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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Cultura superior, midcult e masscult

 

Estudar os fenômenos ligados à indústria cultural sob o prima da chamada "alta cultura"e da "cultura de massa" vem produzindo uma seqüência de "conceitos fetiche"a maioria das vezes presos às idéias dos pesquisadores e teóricos e distantes do objeto estudado. Um dos caminhos para se entrar nessa discussão foi aberto por Dwight MacDonald que classificou três formas de manifestação cultural: a superior, a média e a de massa (subtendendo-se por cultura de massa, a cultura inferior ). A cultura média, a do meio , é designada também por uma expressão pejorativa , ou seja , MIDCULT associada aos valores pequeno-burgueses . A cultura de massa é chamada de MASSCULT e para o teórico não se trata nem de uma cultura, nem de massa.

Para identificarmos a cultura superior incluiríamos nesse rótulo, os produtos canonizados pela crítica erudita, como por exemplo, as pinturas do Renascimento, as composições de Beethoven, os romances "difíceis" de Proust e Joyce, a arquitretura de Frank Lloyd Wright e todos os seus congêneres.Também não é complicado identificar os produtos da midcult: são os Mozarts executados em ritmo de discoteca; as pinturas de queimadas na selva que se pode comprar todos os domingos nas praças públicas; os romances de Zé Mauro de Vasconcelos, com sua linguagem artificiosa e cheia de alegorias fáceis, daquelas mesmas que as escolas de samba desfilam todos os anos nos seus sambas: as poesias onde pululam um lirismo de segunda mão e os chavões ; as fachadas das casas que pelo interior a dentro reproduzem, desbastadamente, o estilema ( isto é, o traço central do estilo do Palácio da Alvorada. E são infinitos os exemplos (Ver Teixeira Coelho - O que é Indústria Cultural Ed. Brasiliense. )

E quando tentamos catalogar o que se enquadra na masscult estamos diante de um impasse porque os produtos fornecidos pelos meios de comunicação de massa - rádio, TV e cinema - vêm comparados com a cultura produzida pela literatura ou pelo grande teatro mas deveriam ser relacionados com outros meios de comunicação de massa como a moda, os costumes alimentares, a gestualidade etc. Um produto explorado pela TV é um produto da masscult mas a passagem de um produto cultural de uma categoria inferior para outra superior é apenas uma questão de tempo. É o caso do jazz, que saiu dos bordéis e favelas negras para as platéias brancas dos teatros municipais. Muita gente boa disse que os textos de Oswald de Andrade não passavam de brincadeiras de criança. Seriam eles a masscult da época?

Cada vez fica mais difícil distinguirmos os produtos da midcult ou da masscult. E entre ambas e a cultura superior como a definição rígida de MacDonald . Uma história em quadrinhos como a do Minduin tem seu indiscutível valor cultural do mesmo modo não é possível hoje alguém não reconhecer que as músicas e letras do Beatles não são mero refugo estético. Os defensores da masscult defendem seu caráter democrático por romper as diferenças entre as classes sociais quando sabemos que seus produtos podem chegar a um grande número de consumidores enquanto os produtos da cultura superior são de fruição exclusiva da classe dominante. Há ainda quem reprove a proposta da midcult que explora propostas originárias da cultura superior e apresentam-nas de forma que o público acredite que esteja consumindo obras de grande valor cultural . A autêntica masscult nesse caso, seria grossa mas sincera.

Concluindo, acredito que a cultura hoje é híbrida e perfaz todas as classificações . Os resistentes da chamada "alta cultura" não podem mais evitar que suas obras sejam expostas á mídia. Do contrário, permanecerão no ostracismo ou morrem de fome. A midcult mais do que nunca, está trazendo os clássicos da literatura para o cinema e televisão e há ainda as autênticas bizarrices da masscult que, surpreendentemente, podem até ser admiradas pelos fruidores da cultura superior . Quem disse que somente os indigentes culturais assistem o Ratinho !

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