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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Benjamin reflete sobre a arte

 

Walter Benjamin que esteve por um tempo envolvido nas atividades intelectuais da Escola de Frankfurt , na Alemanha, em meados de 1930 , escreveu um dos ensaios mais originais sobre a arte popular do século XX : "A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica"publicado originalmente em 1936.

Nesse ensaio Benjamin avalia à sua maneira, os efeitos da produção e do consumo de massa e da tecnologia moderna, sobre o status da obra de arte, assim como suas implicações às formas contemporâneas de arte popular e cultura popular. Segundo ele, a obra de arte, devido a sua original imersão em rituais e cerimônias religiosas, adquire uma espécie de "aura", que atesta sua autoridade e imparidade, sua singularidade no tempo e espaço. Estabelecendo-se no centro de práticas religiosas, a obra de arte adquiriu uma função ritual, e sua aura é associada à religião até a Renascença . Nesse período iniciou-se a luta pela autonomia artística que tentou provar que a obra de arte era única em seu próprio direito, independente de qualquer consideração religiosa e que ser um artista era uma vocação singular, privilegiada através do conhecimentos das verdades da existência humana . Essas idéias reforçaram-se no movimento da "arte pela arte", de meados ao final do século XIX. Foi uma reação à emergência da industrialização capitalista e da comercialização da cultura e as ameaças que ambas representavam à aura da obra de arte.

São esses efeitos da época da reprodutividade técnica que mais preocuparam Benjamin . Seu primeiro exemplo é a fotografia que permite uma grande variedade de cópias. Para ele, a técnica da reprodução destaca do domínio da tradição o objeto reproduzido na medida em que ela multiplica a reprodução, substitui a existência única da obra por uma existência serial .E, na medida em que essa técnica permite à reprodução vir ao encontro do espectador, em todas as situações, ela atualiza o objeto reproduzido. Esses dois processos resultam num violento abalo da tradição [...] Seu agente mais poderoso é o cinema.

O abandono da arte da "esfera da bela aparência" não é vista por Benjamin de modo pessimista. A obra de arte reproduzível pode ter perdido sua aura e autonomia, mas tornou-se mais acessível a um maior número de pessoas.Seu valor de ritual tornou-se agora valor de exibição. O cinema e a fotografia mostram coisas que muitos talvez nunca teriam visto ou percebido. Essas novas artes populares acessíveis para um numeroso público e expõem-se à avaliações do público. Para Benjamin, ao contrário da pintura, o filme sonoro é superior porque captura a realidade e dá às massas a oportunidade de refletir :

O cinema nos abre pela primeira vez a experiência do inconsciente ótico , do mesmo modo que a psicanálise nos abre a experiência do inconsciente pulsional[...]O espaço se amplia com o grande plano , o movimento se torna mais vagaroso com a câmara lenta[...] Compara-se a tela em que se projeta o filme com a tela em que se encontra o quadro . Esta convida o espectador à contemplação ; diante dela, ele pode abandonar-se às suas associações .Diante do filme, isso não é mais possível. Mal o espectador percebe uma imagem , ela não é mais a mesma.Ela não pode ser fixada[...] A massa é a matriz da qual emana , no momento atual, toda uma atitude nova com relação à obra de arte. A quantidade converteu-se em qualidade. O número substancial maior de participantes produziu um novo modo de participação. ( Benjamin )

Esse processo seria o mesmo em relação às artes cênicas transpostas para a televisão. O teatro , até então restrito a uma platéia reduzida, seria ampliado para um público numeroso através do teleteatro. Patrice Pavis considera que o teatro representa, na televisão, um papel que não deve ser negligenciado pois todo um público só verá o teatro sob a forma de uma retransmissão, de uma gravação ou de um teleteatro.(Vide Auto da Compadecida exibido pela TV Globo) .

Resta-nos porém a luta por uma espaço dentro desse mecanismo padronizado da indústria cultural que, conforme já vimos com seus teóricos, (vide texto "Investigando a Cultura de Massa") reduz a arte e a cultura erudita à uma mesmice banal e aviltante .
Ao mesmo tempo em que Benjamin enfatiza o processo democrático e participativo em vez do potencial autoritário e repressivo da cultura industrial, ( denunciado por Adorno) ele não considera o relacionamento entre o poder e as novas artes populares , assim como exibe um otimismo exagerado em relação à tecnologia.

Concluindo, sabemos que houve um tempo em que se podia distinguir com clareza uma cultura elevada, densa, secular e sublimada e uma subcultura dita "de massa", banalizada, efêmera e rebaixada ao nível da compreensão e da sensibilidade do mais rude dos mortais . Mas, nestes nesses novos tempos de ressaca da chamada "pós - modernidade", a cisão entre os vários níveis de cultura não parece mais tão cristalina. Hoje, o universo da cultura contemporâneo é muito mais complexo e muito mais turbulento que foi em qualquer outra época. E a arte, sem sua "aura", onde podemos encontrá-la? Na visão de Zygmunt Bauman , em seu livro O Mal Estar da Pós Modernidade,

... As artes pós-modernas alcançaram um grau de independência da realidade não-artística com que seus antecessores modernistas só podiam sonhar. Mas há um preço a ser pago por essa liberdade sem precedentes: o preço é a renúncia à ambição de indicar a sua "utilidade social". Schenberg radicalizou a divisa de Gautier da "arte por amor à arte", afirmando que nada que seja útil pode ser arte - mas mesmo nessa forma radical a declaração não apreende completamente a situação das artes no cenário pós-moderno, em que a verdadeira noção de "artes úteis" é destituída de sentido claro, uma vez que no reino das artes é obscuro como a presença ou ausência da utilidade podia ser averiguada:
enquanto a questão da utilidade versus nocividade a respeito da realidade não-artística se tem tornado altamente controverso. [...] Como observa Baudrillard, a importância da obra de arte é medida , hoje, pela publicidade e notoriedade.[...] Não é o poder da imagem ou o poder arrebatador da voz que decide a "grandeza"da criação, mas a eficiência das máquinas reprodutoras e copiadoras - fatores fora do controle dos artistas . Andy Warhol tornou essa situação uma parte integral de sua própria obra, inventando técnicas que deram cabo da própria idéia do "original" e produziram unicamente cópias desde o início . O que conta afinal, é o número de cópias vendidas e não o que está sendo copiado . ( Baumann)

O poeta, o artista o intelectual por sua vez, estão imersos numa culttura midiática. Assistem televisão, ouvem música em CD Players , alugam fitas de videocassete e navegam na Internet. Gostem ou não gostem, reitera Arlindo Machado, "a mídia está permanentemente presente ao seu redor, despejando o seu fluxo contínuo de sedução audiovisual. A eletrônica e a informática invadem todos os espaços, mesmo os mais privados, e é bem provável que os próprios poetas já estejam escrevendo seus poemas numa tela de computador !

 

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