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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Cineastas fazendo televisão

 

Num complexo de racionalização e padronização das práticas na cultura industrializada, já denunciado pelos frankfurtianos, tentaremos refletir até que ponto os produtores estão efetivamente enredados em uma teia racionalizada que atravessa toda a sociedade ou quais são as possibilidades "criadoras"que fazem com que a produção cultural industrializada ceda à autoria e ao estatuto de "arte", uma preocupação da cultura contemporânea. Como será a posição de um cineasta incursionando pela TV, numa época em que segundo Edgar Morin, "a criação tende a se tornar produção".Há que se levar em conta a questão da técnica e sua derivação para a discussão do tempo, da rapidez moderna que atinge a estruturação das produções e suas alterações freqüentes face ao processo cultural.

Na década de 60 , a televisão foi vista pela classe cinematográfica como um veículo que assumiu o espetáculo fácil de consumo que antes cabia ao cinema popular. A baixa cultura, o melodrama barato ficou para a televisão enquanto o cinema procurava um novo tipo de temática e uma nova relação com o público. O desprezado universo da Boca do Lixo recusava a TV num esforço de distinção no interior da produção audiovisual ,procurando se valer de uma pretensa "aura" que lhe dava o dote "artístico".No confronto com a TV, os produtores culturais da Boca se comportavam como se pertencessem ao cinema "culto".

Integrantes do Cinema Novo também desconsideravam a televisão como possibilidade estética e os cinema comercial dos anos 70 preocupados com os filmes de baixos custos reagiam à TV como os da Boca. O avanço da televisão e a expansão do gênero telenovela, a abertuta política e posteriormente a crise de mercado e produção cinematográficos provocaram uma agudização do conflito entre o cinema "culto"e o veículo doméstico.Num artigo de 1977, Glauber Rocha caracteriza a televisão como uma "geléia "veiculadora de "XOZ ( "shows" na escrita glauberiana), Milionários de Roiliúde, Novelas de Grande hotele jornalismo censurado". José Mário Ortiz Ramos registra um primeiro contato mais direto com do setor "culto"com a TV , quando cineastas como Gustavo Dahl, João Batista de Andrade e Walter Lima Jr.trabalharam para o Globo Shell Especial realizando documentários, na primeira metade dos anos 70. A aproximação aconteceu num momento em que a TV Globo procurava estabelecer uma relatório cultural recusando-se a alcunha de "popularesca".

Mas as experiências de cineastas brasileiros na televisão atravessam um impasse ainda na década de 80 .Walter Jr acredita que os profissionais da televisão acham que os cineastas estão muito distantes do veículo porque idealizam muito o trabalho deles, fantasiam seu projeto de trabalho e convivem com essa fantasia durante muito tempo . "O intelectual na televisão - diz - me parece uma pessoa encostada contra a parede , ele não tem muita chance de se exercer puramente enquanto um intelectual". Sonhava-se com uma televisão menos comercial e massacrante . Aquela geração criada num clima totalmente diverso, chocou-se violentamente com a TV.

 

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