programas mais populares como shows, auditório, novelas e humorísticos, de outro, os teleteatros. "Os atores de teatro se consideravam intelectualmente superiores aos simples atores de televisão ( a maioria vindos do rádio, e o próprio veículo era visto como "uma arte menor') utilizada quando os recursos financeiros adquiridos no teatro, não eram suficientes. ou para atingirem maior popularidade. É o que percebemos nesse depoimento da atriz Tônia Carrero: "Era preciso também ganhar dinheiro fora do teatro,porque nem sempre tudo o que fazíamos era sucesso. Por isso tínhamos de fazer televisão. A gente ia a um coquetel, e estava presente, por exemplo, o diretor da TV Tupi., João Calmon. Eu, simpaticamente e cheia de charme, me aproximava dele e dizia: "Preciso ganhar 200 mil cruzeiros, e tem também meus companheiros que precisam trabalhar...Abra um espaço lá na sua emissora pra nós". No dia seguinte, a gente estava no cast da TV Tupi. Era sempre eu quem arrumava trabalho pra todo mundo, e eles viviam em torno de mim. A televisão sempre popularizou muito o artista, e nela quem protagonizava tudo era sempre eu. Chegamos a fazer duas séries muito interessantes, uma na TV Rio , TV Mistério e outra na Tupi , Teu nome é mulher. A distinção em se fazer teatro somada ao fato de que o teatro era realmente autônomo em relação à TV , fazia com que as companhias teatrais se apresentassem no vídeo apenas às segundas-feiras, como foi o caso do Grande Teatro Tupi Os espetáculos teleteatrais foram aos poucos assimilando a linguagem da televisão, inspirando-se no cinema. O teleteatro funcionava como uma espécie de laboratório onde os artistas, escritores , diretores iam se "modernizando' na busca de uma adequação de técnicas teatrais e cinematográficas compatíveis com a TV. O prestígio do teleteatro que ia ao ar mesmo sem patrocínio ( como foi o caso do Grande Teatro Tupi, no Rio de Janeiro, sob direção de Sérgio Britto , em 1958) era tal que determinava a hierarquia de valores na própria emissora. As telenovelas, por exemplo, eram apontadas como "gênero menor" sendo desprestigiadas, inclusive entre os atores que , porsua vez, davam preferência aos papéis que desempenhavam nas tramas dos teleteatros. A presença do teatro na televisão foi fundamental para que uma empresa como a TV Tupi (SP e RJ) pudesse ser considerada como de "elite"tanto pelos críticos como pelos própriosmembros que se viam como promotores de cultura Dessa forma podemos admitir que numa sociedade de massa incipiente, a televisão, o principal condutor da cultura popular, operava com duas lógicas : uma calcada nos valores de uma elite representada aqui, por seus teleteatros, e outra que investia num produto industrial herdado do rádio , as telenovelas ( herdeiras das radionovelas) e musicais. Em resumo, as emissoras comandadas pelas elites, operavam com sob uma ótica artística mas já visando também o lucro e a popularidade do veículo o que seria redominante nas décadas seguintes. 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