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Aparando Arestas
Ana Carolina Durante

Quebrando o casulo

Devemos nos sentir infelizes com a felicidade alheia? O nome que se dá a esse sentimento seria inveja? Nem sempre... Esse fim de semana passei por essa situação. Tenho um amigo, cujo sonho era ir embora da cidade que morava – jamais havia morado em qualquer outro lugar – para viver na Europa. Pois bem, sua oportunidade chegou, e ele, sem pensar, catou sua mala e “vazou na braquiara”. É claro que sua história não termina por aí, mas como ainda não nos falamos desde que embarcou, não tenho muita informação.
Mas a viagem toda sobre esse assunto não está na imigração de brasileiros, mas, em como sua família reagiu. Eu mesma, confesso, fiquei triste por “perder” mais um amigo “pras Europa”. Em contra partida, extremamente feliz por perceber e poder fazer parte da realização do sonho de um amigo tão querido. Assim como eu, esse meu “brother” é filho único, os pais são separados e ele vivia com a mãe. Coitada da Dona Fátima, ficou sozinha no apartamento!

Sei que é difícil nos colocarmos no lugar da mãe, que vê seu bebê indo embora, atravessando o Atlântico, indo para um país onde ela nada poderá fazer para protegê-lo. Dona Fátima estava arrasada, assim como sua mãe, - avó desse meu amigo – tios e tias. Daí vêm a pergunta, como essas pessoas que nos amam tanto, ficaram infelizes com a felicidade de quem estava indo. Todos compartilhavam do conhecimento prévio da vontade dele de viver fora do país. Mas mesmo assim, choraram por que ele estava indo embora, sendo que o coitado, mal via a hora de embarcar, tamanha era sua felicidade. Aquela comoção toda da despedida fez-me recordar do enterro do meu saudoso pai, que jaz há quase 8 meses.

Assim como esse meu amigo, claro que em proporções BEM menores, e meu pai, ambos foram para lugares onde não podemos protegê-los, nem vê-los, muito menos tocá-los... A ida para outro estado, seja ele físico ou espiritual, tormenta os que ficam. Porque é tão difícil aceitarmos mudanças bruscas? Quem foi que disse que precisamos de doses homeopáticas, se é quando o bicho pega que tomamos atitudes? Mudanças são necessárias, para que a nossa roda da vida continue girando.

A solidão e tristeza que me invadiram com o falecimento do meu pai, transformaram-se em ousadia, audácia, e acionou de vez a tecla FODA-SE. Transformar o medo da solidão, do desconhecido em CULHÃO, não é pra qualquer um. E, essa mudança, trouxe também, conhecimento, amor pelo próximo, meu próprio amor resolveu olhar de novo para mim. Aprender a viver só, não é fácil, mas, é menos complicado do que muita gente pensa.
Quanto ao meu amado amigo, sei que irá passar por muito sufoco, já que largou a barra da saia da mãe. Mas que irá crescer, e tornar-se-á um grande homem. Já a coitada da Dona Fátima, essa vai tomar um chopp comigo, e será quebrado seu casulo. Poque ela também precisa sair e conhecer coisas novas, quebrar seu casulo e transformar-se na liberdade da borboleta.

 

     

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