Quando me disseram que você tinha ido embora da cidade, dei um suspiro longo de alívio. Passei a andar de outro jeito: mais leve, mais solta. Sem a possibilidade de reencontro, os caminhos pareciam abertos a uma dança livre, eram os meus passos sem uma coreografia com os seus. Já não tinha que pensar, na eventualidade de um encontro, se fugia ou era simpática e perguntava como uma boa amiga, se estava bem, como ia a vida. Ou, mesmo, fazia as duas coisas, perguntava se estava bem e logo partia em fuga, com a desculpa de atraso para uma marca na agenda, ferro ligado esquecido em casa ou roupa na tinturaria que fechava em minutos.

  Quando soube que já não estava mais na cidade, passei a andar pelas calçadas distraída, ultrapassava semáforos, não via conhecidos, tropeçava nos meus próprios pensamentos solteiros de ansiedade. Flutuava entre uma calçada e outra, sentava nos bancos de qualquer praça, sem medo de ser surpreendida, sem preocupação com quem, ocasionalmente, me veria ou eu encontraria. Comecei a olhar, desinteressada, para as pessoas ao meu redor. Não procurava mais só um rosto, via novos, começava - eu achei - a viver como antes de conhecê-lo. Podia sair de moletom, com o cabelo num coque bagunçado, com a roupa de ioga, mesmo que não fosse o dia de ioga. Porque você não estava mais lá.

  Depois que me devolveu a cidade, outros sons eu passei a reconhecer, novos, que individualmente, me levavam para lugares onde você não estava, para pensamentos recém tirados do embrulho, frescos, sem esse amarelecido da sua imagem. Conheci gostos sem você, cheiros que não me lembravam você e vozes muito mais bonitas do que a sua. Era, finalmente, o presente nascendo para mim: um prédio novo que você não viu, um bar onde você nunca bebeu, nomes que eu nunca disse a você. Eu descobria sentimentos, livros, placas de sinalização, caminhos, produtos de limpeza no supermercado e você não via.

  Eu gostava de não ter você na cidade, até um dia, eu passar em frente àquela escola, onde você gostava de comprar pipoca doce, quando íamos ao cinema, e o cheiro do açúcar com o chocolate fez você me frequentar de novo. Senti-o apertar a minha mão, puxar a minha bolsa, como você fazia quando eu reclamava do peso e a levava consigo até depois do filme, meu ombro perdeu o peso, eu senti o gosto da pipoca na língua e o cheiro do seu perfume. Depois desse dia, tudo o que eu queria, era não ter sabido que você me devolvera a cidade. 

  O tempo da euforia, dos primeiros dias da notícia,  passou e outra sensação me atropela a cada ida minha à rua. Então, passei a andar pesada, triste, desacompanhada de um suspense, impossibilitada de imaginar o que faria num reencontro, porque não o veria hoje, amanhã ou dias a frente. A cidade nunca foi sua, você não é daqui nem sua família, bem poucos dos seus amigos estão aqui e eu, eu não sou sua. Por isso, quando devolveu-a, eu sabia que era para sempre.
Nunca  o busquei nas redes sociais, tenho cumprido com a promessa de não cair em tentação, não ficar magoada com a sua nova cidade ou sentir mais saudade. Às vezes, quase digito o seu nome no site de buscas, mas me protejo, cuido de mim e não avanço. Melhor não saber; melhor é tentar não saber. 

  Mas, agora, tenho uma mania estranha: acho que o encontro em outros lugares, já que aqui não mais. Quando viajo, enquanto espero um voo, procuro-o em cada fila, cada rosto, esquadrinho cada parte dos aeroportos a sua busca, para quem sabe, distraidamente, a gente se esbarrar. Me arrumo para viajar, busco uma melhor versão de mim, preocupo-me com roupas, cabelo e perfume. E, às vezes, sonho que nem volto, que encontro-o para fazer de outra cidade, nossa.

  Agora, para onde olho só vejo você, mesmo que já me tenham contado da sua mudança e que eu saiba que não é você. Quando me devolveu a cidade, ela já não era mais minha. Não queria que você voltasse, só  queria que não tivesse me levado e me deixado perdida; mala extraviada, esquecida no caminho. Quando me devolveu a cidade, era quinta-feira e já passava da uma da manhã. Entrei no carro, falei meu endereço para o taxista e só chorei depois do sono. Antes das lágrimas, sonhei que nunca mais nos veríamos como antes. Sonhei e cumpri a sentença de Morfeu. Você me devolveu a cidade, quando ela já não é a mesma sem você. Não, você nunca me devolveu nada, nem a parte de mim que eu quis que fosse sua. Ando, por aí, com uma cidade inteira para ser minha, mas eu mesma sou só fragmentos. Na próxima viagem, no aeroporto, sou eu aquela desassossegada, perto do balcão de informações. 

Amada Machado é mineira de juiz de Fora, escritora do cotidiano, em prosa, e leitora incansável das pequenas coisas do mundo, em poesia. Escreve há sete anos no blog “Pareço Louca”, do qual originou o seu primeiro livro de crônicas e contos “Centopeia de mil pés errados”, pela editora Confraria do Vento e um segundo livro que sairá pela editora feminista “Quintal”, com o lançamento no próximo mês;  além de ter proporcionado grandes encontros e histórias que nunca terminam.
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