Colunas
Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Desenjaulados

 

A final da "Casa dos Artistas" foi mesmo uma apoteose . A festa melodramática do nada. O programa que durante 52 dias, se não me engano, mostrou o cotidiano de coisa nenhuma, o vazio de palavras, de ações, de significado. A teledramaturgia da vida banal dos enjaulados sem ter o que dizer. De inexpressivos "artistas" confinados numa mansão onde nada acontecia a não ser o tédio que era captado por câmeras nem tão indiscretas, em vários pontos estratégicos da casa. Eles, pelo menos, não tiveram que comer coisas nojentas, enfrentar desafios de sobrevivência e manter a resistência física como acontece em No Limite, da Globo .

Ali, naquela mansão paulista observada durante dias e dias por milhões de telespectadores uníssonos numa grande torcida pelos confinados, apostava-se a cada semana, em cada nome para ser ou não "eliminado". Talvez essa competição entre os próprios "artistas"e entre o público que torcia por seus favoritos e abominava os outros, tenha sido o grande mistério que move interesse da audiência por esse tipo de programa. Observar as rusguinhas entre eles, as lágrimas derramadas pela saudade da vida do lado de fora da jaula e as carícias breves trocadas vez ou outra entre si . "Tudo isso" pode ter provocado o interesse do telespectador que aguardava a possibilidade de algo mais contundente vir à tona. Quem sabe, uma cena de sexo mais verdadeira que a da novela!

Que decepção! A edição bem comportada , é claro, deixou o público apenas na sublimação do desejo. E veio a final, o dia de desenjaular as últimas atrações do programa. No domingo, dia 16 de dezembro, a ingênua e meio moderninha Bárbara, foi escolhida pela audiência, a receber o prêmio de 300 mil reais. E Sílvio Santos, no SBT, esticou ao máximo, a sua "festa pobre" roubando a audiência do Fantástico e de Roberto Carlos.

Eu não gostaria de estar comentando aqui, esse gênero de reality show mas uma coisa me preocupa. Fazemos parte ,queiramos ou não , de um cotidiano pós-moderno; vivemos a contemporaneidade do excesso de informação , da exorbitância de ofertas da nossa indústria cultural. Só para citar um exemplo. Num domingo sem grandes expectativas, podemos não fazer nada de extraordinário. Mesmo porquê, o dinheiro está curto. Mas, é só dar um pulinho até a banca de jornal mais próxima de casa. Ali, diante de nossos olhos ,está uma gama de atrações impressas, em áudio, vídeo , artesanato etc. A angústia da nossa existência hoje é saber se-le-cio-nar. E por que optar pelo vazio , pelo ócio, por um voyeurismo televisivo , pelas pífias atividades de umas "cabeças ocas"de artistas ? E vem aquele perguntinha de sempre: :"Você não tem nada melhor pra fazer do que assistir à "Casa dos Artistas"?

O comportamento de pequenos grupos enjaulados começou na 'década de 70, quando
instituições de pesquisa montaram os chamados "zoológicos humanos" para investigações psicológicas sobre o assunto. A própria Nasa mantém hoje um laboratório de psicologia na Antártida e na Austrália com a finalidade de montar missões de longa duração, como uma viagem ao planeta Marte. Mas, fazer isso com acompanhamento de filmagens e audiência foi uma idéia que surgiu com o "Big Brother", programa da televisão holandesa . A experiência já havia rendido Ibope também na Inglaterra , com o programa "The Human Zôo" exibido pela Discovery, nos Estados Unidos .Doze pessoas ficaram confinadas durante uma semana , sendo diariamente filmadas com a desculpa de estudos de comportamentos. Elas passaram por uma série de situações arranjadas por psicólogos de plantão . Na França, existe por parte do público o mesmo apetite de voyeurismo e indigência cultural do brasileiro. Lá, uma espécie de "Casa dos Artistas", fez bastante sucesso - o "Loft Story". No cinema , o "Show de Trumann" ( filme exibido pela Globo para tentar esvaziar e "criticar" a iniciativa do SBT) leva essa espécie de reality show às últimas conseqüências.

Bisbilhotar a vida alheia é algo entranhado na alma do ser humano e, quem sabe, põe em evidência o que existe de pior na natureza humana . Historicamente, os enforcamentos em praça pública e as lutas mortais de gladiadores já faziam sucesso há séculos .
Na "Casa dos Artistas", acompanha-se o nada, na expectativa de que se possa ver "muito". E quem perdeu tempo com o programa constatou que "muito é muito pouco"
( parafraseando Caetano Veloso) e só rende bons lucros ao dono do negócio, é claro !

 

Arquivo

Lei de incentivo à cultura

Do romance ao filme

Benjamin reflete sobre a arte

Investigando a cultura de massa

Brava Gente

Lembrando Walter Avancini

Audiência Ditadora

Autores discutem cultura e mídia

A fórmula da telenovela

Novela - Comédia

Perfil da telenovela

Reflexões sobre o telespectador

Televisão é meio popularesco?

Os anos 70 e a telenovela

Elite gosta de baixaria?

... e a televisão virou novela - (capítulo 2)

... e a televisão virou novela - (capítulo1)

No tempo das "novelinhas" de 20 minutos

Auto da compadecida

Televisão que gera fortuna

Fernanda Montenegro há muito tempo na nossa TV

TV de vanguarda, projeto arrojado da nossa TV

As primeiras experiências em linguagem televisiva

Incluo Os Maias na nossa quality television

A vida por um fio

Televisão, um projeto cultural que divulgou o teleteatro

  Teleplay ou teleteatro