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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

Perfil da telenovela

O crítico e historiador da televisão brasileira Arthur da Távola, definiu muito bem o perfil da telenovela brasileira. Pela síntese que fez, poderíamos definir o perfil do "produto telenovela", aquele que consumimos, gostando ou não, desde 1951, quando foi ao ar, pela TV Tupi de São Paulo, a primeira telenovela , "Sua vida me pertence", de Walter Foster. Hoje, a telenovela apresentada com um padrão estético já consolidado, muito poucas inovações na sua linguagem televisiva, e uma audiência cativa, a definição do seu perfil torna-se bem oportuna, Se não, vejamos :

" 1) Destina-se a um consumo indiscriminado. Enquanto havia apenas a tecnologia do livro, este ,necessariamente, discriminava o consumo, pois só chegava aos letrados. A telenovela veio estender formas literárias ou literalizantes a um público indiscriminado.Chega ao culto e ao não culto.Tal realidade modela-lhe forma e conteúdo.

2) Vive da aceitação do mercado. A telenovela está em íntima relação com quem a consome.O telespectador é pesquisado, conhecido, logo sua opinião tem peso.

.3) Seu mercado se manifesta ao longo dos capítulos e precisa ser permanentemente "consultado"por pesquisas.

4) A produção precisa obedecer a um veloz andamento para não comprometer o fluxo dos demais programas. A telenovela , na sua realização , possui um ritmo industrial sendo, portanto, muito mais um serviço dramatúrgico do que, propriamente, uma categoria estética.

5) As proposições estéticas e culturais devem-se enquadrar no repertório conceitual do público .Jamais , numa telenovela, o autor pode fazer um discurso isolado, sem estabelecer , para o que queira dizer, pontes de relacionamento com o público.

6) Dificilmente a telenovela é obra de um criador isolado. O resultado final depende da equipe realizadora e dos propósitos e condições oferecidas pelo canal produtor, embora, por outro lado, apesar disso, possa haver a presença estilística dos autores , marcando acentuadamente o produto Essa contradição é típica da telenovela: ao mesmo tempo em que é obra de autor, o é de equipe .Sem se compreender tal dualismo é difícil alcançar a complexidade do seu processo de feitura."( Conceituação reproduzida pelo crítico Arthur da Távola O Globo, Rio de Janeiro , 15/4/85 ) .

Com a união de todos esses itens acima, podemos obter uma fórmula que, comercialmente, vem dando certo ao longo dos anos deixando a telenovela impune e sólida , liderando a grade de programação das emissoras.

Contudo, observemos melhor o item de número 5. Uma obra aberta, como define-se telenovela, isto é, um "produto"que recebe constantes interferências conceituais do público, da publicidade e da política da emissora, acaba sendo ferida no âmago de sua qualidade artística.. Tudo seria bem diferente se o autor escrevesse com maior independência. Ao contrário, ele é obrigado a seguir a ditadura da audiência mediana e o resultado não poderia ser outro : uma obra prejudicada e capenga que , fica no ar, como um barco à deriva. Moral da história : presenciamos tantas reviravoltas na trama , que ficamos atordoados. Tem coisa que beira ao surreal. Se vocês ainda não viram. Comecem a reparar de agora em diante.

Quanto ao item 6, a obra não é prejudicada por ser realizada por inúmeros profissionais. O cinema tem nos mostrado que a realização em conjunto , com cada setor dando o máximo de si para atingir uma coesão artística, tem resultado produções de qualidade ( Assistam aos making of dos filmes ). O cinema não é uma "obra aberta" . Seu final chega aos 80 minutos de projeção em média. E já estava previsto no roteiro.

 

Acompanhe o meu raciocínio. Voltando há algumas décadas atrás, 60 e 70 podemos admitir que houve no país, o que chamaríamos de um “desenraízamento” da população que saiu do campo e atingiu as grandes cidades. Esse contingente de migrantes foi obrigado a se adaptar às exigências e padrões de comportamento urbanos . As cidades passavam por um crescimento acelerelado com mudanças abruptas no seu ambiente.

E aquele homem vindo do interior, desenraizou-se para sobreviver nesse novo mundo. E as perdas foram muitas porque deixou para trás suas raízes, o sentimento de permanência numa região que lhe era segura e familiar, onde mantinha certa segurança afetiva , familiar e moral. Mas agora, a sua antiga visão do mundo e a sua moral tradicional, nesse novo contexto, parecem obsoletos. Nas cidades, ele não encontra mais as relações comunitárias, os vínculos de solidariedade e amizade. Hoje , esse homem é apenas mão de obra anônima, e as instituições que poderiam representá-lo foram esvaziadas. Ele está sendo atingido diariamente por um crescimento cada vez mais acelerado. É nesse momento que surge a televisão, esse eletrodoméstico que funciona a partir de agora, como um elo entre a sua solidão e o mundo, com as “coisas que acontecem”. Surge aí um telespectador que imagina-se socialmente integrado ao seu país, a uma sociedade que na realidade lhe é hostil, mas não o é através da televisão. Ele imagina participante de decisões políticas, econômicas, culturais etc. Esse sentimento pode até lhe dar um gostinho de segurança, tranqülidade...Sente-se mais seguro pois, afinal de contas, está bem informado!

 

Por outro lado, tem a ficção ( telenovela, minisséries etc). Aqui ele “realiza-se” emocionalmente. Está afetivamente ligado àqueles personagens de ficção .O público que não consegue viver com a realidade, o “aqui e agora” da vida, lança mão da ficção, da fantasia. Satisfaz sua expectativa desejante e reforça o desejo. Os atores inserem nos personagens, comportamentos inspirados nas expectativas sócio-econômicas dos telespectadores . Onde existe a carência, (afetiva/emocional/econômica), está lá a novela para “preencher”esse vazio. A ficção televisiva, trabalha com as nossas carências. Se você não recebe , diariamente, aquele beijo estonteante pleno de desejo e amor intenso, veja tudo isso na novela. Ali é o espaço da pseudo-satisfação . As fantasias, as alegrias,as resoluções e reconcialiações proporcionadas pela televisão, fazem as pessoas perceberem em quão carentes são suas vidas , quão insatisfeitas e descontentes elas permanecem. Porém, continuam ajustadas àquele alívio temporário que têm ao acompanhar uma história romântica, seja pela televisão e até mesmo no cinema. O consolo e o efeito catártico agem para que o telespectador se resigne à realidade de vida severa e insatisfeita , que é a sua realidade.

A novela hoje usa mecanismos mais naturalistas, aproxima-se mais do cotidiano do telespectador, dessa forma, provoca com mais intensidade, a identificação dele com o que acontece no enredo que se desenvolve . A novela estabelece os programas mínimos de aspirações de todas as classes sociais. Está lá a empregada, a patroa, a adolescente rebelde, a mulher descasada, o empresário, o profissional liberal, o artista, o homossexual, o desempregado, etc. A telenovela tem poder mimético : capta do meio social suas pretensões e funciona como informação, entretenimento, ficção. E dá prazer assistir , pelo menos, satisfaz as necessidades supérfluas dos telespectadores. Para os pensadores alemães da Escola de Frankfurt a indústria cultural modela os gostos e as preferências das massas, formando suas consciências ao introduzir o desejo das necessidades supérfluas, portanto , pretende excluir as necessidades concretas e que , realmente proporcional satisfação e felicidade. Mas aqui, eu pergunto: a realização plena e a felicidade estão na mídia? Nunca ! Não cabe a elas proporciona-las. E o telespectador não é um tolo, ele sabe disso.

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