Colunas
Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Ricos e pobres na telenovela

 

Roberto Ramos , no livro "Grã-finos na Globo" (ed. Vozes ) nos alerta para o fato de que qualquer telespectador pode chegar facilmente a uma constatação: a realidade das novelas é bem mais bela que a da sua rua, a da sua cidade, enfim, a do seu país. Os ricos adormecem em suas mordomias e os pobres não são tão miseráveis. É a "cultura Zona Sul", ( a designação Zona Sul pretende situar os bairros Ipanema, Leblon, Gávea, São Conrado e Barra da Tijuca do Rio de Janeiro.

Os modos de viver, pensar e ser de seus moradores compõem o modelo cultural que caracteriza as diversificações conjunturais do gênero ) diz ele, pois o enredos se movem em torno de elites em qualquer geografia e conjuntura. Você pode reparar que uma novela ambientada no interior do país, ou na Bahia, Minas etc, não importa o lugar, o comportamento dos personagens é sempre baseado na conduta média dos cariocas. Por isso, faz bem o autor Manuel Carlos que, não recorrendo à hipocrisia de retratar o Brasil falso, coloca seus personagens transitando no próprio Leblon, e até freqüentando a padaria onde ele faz seu lanche.
E, de um modo geral, a realidade se estrutura pela vida dos ricos. " Eles moram em mansões e apartamentos de cobertura e os seus meios de produção estreitam fantasiosamente a convivência com os pobres. Os valores culturais e econômicos estão concebidos dentro do universo da Zona Sul"reitera Ramos.

A cultura Zona Sul portanto, transmite valores elitistas e o merchandising explora o desejo inconsciente para o consumo. São estes valores, adverte autor, que articulam a hegemonia capitalista nas novelas da Globo.
É importante lembrar que a novela já faz 50 anos e ao longo desse tempo estamos acompanhando efetivamente os capítulos como um reflexo condicionado , já consolidado no nosso dia-a-dia .Portanto parece-nos até natural que a ideologia de um centro urbano poderoso como o Rio de janeiro já esteja incorporada em nossa maneira de pensar e agir. Os regionalistas, apesar de se escandalizarem com certas atitudes de personagens novelescos, acabam por incorpora-los com o tempo, sem muita barreira.

As histórias envolventes e as características pessoais de cada personagem despertam simpatia no público pois a trama em geral, apresenta representantes de todas as classes sociais: pobres, empregados, mordomos, choferes, suburbanos , velhos, moços, burgueses, profissionais liberais etc. A família brasileira se reúne para ver a novela e ali encontra elementos para atrair o telespectador, desde o vovô à netinha. O público busca, pela telenovela "entrar'inteiramente no social, no conhecimento e no domínio das regras da sociedade. Segundo J.S. Godlad, o motivo de se assistir às telenovelas e'que por meio delas as pessoas podem se ordenar e organizar sua vivência social segundo o que é permitido na sociedade, ou seja, de acordo com o "comportamento social adequado".

A vida que a televisão mostra é para o homem e para a mulher, uma verdadeira troca, com vantagens, de sua vida real. a emoção o que as pessoas sentem durante a novela, a vibração pelos esportes ou a atração que os homens têm pelas vedetes do vídeo fazem todos viverem através da televisão. Ela permite uma vivência, uma prática de emoções de sentimentos, de alegrias, de tristezas, de sensações sexuais que a vida real não possibilita. "Ela é o alimento espiritual desse corpo cansado ,sugado, exaurido pelo trabalho industrial na linha de montagem, pelo trabalho burocrático no banco ou na repartição , pelo trabalho enfadonho dos escritórios e das lojas" conclui Ciro Marcondes Filho.


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