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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Quando o radiodrama volta à Cena

 

Na oportunidade que tive de participar do IX Simpósio de Pesquisa em Comunicação da região Sudeste, ( abril -2002- São João da Barra -RJ) associei-me ao Grupo de Trabalho que estudava o Rádio e Experiências Comunitárias.Foi quando defendi a utilização da dramatização no rádio, um formato que começou na década de 20 e foi desaparecendo aos poucos. Resta-nos hoje, a publicidade dramatizada e algumas inserções de sociodramas e crônicas policiais que usam o recurso do radiodrama. Na UFJF, fizemos uma experiência com os alunos da Faculdade de Comunicação. Criamos um seriado, o Besame Mucho, veiculado pela rádio Universitária FM, na freqüência 87,9. Mas aqui, gostaria de deixar para aqueles saudosos amantes do rádio, uma garimpagem do que foi o radiodrama na história da nossa radiofonia.

Nas anotações da cronologia do rádio em São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados onde emissoras proliferaram na década de 30, Luiz Maranhão Filho afirma que foi nessa fase que se desenvolveu a necessidade de adequação dos textos dramáticos ao meio radiofônico. Na verdade, os textos encenados nos palcos de teatro requeriam adendos e explicações agora que se colocavam diante dos microfones.

Não é fácil provar quem teria sido o pioneiro nesta área mas a imprensa registrou os trabalhos em radioteatro que reuniram nomes como Otávio Gabus Mendes, José Medina, Sebastião Arruda, Manoel Durães, Walter Durst (em São Paulo), Olavo de Barros, Plácido Ferreira, Vitor Costa, Cleson Guimarães, Cordélia Ferreira (no Rio de Janeiro) Luis Maranhão, Poliana e Vicente Cunha (em Pernambuco).

O primeiro momento da radiodramaturgia brasileira foi marcado pelo formato do sketch, original do teatro de variedades e identificado por sua curta duração e humor. Eram famosas as cortinas cômicas explorando o novo meio eletrônico ou ainda a produção de cenas de comédia utilizando-se um mesmo humorista para diferentes personagens ou vozes - este filão seria retomado mais tarde por Nhô Totico, em São Paulo, ou Silvino Neto, no Rio de Janeiro.

O rádio abria espaço também para nomes consagrados do teatro. Na Rádio Educadora de São Paulo por exemplo, registra-se a presença de Procópio Ferreira e Raul Roulien, o primeiro brasileiro a atuar no cinema em Hollywood; no Rio, a Companhia de Jaime Costa, nome famoso da comedia brasileira, marca presença esporádica no rádio.

A veia dramática testada primeiramente com o gran-guinol, gênero francês de entreatos que não excedia os trinta minutos. Mais tarde adotou-se o teatro cego isto é, a irradiação de textos clássicos da dramaturgia universal. Neste caso, os radioatores apenas liam as peças ao microfone.

O radioteatro seria enriquecido com sonoplastia e música, caracterizando-se como a essência da arte radiofônica. Era o teatro se apossando do meio radiofônico e tornando conhecidos programas como as domingueiras de Manoel Durães, na Rádio Record e O Grande Teatro Tupi (ambas emissoras paulistas), ou o Teatro pelos Ares, e Teatro em Casa, programas transmitidos pelas emissoras cariocas Mayrink Veiga e Rádio Nacional.

Em 1941 o rádio brasileiro ganharia um dos mais atraentes derivados do radioteatro ou seja, a história seriada - formato introduzido pelo dramaturgo Oduvaldo Viana, autor da primeira radionovela genuinamente brasileira: Fatalidade. No Rio, a Nacional veiculava Em busca da felicidade, do argentino Leandro Blanco. Durante os anos 40 e metade dos 50, as radionovelas imperaram como gênero de maior sucesso no rádio brasileiro ofuscando o radioteatro que entrava em fase de declínio.

