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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Do romance ao filme

 

Enquanto aguardamos o filme de Luis F. Carvalho, baseado no romance "Lavoura Arcaica", do paulista Raduam Nassar, escrito em 1975, que já está fazendo sucesso no Rio e São Paulo, gostaria de registrar aqui, alguns procedimentos tomados por diretores e roteiristas quando revertem em discurso fílmico ou televisivo, um conteúdo narrativo.Tomo como exemplo, o filme Rebecca, de Alfred Hitchcock ( 1942)

O conteúdo narrativo de um filme é a sua história. Diríamos que Rebecca contaria a história de uma mulher que revive seu passado ; o início de seu casamento e a descoberta da personalidade da falecida ex-mulher de seu marido e das circunstâncias da sua morte.
Usa-se o termo diegese que está próximo mas não é sinônimo de história ( pois tem um alcance mais amplo) para designar a história e seus circuitos, a história e o universo fictício que lhe é associado . A Inglaterra dos anos 40 faz parte da diegese de Rebecca, isto é, o universo ou o mundo diegético. Temos ainda outras denominações, como : "tempo, duração diegética", "espaço diegético", "som, ruído, música diegética "( ou extra-diegética ).

A história e a diegese dizem respeito, portanto, à parte da narrativa não especificamente fílmica. No filme, a contrapartida da diegese é, com certeza, tudo o que se refere à expressão, o que é próprio do meio: um conjunto de imagens específicas, de palavras, de ruídos, de música , ou seja, a materialidade do filme.

É a narrativa , o texto narrativo que se encarrega da história, que permite que esta história tome forma .Contar uma história com palavras, oralmente ou por escrito já é coloca-la em narrativa. Uma sinopse é uma narrativa, um roteiro também , assim como um simples resumo. Quando digo que Rebecca é a história de uma mulher que revive seu passado..., na realidade já estou operando uma narrativa, que é diferente da autora do livro Daphné du Maurier, da proposta do roteiro do filme, da proposta de um espectador que viu o filme e que está me contando.

Quando se articulam a um conteúdo , os componentes expressivos do filme adquirem uma razão de existir. Um travelling por si só não quer dizer nada mas, adquire um sentido se acompanha determinado personagem , adquire outro, se varre uma determinada paisagem. O conteúdo e a expressão formam um todo e sua combinação, sua associação íntima são capazes de gerar a significação .Para se trabalhar o sentido de um filme é preciso convocar de imediato e em sincronia, a história e a narrativa.

A narração ( ato narrativo) de um filme diz respeito as relações que existem entre o enunciado ( o próprio filme ) e a enunciação ( o romance no qual ele se baseou) . A fonte da enunciação fílmica é o livro de D. du Mourrier .

Uma das principais diferenças entre romance e filme é que enquanto o romance é verbal por inteiro, a matéria do filme é amplamente extra lingüística . Recusamos a noção de enunciação referindo-se ao filme, pois esta só pode ser aplicada à palavra e à escrita e não à produção de imagens. Podemos considerar o romance como fonte ou foco da enunciação. É possível afirmar que em cada filme narrativo está a presença de um foco, de uma fonte, uma instância de enunciação , o narrador de primeira ordem . O parentesco de enunciação e narração é evidente. Nos filmes não narrativos a narração está ausente mas não a enunciação .Enunciação é portanto, um termo mais geral do que narração pois se aplica a qualquer tipo de enunciado.

Instância narradora - Um filme pode contar com um ou mais narradores que se encarregam da totalidade ou de uma parte da narrativa. Em Rebecca, a narradora vê e faz com que vejamos ( focalização visual) Longo travelling para a frente, subjetivo no prólogo do filme. A trilha sonora é monopolizada pela voz que narra as lembranças do personagem.
Em seu livro La voix au cinema, de Michel Chion, o autor mostra que a voz em off é a voz do Saber e do Poder no cinema. Domina as imagens de certo modo , proporciona-lhes um sentido ( fenômeno de ancoragem) mas muitas vezes vai muito além do que a imagem mostra. O comentário, quer seja argumentativo, explicativo, incitativo , "transborda'em muito a imagem, A voz carrega por sua tonalidade, seu potencial de sedução puramente sonoro

O roteiro de um filme estrutura uma narrativa ( uma sequência lógica de eventos , de relações entre personagens, de conflitos, um conjunto de informações a serem distribuídas pelo filme para garantir a compreensão e a verossimilhança) e uma progressão dramática - de acordo com as regras de alternância entre tempos fortes e tempos fracos e as da progressão contínua da tensão até o desenlace, passando pelo "clímax". As imagens preferencialmente, são carregadas de conotações afetivas, fantasísticas, simbólicas .

Estruturas

Para avaliar a distância que separa os dois textos e julgar o "respeito"ou a "traição" do texto fílmico com relação ao texto literário , é necessário trabalhar sobre as estruturas profundas e não apenas sobre os acontecimentos superficiais, não se limitar ao conteúdo , mas levar em conta a expressão, consubstancialmente ligada ao sentido.
Rebecca retoma no prólogo do filme, o primeiro capítulo do romance que se refere ao sonho da personagem principal.

Estrutura geral

O filme é estruturado em cinco grandes atos precedidos por um prólogo , seguidos por um epílogo . O romance, em compensação , apresenta-se sobre a forma de uma sucessão de 26 capítulos. A autora utiliza a forma romanesca. Já a forma fílmica requer, por sua dimensão "espetacular'uma estrutura dramatúrgica muito mais rigorosa, do que o romance. Os capítulos do romance tampouco correspondem às seqüências do filme. O filme é estruturado, decupado, de maneira diferente e independente do romance

Estrutura dramática

O desenvolvimento dramático do filme , parecia igualmente sujeito a uma organização bastante rigorosa - Ato 1 ( euforia, encontro, casamento) Ato 2 ( disforia, inadaptação, mitificação de Rebecca) Ato 3 até o epílogo (alternância, disforia/euforia tensão distensão. No romance não é pensado com esse rigor e constata-se que os acontecimentos são menos intensos - os dramas menos violentos e as alegrias menos intensas. Hitchcock e seus roteiristas ( Joan Harrison e Robert Sherwood) deram ritmo à uma narrativa monocórdia como a do livro.
Agora, é aguardar "Lavoura Arcaica" para analisarmos o filme. Até lá !

 

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