Colunas
Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Lei de incentivo à cultura

 

Através da Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura teremos a preservação de parte da memória do rádio de Juiz de Fora preservada através de um vídeo-documentário que acabei de realizar e será lançado no próximo dia 18 de dezembro, às 18hs, no anfiteatro João Carriço, instalado no prédio da antiga Prefeitura e onde hoje, funciona a Funalfa. O vídeo leva o título de "Assim era o Nosso Rádio" e conta a história dos anos de ouro do rádio juizforano quando a televisão ainda não era popular e o rádio tornara-se o grande veículo de comunicação do país. A disputa radiofônica ficava entre as rádios PRB3 e Industrial e imperava a criatividade e o idealismo de centenas de radialistas da década de 50.

Pouca gente sabe que a Rádio Sociedade de Juiz de Fora ( depois PRB3) funcionou na década de 20, no prédio da antiga Biblioteca Municipal, no Parque Halfeld. Foi ali, que Pedro de Oliveira e sua família trabalhavam àrduamente para levar à população juizforana uma programação que misturava música clássica, o noticiário"O Aralito",crônicas sociais e audição de conjuntos regionais e populares. Foi nessa época que Tia Violeta , a mulher de Pedro, contava suas histórias pelo rádio magnetizando a audiência infantil. Remanescente desse período, Lígia de Oliveira, a filha mais velha de Pedro, é quem nos deu um depoimento emotivo sobre esse período .

O vídeo traz ainda, depoimentos sobre a chegada da rádio Industrial em Juiz de Fora, no ano de 1949 , iniciando uma disputa de audiência com a B3. Além de incentivar o jornalismo, a Industrial monta o seu Departamento de Rádioteatro, mobilizando atores do teatro amador e até de grupos do Rio de Janeiro, como foi o caso do ator Natálio Luz que , embora de passagem pela cidade com sua trupe teatral, acabou ficando por aqui e marcando sua presença na produção e direção de radionovelas da Industrial. Enquanto isso, a PRB3 , para não ficar atrás, contrata o radialista Mário César que comandava o elenco de radioatores da emissora.

As novelas , gênero de sucesso na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, desde 1941 com "Em Busca da Felicidade", do cubano Leandro Blanco, começam sua carreira em Juiz de Fora . Entre as mais destacadas radioatrizes da época, Iná Coelho e Arlete Piva Barros, foram entrevistadas e deixaram registradas as suas recordações da época. Inimigas nos scripts das radionovelas, elas se tornaram grandes amigas na vida real e foram com grande emoção e carinho que conversaram comigo sobre aqueles anos "dourados".

O radiojornalismo é um outro tema explorado no documentário que entrevista os jornalistas Wilson Cid , Paulo César Magela, e Márcio Guerra Eles comentam as coberturas policiais e esportivas feitas pelo rádio e ressaltam a importância de muitos nomes entre os eloqüentes cronistas esportivos que além de transmitirem as partidas de futebol em todo o país, incentivaram o esporte local .

O documentário vai registrar sobretudo, entre a programação, os populares auditórios comandados por animadores que se tornaram figuras carismáticas dos ouvintes. Com músicos ,compositores de Juiz de Fora, humoristas e radioatores, os auditórios passaram a ser uma opção de lazer para a sociedade juizforana .Famílias inteiras tinham o hábito de sair à noite para assistir os programas ao vivo, e lotavam todos os lugares dos auditórios no interior das próprias emissoras principalmente quando estas anunciavam a vinda de estrelas do rádio como Ângela Maria, Emilinha Borba, Marlene, Orlando Silva, Renato Murce e muitos outros artistas brasileiros.

Para mim, o mais difícil na elaboração do roteiro do vídeo foi encontrar fotografias que registrassem a história porque imagens não existiam. Com o acervo da Carriço Filmes, da Funalfa, foi possível reproduzir alguns momentos expressivos do rádio, principalmente um programa de auditório, de 1950, transmitido diretamente do Central e que foi registrado pelo cinejornalismo de Carriço. Não fossem os acervos dos radialistas ainda vivos, que nos emprestaram boa parte do material fotográfico seria impossível fazer o documentário.

As entrevistas foram gravadas em sistema digital garantindo a possível exibição do vídeo em emissoras de TV.Também a edição não-linear realizada por Paulo Soares e Iury Salk ajudou na criação de vinhetas e efeitos .
A produção do vídeo ficou a cargo de Juliana Machado que fez contatos com os radialistas que ainda se encontravam na cidade e puderam falar sobre os anos de ouro do nosso rádio. Mas, foi uma pena não podermos ouvir todos os radialistas remanescentes daquela época e que ainda estão vivos. O ideal seria fazer um documentário dividido em duas partes de uma hora cada. Mas, sintetizamos o material para 50 min pensando em não deixar o vídeo ficar muito extenso e talvez cansativo para o público.

A realização desse documentário pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, divulgada pela Funalfa, tem à frente, o superintendente José Alberto Pinho Neves que dedicou à ela um cuidado todo especial . Pela sua inteligência e ampla visão do significado cultural que a lei tem para os artistas juizforanos, conseguiu ampliar de 300 para 500 mil reais em valores que serão distribuídos aos produtores culturais agora, em 2002. Fique atento! Se você tem algo de importante e quer colaborar com a cultura da nossa cidade , aguarde o edital da Lei Murilo Mendes que será lançado em Janeiro.

Espero que existam projetos que de certa forma, ajudem à preservação da memória do nosso município que ainda tem muita coisa a ser documentada e que corre o risco de ser perdida e esquecida com o passar do tempo, caso não seja devidamente registrada.

 

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