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Ficção, crítica, história e teatro na TV Pensando a cultura e a televisão
A idéia de cultura ocupa lugar proeminente, mas pouco problematizado, nas elaborações que procuram dar conta de produtos televisivos, cinematográficos, musicais contemporâneos. Fala-se na ''cultura da mídia'', para citar o título do livro de Douglas Kellner, professor de Filosofia da Universidade do Texas, recentemente publicado no Brasil, ou na ''cultura da escrita'', ao qual a cultura televisiva se oporia, para citar a expressão do jornalista e cientista político italiano Giovanni Sartori, em seu livro Homo videns, televisão e pós-pensamento, também publicado recentemente no Brasil. Já Dominique Wolton, em seu polêmico Elogio do grande público: uma teoria crítica da televisão, refere-se à ''emancipação cultural'' que teria se tornado possível graças à generalização do acesso a meios de comunicação como a televisão. É possível pensar uma gradação entre esses livros, que iria da definição de um papel negativo, que degrada a democracia, em Sartori, ao ufanismo populista de Wolton, que, no pólo oposto, identifica na televisão um instrumento de realização democrática, passando pelo reconhecimento de polissemia e complexidade da cultura de mídia, em Kellner, o que significa o reconhecimento da convivência de empecilhos à democracia, com sinalizações de que é possível que a cultura de mídia venha a contribuir para o aprofundamento democrático. O trabalho de Sartori, que, como a pequena biografia publicada no volume sugere, notabilizou-se como polemista político em seu país. Giovanni Sartori adverte no início, que sua esperança com o livro não é a de deter o curso inevitável dos acontecimentos, que estariam levando à saturação das sociedades pela imagem. O que o move é a esperança de que o livro chame a atenção de pais e educadores, agentes capazes de disseminar uma postura crítica, para que ao menos se crie alguma resistência ao domínio do que chama de ''nova classe'', aquela que detém ''a gestão do poder televisivo''. O livro de Sartori será melhor entendido se pensado no contexto da conjuntura política de seu país, dominada por Berlusconi, magnata da mídia, eleito novamente presidente da República, apesar das acusações de corrupção que pesam sobre ele. É quase que um panfleto, que denuncia uma mudança dramática que estaria abalando a natureza humana, representada pela decadência do homo sapiens, e sua substituição pelo homo insipiens, em conseqüência do predomínio da imagem sobre a escrita no mundo dominado pela televisão e pela comunicação eletrônica. O homo sapiens se distinguiria dos animais na definição cunhada em 1758 por Lineu, por sua capacidade de abstração simbólica. Já o homo insipiens, ou o homo videns, tal como definido por Sartori, estaria associado à perda dessa capacidade simbólica. Enquanto o homo sapiens seria capaz de refletir sobre si mesmo através da linguagem, o homo insipiens teria perdido essa capacidade, teria se tornado presa do imediatismo da imagem. Sartori circunscreve sua crítica ao telejornalismo, gênero que seria responsável pela degradação crescente da qualidade da informação política difundida pela televisão. O autor denuncia o material divulgado pelos telejornais como conformista e acrítico. Em resposta aos que acreditaram que uma ''ordenação pluralista e competitiva estimulada pela concorrência de televisões particulares'' reverteria a tendência à baixa qualidade da informação veiculada, Sartori constata a uniformidade da programação, o nivelamento ''por baixo''. O autor nota ainda que ''quem tem a gestão do poder televisivo se defende das acusações, descarregando a culpa sobre os ouvintes''. E a sua contestação ao argumento defensivo de quem controla a televisão é um dos pontos contundentes do livro: ''no que diz respeito à televisão, mais do que a outras coisas, é o produtor que produz o consumidor.'' Lembrando, Adorno, da Escola de Frankfurt, Sartori acredita que os mecanismos de aferição e criação de audiências estariam articulando e dando voz a segmentos medíocres da sociedade, compostos de indivíduos apáticos e alheios, que existiram nas mais variadas sociedades através dos tempos, mas que agora, ao invés de dispersos e desarticulados, teriam sido alçados à posição de comando. Para o autor, é como se o avião estivesse sendo pilotado por alguém que não tem nenhum conhecimento técnico para isso. ''A teledemocracia estimula um dirigismo suicida'', configurando uma situação de ausência de comando que deturparia os princípios democráticos, acredita. Mas em Elogio do Grande Público, D. Wolton estudioso das relações entre televisão e espaço público, apresenta sua tese que contrapõe radicalmente as idéias defendias pela maioria dos analistas desse meio de comunicação. Reconhece no telespectador um agente ativo e crítico . A televisão realista, isto é, aquela aberta ao grande público, é vista para Wolton, como um instrumento de democratização e modernização . Ele dedica um capítulo inteiro à televisão brasileira no qual assegura às emissoras o papel de integradora da cultura nacional .O autor confronta a TV a cabo argumentando que , por sua natureza temática e segmentada, ela aprisiona cada grupo de cidadãos num gueto específico, acentuando as desigualdades culturais . O
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