Colunas
Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Arte e Democracia

 

Teorias frankfurtianas nos levam a crer que a arte só pode ser apreciada apropriadamente por uma elite privilegiada, quer porque seus integrantes não precisam trabalhar, quer porque seu trabalho,é constantemente estimulante e interessante, mas nunca muito ativo fisicamente .

A perspectiva elitista, conforme Dominic Strinati, depara-se sempre com problemas ao se encarregar de análises sociais e culturais , porque os padrões sobre os quais se baseia revelam-se arbitrários e não objetivos; antes uma reflexão da posição social de grupos específicos e não valores universais. Segundo o autor, alguns elementos de padronização, essenciais na indústria cultural, são necessários para ocorrer a comunicação.

O aparecimento de padrões de cultura popular , como gêneros de música ou de filme , não é necessariamente uma conseqüência das funções da indústria cultural, mas expõe o relacionamento desigual entre produtores e consumidores.Se a indústria cultural é tão poderosa, pergunta, por que ela julga ser tão difícil determinar de onde vem a próxima canção de sucesso ou o filme campeão de bilheteria ? Alguns estudos mostram que os consumidores de cultura popular são mais perspicazes e críticos do que as teorias da cultura de massa ou da indústria cultural são capazes de admitir .Obviamente, o público não é, de nenhuma maneira, tão poderoso quanto as indústrias da cultura popular , mas isso não é motivo para concebe-las de acordo com Adorno como "entorpecentes culturais".

Geração após geração ouvimos um grito de desespero lançado pelo mundo intelectual e cultural: "o número nem sempre tem razão". É a resistência de um segmento social contra a avalanche da indústria cultural que privilegia a audiência no que se refere à "quantidade" e a criação raramente se dá sem recusa e sem contradição às idéias "essenciais". O triunfo da cultura de massa , portanto do número, inseparável da democracia de massa e de seu principal instrumento, a televisão, atribui maior visibilidade e legitimidade às "idéias medianas". A relação de forças entre as duas culturas, ou seja, a minoritária e a de massa, provoca uma polêmica que a meu ver chega à atualidade sem ainda um bom termo.

Nos últimos 30 anos ao facilitar a emergência da cultura de massa, o modelo democrático não cessa de marginalizar a cultura minoritária. E isso, com o um legítimo argumento: o progresso da democracia , a elevação do nível de vida e da instrução. Existe ainda hoje, nos jornais, uma proliferação de "teóricos a maior parte com tendências "apocalípticas" (para usar uma expressão de Umberto Eco) que postulam teorias como "o elogio da parafernália técnica é uma confissão involuntária de que o Padrão de Qualidade se transformou numa espécie de fetiche tecnológico sem qualquer compromisso de conteúdo e substância . Para Maria Rita Khel, , "diante da TV ligada, isto é, diante do fluxo contínuo de imagens que nos oferecem o puro gozo, não necessário pensar. O pensamento é um trabalho, e ninguém agüenta pensar ( trabalhar) o tempo todo. (...) Diante do fluxo de imagens, paramos de pensar . E quanto mais o fluxo de imagens ocupa espaço em nossa vida real e nossa vida psíquica, menos é convocado o pensamento", o que nos faz lembrar Adorno quando referia-se à fórmulas insípidas e padronizadas , desenvolvidas para atender aos consumidores atomizados e abertos à manipulação.

Fica aqui mais um convite à sua reflexão. Vamos discuti-lo ?


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