Foi-se o tempo em que as radionovelas proliferavam na programação radiofônica. Época marcada por um rádio quase totalmente dialógico, sustentado por efeitos de sonoplastia que tornavam possível a produção imaginária de cenografias sonoras, ambientes onde a música criava atmosfera ou provocava determinadas emoções no ouvinte, onde uma sonoridade podia definir o caráter de uma personagem e até mesmo expressar estados de ânimo ... este rádio já está bem longe.

Hoje nos restam fragmentos deste radioteatro.Um exemplo pode ser encontrado na publicidade dramatizada presente em emissoras Mas e FMs. A todo instante somos tocados por comerciais que reproduzem pequenos scketes - imitam situações de nosso dia-a-dia para melhor vender o produto anunciado. Se a programação das emissoras, salvo raras exceções, não investe mais no radioteatro, o profissional de marketing não esqueceu o jogo persuasivo deste formato junto ao ouvinte. A esperteza une-se à criatividade dos publicitários que retomam os princípios básicos do rádio dramatizado: garantem que a radiodramatização quebra a monotonia do discurso narrativo e movimenta a imaginação do receptor. Alcança bons níveis quando oferece imagens auditivas , sugere situações e cenas com efeitos sonoros, estimulando situações palpáveis. A mensagem se humaniza e o público se sente mais tocado pela cena dramática.

No restante da programação isso não acontece. A maioria das emissoras investe pouco ou nada em trabalhos radiofônicos que utilizem a dramatização de qualidade. O que ouvimos atualmente no rádio são paródias de humor, seguindo roteiros repletos de vícios de conteúdo, chanchadas grosseiras e de mau gosto. Hoje as piadas no rádio são breves, contam com poucos atores, geralmente apenas um único humorista fazendo todas as vozes.

É comum encontrarmos nas estações AMs casos reais da crônica policial, transformados em histórias interpretadas, programas que apostam no drama radiofônico como o Você Decide Verdade (rádio Globo, Rio).

Radiodramatização no meio universitário

Oficina de Roteiro e Radiodramatização foi uma tentativa de se retomar o gênero dramático no rádio universitário partindo de produções do radioteatro gravadas e veiculadas pela Rádio Universitária. Em 1998, quando a oficina foi instalada como Projeto de Iniciação Artística da Gestão Cultural da Universidade Federal de Juiz de Fora, contou com a participação de cinco bolsistas que desenvolveram o rádiodrama Histórias que o rádio conta, título inspirado em crônicas publicadas pela Revista do Rádio. O projeto, além de contar com alunos da Faculdade de Comunicação, incorporou estudantes de outros cursos incluindo o da Terceira Idade, pessoas interessadas que atuaram como voluntários. Roteiros, gravações e todo o trabalho de sonoplastia e montagem foram realizados no Laboratório de Rádio da FACOM. As peças roteirizadas em diversos gêneros, desde o cômico ao suspense, faziam parte de programas fixos da Rádio Universitária e alguns sociodramas produzidos pela equipe, também foram transmitidos pela rádio Mega FM, uma emissora comunitária do bairro de Santa Cândida.

Em 1999 os bolsistas foram renovados e o projeto passou a produzir o seriado Besame Mucho se estendendo até o ano passado. Comédia romântica, protagonizada pelo casal Paulo Sergio e Alice, publicitário bem sucedido e psicóloga que vivem às turras embora no fundo, se amem apaixonadamente. Sensibilidade e pragmatismo, rotina e renovação do casamento, são questões que estruturam essa trama que ainda conta com personagens periféricos inseridos para dinamizar a narrativa. Os roteiros do seriado foram redigidos pelos alunos Odirlei Costa, Ana Claudia Barros e colaboradores voluntários como Vilena Varginha e Pablo Peixoto.

Como parte de minha atuação como diretora do projeto, submeti os alunos a um treinamento intensivo de concepção, redação e interpretação de radiodramaturgia, buscando também introduzir opções sonoplásticas. Dessa forma, todos os participantes do Besame Mucho se preocupam em exercer a arte de representar para o ouvinte radiofônico, explorando as possibilidades de criação em cada episódio de acordo com as exigências do roteiro.



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