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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Programação cultural na TV

 

As relações entre cultura e televisão sempre foram difíceis até se tornarem francamente más com o declínio da televisão pública e o triunfo da televisão privada. O lugar dos programas concebidos como "culturais" ou simplesmente aqueles que têm uma abordagem cultural tiveram nos anos 50, como no caso dos teleteatros, uma presença maior do que hoje , em canais abertos. Atualmente os programas culturais escoam-se para a TV segmentada.

Mas o que seriam programas que exprimem a cultura já que sabemos que a palavra cultura é uma das mais difíceis de se definir porque ela é polissêmica e há muito tempo certas tradições filosóficas, sociológicas e antropológicas apõem-se ao assunto. Num sentido mais estrito e que tomaremos aqui, seria o da palavra alemã Bildung , que designa os conhecimentos e saberes identificados como culturais.

A sociologia do conhecimento e da cultura valoriza sobretudo a produção e a circulação de obras que exprimem a criação artística ou intelectual, mas também as representações do mundo e as condições da economia da cultura. A sociologia das mídias estudou muito o desenvolvimento da cultura de massa e suas relações com a cultura de elite que tem dimensões filosóficas ligadas às relações entre cultura e civilização , dimensões sociológicas relacionadas à produção e intercâmbio de obras na sociedade, dimensões históricas concernentes à tradição e da novidade e dimensões antropológicas como a questão dos símbolos, dos valores e das representações.

Na maioria dos países, inclusive no Brasil, a televisão foi pública foi criada chegando a fixar, como na Europa, um objetivo cultural "distrair, informar, cultivar', geralmente aceito por profissionais, políticos e elite. E chegamos a ver intelectuais , dramaturgos , diretores de teatro e companhias investirem na televisão para tentar realmente construir essa escola do século XX. A ruptura é mais forte, visto que, no primeiro momento, o mundo cultural havia investido na televisão e a implacável lógica da rentabilidade e do grande público, como já vimos, acabou por excluir da programação, os,programas ditos "intelectuais". Para Dominque Wonton , se os primeiros anos, de 1950 a 1970, foram de uma colaboração entre cultura e comunicação de massa, ou, em todo caso, de um respeito mútuo, "os vinte anos seguintes 1970 e 1990, foram , ao contrário, marcados por uma crescente distância e por um desprezo , às vezes vulgar, da maioria dos geômetras da comunicação quanto a todos os projetos cuja idéia fugisse da "estrada"das receitas garantidas"

Historicamente , os programas de caráter cultural, a exemplo dos teleteatros, tiveram uma evasão progressiva do veículo enquanto aceitavam as limitações mais e mais drásticas de seu acesso à televisão . Os dois últimos decênios eliminaram os difíceis esforços dos dois primeiros decênios. Para Wonton, a história dessa degradação foi mais triste na França, país que mais teorizou as relações entre a cultura e a televisão.

Contando sua experiência que teve ao realizar entre 1981 e 1988, junto com Jean-Paul Missika, dois programas de caráter intelectual, na Antenne 2 ( canal público - televisão geralista) descarta a criação de um canal especificamente cultural onde os intelectuais e artistas possam se exprimir como uma saída para o divórcio entre televisão e cultura:

Se , a despeito dessas duas experi6encias, não admito imediatamente o interesse da televisão cultural compreendida como único meio oferecido aos intelectuais para se exprimirem pela televisão, não é por masoquismo! Mas porque dissocio as dificuldades de uma experiência - partilhada por aqueles qiejá a experimentaram - do problema geral da cultura na televisão. O fato de que, em trinta anos, formidáveis projetos culturais e intelectuais não puderam ver a luz do dia, e às vezes não puderam sequer tomar consciência de um certo aintiintelectualismo, não deve nos levar a concluir que a única solução seja fazer, ao lado da televisão geralista, uma televisão "cultural".

Wolton reforça a teoria de que a televisão é sobretudo divertimento , distração e informação.Não só porque não existe a participação direta do público mas também porque a mediação da imagem cria uma relação com o espetáculo, traçando outras regras de divertimento. Por isso, certos gêneros culturais se prestam melhor do que outros aos imperativos da televisão pois a assistimos "para nos distrairmos e não para nos cultivarmos mas, se nos cultivarmos ao mesmo tempo, tanto melhor!".Chamar um programa de cultural, não garante a diversão do telespectador e conseqüentemente, sua audiência. Se não fosse assim, haveria público de massa para todas as atividades culturais, pondera Wolton.

A mediação da imagem suscita regras de divertimento diversas daqueles do divertimento direto. Os especialistas que reclamam uma televisão cultural, denunciando o emburrecimento da televisão geralista, são os mesmos que, como todo mundo, assistem a programas de distração. Ligam a TV como qualquer cidadão, para se distrair, esquecer, arejar as idéias, evadir-se, aceitando deixar-se tomar por um momento pelas imagens e não pensar em nada. Isso explica o sucesso de programas como jogos, variedades, ficções, autênticos programas de distração para "todos os públicos".

Quanto aos domínios estéticos, (pintura , escultura), a televisão pode facilitar uma sensibilização , mas i essencial continua sendo a percepção direta, num contexto emocional que jamais poderá se dar na televisão. A televisão oferece como no teleteatro, incontestavelmente, uma via de acesso à dramaturgia e será apenas esta voz de acesso porque a natureza da atividade audiovisual e a da atividade cultural, no sentido amplo, não pertencem ao mesmo espaço de regras, símbolos , normas, escrituras etc. Desse modo é que para Wolton, a existência dessas duas características da televisão - espetáculo e divertimento - ameaça trazer conseqüências dramáticas para uma televisão cultural . O público não cultivado não se interessará talvez, e nada garante que o público cultivado se interesse.

Para o público não cultivado, cultura não é uma palavra neutra, mas, ao contrário, fortemente carregada de significação social .É ao mesmo tempo o apanágio da elite e signo distintivo por excel6encia, no sentido em que "ser culto", significa "ser distinto", sendo também um meio de se distinguir do resto da população. O mecanismo de seleção continua existindo pois a necessidade de se distinguir, como bem definiu Pierre Bourdieu, cresce proporcionalmente à democratização da cultura. A cultura reproduz a hierarquia social e cultural e o acesso a ela não se dá como no esporte e na política .Continua sendo uma barreira insuperável entre os cidadãos e a consequ6encia disso é que a grande maioria do público não se considera suficientemente culta para se preocupar com programas culturais e começa a racionalizar essa auto-exclusão dizendo que os programas culturais são chatos na televisão e fora dela.

 

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