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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Lembrando Walter Avancini

Quando a TV Tupi de São Paulo foi inaugurada, em 1950, o então adolescente Walter Avancini, estava lá, acompanhado os testes espantado e ao mesmo tempo fascinado pelo que via. Surgiu aí, a vocação de um dos mais expressivos diretores da nossa televisão falecido recentemente, no Rio.

No começo, encarava a sua participação como ator, no elenco de uma "escolinha" liderada por Manuel da Nóbrega ( semelhante à de Chico Anísio), como uma brincadeira. Somente em 1959 assumiu o cargo de diretor quando percebeu que tinha nas mãos um veículo com potencial ainda não dimensionado de transformação cultural e social. Nesse período, já estava filiado ao Partido Comunista Brasileiro e atuava em movimentos sindicais. Foi o primeiro, ao lado de Ivani Ribeiro , a ambientar uma novela no Brasil, em 1965, com A indomável, baseada na peça A Megera Domada, de Shakespeare.

Avancini achava que a televisão não era objeto apenas de divertimento mas deveria educar e fazer os brasileiros descobrirem a riqueza de sua própria cultura. Buscava um estilo pessoal na direção de Selva de Pedra ( 1972),Fogo Sobre Terra ( 1974) O Rebu ( 1974) e Gabriela ( 1975). Avancini dirigiu ainda uma série se especiais entre os quais, Morte e Vida Severina (1981) de João Cabral de Melo Neto vencedor dos prêmios Ondas e Emmy (Oscar da TV Americana) considerado o trabalho mais denso produzido pela televisão brasileira. Obcecado na busca de uma linguagem própria para o veículo, provou sua qualidade autoral como diretor potencializando a teledramaturgia em minisséries como Avenida Paulista (1982) Anarquistas Graças a Deus ( 1984)Rabo de Saia ( 1984) Grande Sertão:Veredas (Memórias de um Gigolô (1985) Chapadão do Bugre ( 1988) para a Bandeirantes.

Na década de 90, Avancini retornou à telenovela com TocaIa Grande (1995).Xica da Silva (1997),Mandacaru (1998),Brida (1998) na Manchete.De volta à Globo, dirigiu O Cravo e a Rosa.

Em muitos livros e textos escritos sobre a história da televisão brasileira e em teses que discutem o veículo, Avancini deixou seu pensamento instigante .Apontado pelos atores como um diretor perfeccionista e nada modesto, ele dizia: "...na televisão, por uma questão de personalidade e de ideologia também, esforcei-me para que o produto tivesse a minha marca, mesmo dentro de um veículo comercial como é a televisão".E ainda: "...o país está pobre ainda , a tendência é a população ficar cada vez mais tempo sintonizada na televisão.

O desemprego leva essas famílias a ficarem grudadas só na televisão...por falta de poder aquisitivo, o público é passivo e acha ótima ter novela todos os dias porque é a única distração que ele tem de fato. No Brasil, só haverá transformação quando o país evoluir no sentido social e cultural para que o telespectador diga que , à noite, ele quer ir para o cinema". ( País da TV -Gonçalo Júnior -Editora Conrad .pgs. 340 e 341)


 

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