E se a gente prometeu cuidar um do outro e não deu? Se a gente disse que nunca ia falhar com o amigo e na  hora em que ele mais precisou não estávamos lá? Se a gente disse com toda a potência de afeto e convicção que as mãos estariam para sempre voltadas para qualquer queda de alguém a quem tanto bem tínhamos e na hora, no momento exato, no lance decisivo, elas nunca chegaram? E só de longe pudemos escutar o barulho do tombo.

  Se prometeu sempre jogar a bola para uma só pessoa, não importando quem mais entrasse no jogo; guardar sempre o lugar, enquanto a companhia fosse ao banheiro; deixar o bombom preferido de alguém, guardado no fundo da caixa, sem o risco da tentação da gula, escondê-los no armário, na dieta, quando o outro precisasse. Cuidar do leite no fogão, se houvesse a distração alheia;  regar as flores do jardim, quando a ausência do seu dono fosse inevitável; passar o filtro solar nas costas dele, esfregar a parte do corpo que ela não conseguisse alcançar; levar o cão para passear, mesmo debaixo de chuva. E se eu disse que rezaria para sua volta, que esperaria a mensagem dizendo que está tudo bem. E não o fiz? Porque de repente, não estamos mais lá.

  Não mentia quem disse que sempre ficaria, mas foi embora. Não a enganou quem prometeu paciência, disponibilidade e tempo infinitos. Não traiu quem falou que lavaria a calçada para sempre antes de você passar e nunca mais abriu nenhum jato d'água, mesmo que você ande para sempre devagar, a procura da fidelidade na limpeza. Não é uma desmemoriada, uma mundana, uma impostora só porque as promessas se diluíram na acetona com o esmalte. Não é simples assim. Determinado assim. 

  E se todas as apostas de futuro, de repente, ficaram naquele instante passado? Disse porque houve vontade, mas depois faltou jeito. Num passado invertido, faríamos tudo primeiro e depois viriam palavras, promessas já cumpridas, sem dores de decepções, sem as ilusões partidas no fundo da pia. Mas não é assim que funciona, nunca funcionou. O futuro que prometemos caducou, olhe, ficou no quilômetro passado. Não há caminho que nos leve de volta. Assim é a gente viajando num tempo, cujas estações nunca são vistas de novo. Acolha minha promessa, entenda todo meu amor inscrito nela, mas não se segure, não se prenda a ela, precisamos passar. Passamos. Passaremos. Num passado invertido eu faria tudo o que não prometi, mas você precisava em demasia e só depois, eu fazia o juramento, esse que eu já havia cumprido. Um futuro que não caducaria, porque só seria a confirmação do passado que conheceríamos.

  Eu te prometo por hoje, o que eu tenho hoje, mais nada eu posso oferecer. Eu não te prometo futuro, mesmo quando eu juro, fiando-me fortemente a minha palavra,  porque na próxima  parada, pode ser que alguém de nós fique no trem e o outro seja chamado a descer. Aprenda. Não sofra tanto se não se cumprir este desejo de hoje. Alguém precisou continuar no trem, outro alguém precisou desistir da viagem.

  Num passado invertido, não sofreríamos nunca; a dor da espera pela promessa cumprida não seria possível, mas esse tempo não existe. Só o que podemos ter é isso, que já temos nas mãos agora, e não há razão para blasfemar as faltas futuras, num dia eu falho, noutro é você. Quando eu disse que eu sempre estaria ao seu lado, eu não mentia, só não conhecia essa autonomia do futuro. Num passado invertido jamais seríamos feridos e o futuro prometido nunca vacilaria. Mas no tempo possível, as promessas quase sempre duram  no tempo em que são declaradas, a viagem, aos poucos, trata de transformar palavras em poeira; certezas em pedaços de papel jogados pela janela; eternidade em passagem de volta, comprada na próxima estação.

  Nenhuma promessa é capaz de nos salvar de correnteza nenhuma, quase sempre é ela quem nos largará no meio da água mais violenta. Mas nem por isso deixamos de acreditar naquelas que inventamos ou inventam para nós. Não vale menos o que não se cumpre, os juramentos perdidos nos fazem companhia quando todos no trem já desceram, quando vamos atrás e não sabemos que rumo tomar. As promessas não cumpridas são um tipo de bagagem da qual nunca nos livramos, de fato, peso que nos lembra que um dia houve vontade, ainda que nunca tenha se realizado.

Amada Machado é mineira de juiz de Fora, escritora do cotidiano, em prosa, e leitora incansável das pequenas coisas do mundo, em poesia. Escreve há sete anos no blog “Pareço Louca”, do qual originou o seu primeiro livro de crônicas e contos “Centopeia de mil pés errados”, pela editora Confraria do Vento e um segundo livro que sairá pela editora feminista “Quintal”, com o lançamento no próximo mês;  além de ter proporcionado grandes encontros e histórias que nunca terminam.
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