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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Teleplay ou teleteatro

No período de expectativas sobre advento da televisão no Brasil, o teleteatro já estava sendo apontado como um dos atrativos que o novo meio de comunicação ofereceria aos seus espectadores. Esse gênero se tornara um paradigma de produção ficcional que se fazia no exterior, principalmente nos Estados Unidos, de onde se importaram os primeiros equipamentos para a instalação da televisão brasileira e, por extensão, as idéias para se estabelecerem formatos de programas. A chamada Golden Age da história da televisão americana é propriamente a história do seu live drama, ou seja, o drama ao vivo, realizado no momento exato em que estava indo ao ar - uma especial forma dramática de apresentação, definida pelos americanos como produções que trabalhavam com temáticas de "intimidades", "dramas introspectivos", "conflitos pessoais" adequados à tela pequena da TV 1.

Na primavera de 1947, os americanos assistiam, aos domingos, pela NBC, ao The Theater Guild Television Theater e, a partir daí, muitos outros programas fariam parte da antologia dos dramas ao vivo que passaram também a representar os clássicos da dramaturgia. Como no Brasil, muitos teleteatros americanos tinham no título, o nome de seus patrocinadores Philco TV Playhouse, The Kraft Television Theater, The Goodyear /Philco Playhouse, ,The Alcoa Hour etc. As suas produções, assim como seriam as brasileiras, tornaram se um desafio para aqueles que se engajaram no meio televisivo. O conceito de teleteatro nasceu portanto, nos primórdios da televisão para designar não um mero "teatro filmado", mas aquilo que a televisão e o teatro têm em comum: a possibilidade de construir uma ficção em tempo presente, com os atores atuando ao vivo.

Os diretores que nos anos 60 levaram sangue novo e experimentalismo ao cinema norte-americano, como Sidney Lumet, John Frankenheimer, Arthur Penn, Bob Rafelson, Robert Altman entre outros, fizeram escola nos teleteatros ao vivo na década anterior dirigindo as telepeças para o Playhouse 90, Studio One ou para o Kraft Television Theatre.

Em 1949, um ano antes da televisão chegar ao Brasil, Braga Filho escrevia para a revista Dionysos, um artigo intitulado " A televisão e o Teatro" 2 onde registrava, para os brasileiros, experiências teleteatrais inglesas realizadas pela BBC de Londres, ressaltando a "quase ânsia que os astros do palco e da tela "tinham de "laborar nesse novo meio". Informa-nos também que as principais companhias cinematográficas da Grã-Bretanha colaboravam nos dramas televisionados: "..tanto J. Arthur Rank, como Sir Alexander Korda estão sempre dispostos a emprestar seus astros a serviço da televisão". Quanto ao público, o então diretor do "drama televisionado" Rober Mac Dermont, da BBC, buscava "satisfazer os que ligam seus aparelhos em busca de cultura e os outros, que não querem outra coisa a não ser divertimento".Sua estratégia era a de transmitir peças mais complexas e profundas aos domingos repetindo-as na quinta-feira seguinte. Já nas terças e sextas mostrava ao público "peças de valor intelectual secundário"e mais divertidas. Por exemplo, os telespectadores assistiam a uma tragédia shakespeareana como Rei Lear, seguida de uma peça policial ou uma comédia de costume.

Era no terreno dos grandes autores universalmente consagrados que giravam os dramas televisionados na Inglaterra. A certa altura do seu artigo, Braga Filho comenta:

Certamente se algum dos grandes autores dramáticos pudesse assistir hoje, à representação de uma de suas obras, teria grande surpresa: a de ver a fidelidade e o grau de aperfeiçoamento na interpretação do que escreveu e de comprovar com quanto acêrto tomam vida os personagens que criou e quanta realidade assumem nas situações em que os colocou. Seria maior ainda sua surprêsa, porém, se assistissem a um programa de Televisão. No caso de Shakespeare, por exemplo, nos últimos anos companhias teatrais, como a de Straford-on-Avon e a Old Vic aperfeiçoaram a tal ponto a interpretação shakespeareana, que parece ter-se chegado à perfeição, mas sem dúvida, o tubo eletrônico da televisão chegou ainda mais longe que o cenário teatral. Atores, diretores e técnicos conseguiram limar certas pequenas asperezas que ainda existiam na representação cênica. John Byron no papel de "Hamlet". Não apresentou um segundo de monotonia. Em alguns aspectos foi a representação mais viva de "Hamlet" que já se fez..

