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Ficção, crítica, história e teatro na TV A vida por um fio A programação levada ao ar durante os primeiros meses da televisão brasileira mostra claramente um engatinhar hesitante na busca de atrações e programas para preencher os horários das transmissões. Levaria ainda algum tempo para que as emissoras de TV pudessem estruturar sua programação, uma verdadeira caixa de surpresas para os primeiros telespectadores. A Tupi optou por acompanhar o ritmo das manifestações culturais paulistanas, aproximando-se mais de um modelo de televisão cultural do que do comercial em seu primeiro ano de funcionamento. Este fato nos parece bastante decisivo para a ascensão do teleteatro no meio televisivo. Antes de se partir para a encenação de uma peça de fôlego, a PRF-3, TV Tupi de São Paulo, ensaiava pequenos quadros românticos teatralizados, alguns de autoria de Walter Foster. Tecnicamente o teleteatro era um desafio e inúmeras dificuldades surgiram principalmente se levarmos em conta que todos os espetáculos eram ao vivo. Seria necessário ainda algum tempo para que se tivesse um maior conhecimento e domínio dos equipamentos e seus recursos. .Nesse período de aprendizagem, os atores, na maioria vindos do rádio, acostumados a utilizar apenas a voz em seu trabalho, não tinham uma expressão corporal adequada diante das câmeras de TV. O resultado era que a locução saía perfeita mas a postura do corpo ficava em total desacordo com as necessidades da cena apresentada. Além disso, havia a dificuldade de decorar scripts .Habituados a ler diante dos microfones, aqueles "radioatores" não memorizavam os textos que lhes cabia, o que determinou o uso do antigo "ponto"como ocorrida no teatro . Eles recorriam às "dálias"que eram textos escritos e espalhados pelo cenário. E assim a televisão seguia engatinhando em seus espetáculos dramáticos sem outra escola que não a da experimentação. Dois meses depois de inaugurada , no dia 29 de novembro de 1950, a TV Tupi colocou no ar sua primeira telepeça - A Vida Por Um Fio- baseada na peça de Lucile Fletcher que também ganhou uma adaptação cinematográfica de Anatole Litvak, 1 protagonizada pela atriz Bárbara Stanwyck. A grande estrela de Hollywood da década de 40, fazia o papel de uma mulher que sofre de paralisia e vive enclausurada em seu quarto mantendo contato com o resto do mundo através do telefone. Um dia, ouve por acaso numa linha cruzada uma conversa entre dois homens que planejavam um assassinato. A ação da peça se baseia no esforço da mulher para tentar impedir que o crime se realize até que no final acaba descobrindo que a vítima seria ela própria e o crime estava sendo encomendado pelo marido. O assassino estrangula a mulher com o próprio fio do telefone. Na televisão, o personagem foi vivido pela atriz Lia de Aguiar que já havia atuado em cinema e era considerada a "Princesa das Associadas". A encenação foi anunciada como a "primeira peça de vulto" que a TV Tupi deveria "proporcionar ao público paulistano". Flávio Luiz Porto e Silva, em sua pesquisa sobre o teleteatro paulista, afirma que o texto da peça se prestava "bastante a um primeiro teleteatro, porque o cenário era único e os interlocutores com quem a personagem tentava se comunicar só apareciam através das vozes". O papel , de grande tensão e dramaticidade, se ajustava perfeitamente ao de Lia de Aguiar, cujo nome já era suficiente para despertar a curiosidade dos telespectadores e rádio-ouvintes O sucesso obtido com a transmissão de A Vida por um Fio motivou os então diretores do canal, Dermival Costa Lima e Cassiano Gabus Mendes a prosseguirem na tentativa da implantação de um teleteatro semanal. Os autores seriam Walter George Durst, Walter Foster e Mário Fanucchi. A experiência com pequenos teleteatros continuou até que grupos ou companhias teatrais paulistas passaram a freqüentar a TV com assiduidade mostrando os espetáculos que estavam em cartaz nos palcos paulistas. Madalena Nicol foi uma das primeiras a se apresentar na televisão, onde exibiu as peças Antes do Café, (um monólogo de Eugene O'Neill, anteriormente visto nos palcos do TBC, em 1949) e A Voz Humana, de Jean Cocteau.4 A presença da atriz no vídeo era motivo de prestígio para a emissora e serviu como motivação para montagens mais ambiciosas.A Tupi reservou-lhe um horário especial criando o Teatro Madalena Nicol que foi ao ar por duas semanas consecutivas, interrompendo-se em seguida para retornar esporadicamente.Sua presença constituía motivo de prestígio para a televisão e acima da atriz estavam os nomes de Eugne O'Nell e Jean Cocteau cujas peças puderam ser vistas pelos paulistanos. A televisão começava a dialogar com a literatura e a dramaturgia . Notas: 1- PORTO E SILVA, Flávio Luis. O Teleteatro Paulista nas Décadas de 50 e 60, São Paulo:IDART- Centro Cultural São Paulo. 1981 p.19 2- Jornal Diário da Noite , 29 de novembro de 1950. 3- PORTO E SILVA. Op. cit. p. 23 4- Revista Briefing São Paulo. Edição de junho de 1978. Cristina
Brandão
Arquivo
Televisão,
um projeto cultural que divulgou o teleteatro
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