Colunas
Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Investigando a cultura de massa

 

Nas décadas de 1920 e 1930 começaram os estudos e a avaliação da cultura popular . os fenômenos marcantes foram o advento do cinema, do rádio, a produção e o consumo em massa, a ascensão do fascismo e o amadurecimento das democracias liberais em alguns países. O fato da cultura tornar-se reproduzida infinitamente, graças ao desenvolvimentos tecnológicos , trouxe problemas consideráveis sobre arte e cultura na sociedade. Os pensadores da cultura de massa não consideram o cinema como arte pois no seu processo de elaboração e exibição, o filme não possui a "aura"de uma obra de arte autêntica; nem pode ser cultura folk porque não se originam mais do "povo'.

Junto com a imprensa popular, o rádio e o cinema foram os primeiros meios de comunicação de massa tipicamente modernos e estiveram ligados aos regimes totalitários para o uso de propaganda, transmitindo a ideologia oficial do regime fascista porque permitiam o controle centralizado e alcançavam vasta audiência . Isso gerou receio e angústia dos intelectuais que estudaram o crescimento da sociedade e da cultura de massa estimulando as discussões sobre tais temas.

Nestor Canclini nos lembra que a repressão tentou remodelar o espaço público reduzindo a participação social à inserção de cada indivíduo nos benefícios do consumo e à especulação financeira. A mídia se transformou até certo ponto , na grande mediadora e , portanto,em substituta de outras interações coletivas. A cultura urbana é reestruturada ao ceder o protagonismo do espaço público às tecnologias eletrônicas. Como quase tudo na cidade "acontece" porque a mídia o diz e como parece que ocorre como a mídia quer , acentua-se a mediatização social . A forma de "participar"é hoje, relacionar-se com uma "democracia audiovisual', na qual o real é produzido pelas imagens geradas na mídia.

As teorias da sociedade de massa versavam sobre as consequências destruidoras dos processos de industrialização e de urbanização responsáveis pela desestabilização de antigas estruturas e valores sociais. Os teóricos da sociedade de massa afirmam que o crescimento das cidades contribuiu para a atomização do homem, ou seja, nessas sociedades as pessoas somente conseguem se relacionar como átomos em um composto físico ou químico. A sociedade de massa, portanto, é constituída de pessoas atomizadas que carecem de relacionamentos significativos ou oralmente coerentes.

Os contatos entre elas além de formais e contratuais , não exigem um sentido moral , uma vez que a ética encontra-se em declínio.Enquanto não há uma estrutura moral apropriada e valores consistentes, uma ordem espúria e ineficaz surgirá e as pessoas irão se voltar para uma falsa moral. O que agravaria a crise moral da sociedade. Nesse contexto, a cultura de massa funciona como uma das principais fontes de moral ineficaz. Sem organizações mediadoras os indivíduos tornam-se vulneráveis , manipulados e explorados pelos meios de comunicação e pela cultura de massa. As convicções religiosas e o senso comum dão lugar ao individualismo racional .

Strinati ,em seu livro Cultura Popular, entende que a teoria da sociedade de massa procura indicar o potencial da propaganda dos meios de comunicação de massa usados pelas elites para bajular, persuadir , manipular e explorar o povo de modo mais sistemático e difuso. Os que controlam as instituições de poder adulam o gosto da massa para controlá-la. Se as estruturas tradicional e moral e as hierarquias de classe e de status entram em colapso, não há outra instituição para mediar a relação entre indivíduo atomizado e os poderes centralizados da sociedade. .Como alternativa, se uma variante da teoria lamenta o advento da democracia política e cultural, e desaprova a cultura de massa com critérios elitistas de gosto e discernimeNto, então é o poder da massa que é enfatizado, apesar de não ser bem acolhido.

A sociedade anterior à cultura de massa - admitem os teóricos - podia ser considerada uma comunidade orgânica onde as pessoas seguem valores que efetivamente regulam sua integração e reconhecem hierarquias e diferenças. Há espaço para a arte - a cultura erudita - e um espaço para a cultura folk, genuinamente popular, refletindo a vida e a experiência do povo. Com a industrialização e a urbanização, a moral definhou e os indivíduos tornaram-se alienados e anômicos. Encontram-se absorvidos por uma crescente massa anônima , manipulada pelos meios de comunicação que, ao mesmo tempo tornam-se únicas fontes de referenciais comunitários e éticos. Os pensadores concluem que em tal universo, a cultura de massa expande-se como éter letal sufocando a cultura folk e ameaçando a integridade da arte.

Dominic Strinati sugere que , hoje em dia, ninguém mais pensa em termos de cultura de massa e que agora sabemos apreciar tanto a cultura popular como a cultura erudita . Para Strinati, a cultura popular não é homogênea por isso não precisa ser consumida como um todo .Certas partes podem ser escolhidas separadamente, como resultado de fatores sociais e culturais. O consumo de cultura popular, reitera, sempre foi um problema para a "outra classe", seja ela composta de intelectuais, líderes políticos ou reformistas sociais e morais. Essa "outra classe ", com frequência, apega-se à perspectiva de que a população deve, de maneira ideal, ocupar-se com algo mais instrutivo ou conveniente.

Estas são reflexões que poderíamos fazer a cada momento em que nos encontramos diante de um produto da cultura de massa. Esse é o objetivo desse texto.

 

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