Não só as notícias do que se fazia na Europa ou nos Estados Unidos impulsionaram os primeiros diretores artísticos da nossa televisão a realizarem teleteatros. A idéia foi uma decorrência lógica dentro do processo evolutivo da programação televisual uma vez que esta, trazia do rádio grande parte dos seus programas. No percurso investigativo sobre o teleteatro, vamos encontrar suas raízes no radioteatro dos anos 30 onde, a nosso ver , encontra-se a semente da dramaturgia aplicada aos veículos eletrônicos. Percebemos que, como primeiro programa dramático a utilizar o teatro em sua base construtiva e estrutural, o radioteatro e sua forma dialógica de narrar um episódio passou a utilizar, de início, timidamente, alguns esquetes e, só mais tarde, introduziu-se os textos dramatúrgicos que eram lidos na íntegra e interpretados ao microfone. Elementos de sonoplastia e ruídos - técnicas da radiodramatização - foram lentamente incorporadas a esse formato de programa assim como em radionovelas e seriados .

Para conceituar melhor esse formatos , recorremos a Mário Kaplun 3 , em seu estudo sobre a produção de programas de rádio, onde ele considera o "radiodrama" - como aquele formato radiofônico que, no lugar do locutor narrando uma história, os personagens falam por si mesmos. O autor subdivide o radiodrama em três modalidades 1) o unitário - quando a ação começa e termina numa única emissão. Temos então, uma peça radiofônica que constitui uma unidade em si ( pode-se organizar um programa com base em radioteatro unitário). Como gênero literário, eqüivale a um conto. 2) O seriado, parcela-se em capítulos e em cada um existirá uma trama diferente que pode ser seguida e compreendida sem a necessidade de se acompanhar as emissões anteriores, mas há um personagem central ou um grupo de personagens que são o fio condutor e permanente da continuação da série - às vezes são a estrutura e a temática da série que lhe dão tal caráter. 3) A radionovela é a novela clássica, em muitos capítulos, com uma trama em seqüência; aqui já existe a necessidade de escutá-la por completo pois, se o ouvinte perde um capítulo, é difícil situar-se e acompanhar o argumento.

O radioteatro, definido como uma peça única, isto é, com início, desenvolvimento e desenlace numa também única emissão eqüivaleria pois, ao primeiro formato estabelecido por Kaplun. É interessante observar que todos estes formatos radiofônicos, com a chegada da televisão, nos anos 50, ganhariam suas versões televisivas, como veremos mais adiante. Do radioteatro derivou-se o teleteatro; da radionovela, a telenovela. E os seriados mantiveram a fórmula - num plot destacavam-se um ou mais personagens que envolviam-se em situações inusitadas, por vezes policialescas ou romanescas mas com um final definido em cada emissão. No interior das estações de rádio, funcionavam avantajados Departamentos de Radioteatro com suas cabines de sonoplastia onde eram produzidos esquetes, radionovelas, seriados, teatros radiofonizados etc. Dizia-se que uma atriz de radioteatro era aquela que atuava em qualquer formato ficcional radiofônico.

NOTAS :

1- Ver MARSCHAL, Rick .The Golden Age of Television, New York: Smithmark, 1987.

2- BRAGA FILHO. A Televisão e o Teatro, Revista Dionysos , n. 1. Outubro de 1949.

3- KAPLUN, Mário. Produccion de Programas de Rádio, El Guion. La Realizacion , Quinto: Ediciones CIESPAL,1978. p. 128.

Cristina Brandão

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Televisão, um projeto cultural que divulgou o teleteatro