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Televisão e cultura

Cristina Brandão

Ficção, crítica, história e teatro na TV

No tempo das "novelinhas" de 20 minutos

Pouca gente sabe que a TV TUPI de São Paulo lançou em 1951 a primeira telenovela da TV brasileira , "Sua Vida me Pertence" de autoria de Walter Foster. Foi o início de um tipo de produção teledramatúrgica que permaneceu no ar até 1963, quando a telenovela passou então a ser diária, com a famosa "2 5499 Ocupado", tendo Glória Menezes e Tarcísio Meira como protagonistas, na extinta TV Excelsior.

Durante toda a década de 50, foram apresentadas inúmeras novelas que iam ao ar duas ou três vezes por semana e com uma duração média de 20 minutos por capítulo. As novelas não eram freqüentes na programação , como hoje que ao final do último capítulo já sabemos como será a próxima novela que entra no ar no dia seguinte. Naqueles anos, as novelas desapareciam da programação por meses e meses e depois voltavam , ficavam no ar de 3 a 4 meses no máximo e quando terminavam a emissora colocava no horário outro gênero de programa, bem diferente.

As primeiras novelas foram escritas, produzidas e dirigidas por profissionais do rádio. O elenco também era formado por antigos radioatores com experiência nas radionovelas. O pessoal do rádio, acostumado a utilizar só a voz nos textos radiofônicos, esforçava-se para substituir as entonações radiofônicas pela chamada "voz branca", da TV. Os atores também não tinham uma expressão corporal adequada e não eram familiarizados com as câmeras. O resultado era que a locução ficava perfeita mas a postura do corpo ficava em total desacordo com as necessidades da cena .Além disso havia muita dificuldade em decorar os "scripts" por isso utilizavam as famosas "dálias"que eram falas presas por todo o cenário onde os atores transitavam .

Artistas e escritores trabalhavam simultâneamente em rádios e na televisão. A Tupi ,por exemplo, mantinha um "cast" fixo para atuar nos dois veículos, o que demandava no mínimo , uma grande versatilidade. Mesmo na TV, além das novelas e algumas participações em teleteatros, os atores trabalhavam em outros programas da emissora como shows e humorísticos . O depoimento da atriz Normam Blum ao Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro, é revelador :

..."Em geral os atores que faziam o Grande Teatro só faziam isso na televisão. Mas eu e outros atores como Yoná Magalhães, Claudio Cavalcanti e Aracy Cardoso fazíamos inúmeros programas por semana, todos ao vivo. Então, numa mesma semana a gente fazia o Grande teatro, o Teatro de Comédia, na outra, fazia a novela depois do Repórter Esso. Havia uma novela às quatro e meia da tarde que a gente ensaiava lá dentro do estúdio mesmo. Eram novelas curtinhas, de 20 minutos , meia hora. A gente recebia o capítulo na véspera,decorava quase na hora, ensaiava com o cêmera, passava o texto , já se arrumando na maquiagem, aquela loucura. Na hora, a gente entrava e fazia a novelinha ..."

A radionovela foi uma fonte inesgotável de referência para quem escrevia para a TV . As novelas seguiam temáticas melodramáticas e folhetinescas. Os próprios títulos revelam a dimensão trágica das estórias : "Noivado nas Trevas", "Meu Destino Trágico", "Direto ao Coração",Um Beijo nas Sombras"etc. Em São Paulo, a maioria dos textos era escrita por José Castellar e J. Silvestre novelistas de renome, oriundos do rádio . Em Um Beijo nas Sobras", uma mulher é dividida entre o amor e o dinheiro e será punida com a morte por trair seus sentimentos mais íntimos por optar pelo dinheiro. Um texto exemplar da tradição folhetinesca aculturado às paixões latino-americanas.

No dia primeiro de abril de 1953 , teve início "Drama de Uma Consciência",de J. Silvestre, sob o patrocínio do Café Predileto , com direção de Bob Chust, certamente, a primeira telenovela carioca. Era apresentada às 19:30 , às quartas e sextas-feiras com duração de meia hora. Alternava-se com outra às terças e quintas : "Coração Delator", uma adaptação do texto de Edgar Allan Poe , direção de Chianca de Garcia com Lourdes Mayer , Avalone Filho , Paulo Porto, Ida Gomes e Fregolente.

Durante esse período , o número de personagens nas novelas era pequeno e reduzido ( de 6 a 10) às dimensões do elenco fixo.Por exemplo, "Semente de amor" de Ilza Silveira , levada ao ar em 1959, tinha apenas 9 personagens. Outra escritora carioca de sucesso, Aparecida Menezes, diz que já havia audiência para as novelas naquela época e o público já interferia: "telefonava, brigava, queria que mudassem(...) As pessoas escreviam, telefonavam para a estação , brigavam com os vilões na rua ..."

Como já dissemos, as novelas ao vivo, em dois ou três capítulos semanais, de 20 minutos cada, contavam historinhas de amor que ajudava a vender pasta de dente, sabonete ou água de colônia como as radionovelas , a maioria, patrocinada pelas pelas firmas americanas com o claro objetivo de atrair o telespectador para o mercado de cosméticos e produtos de limpeza como os das agências Lintas, MacCann Erikson, e Thompson.

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