Devemos tomar cuidado para não virarmos máquinas. Máquinas de nós mesmos, os chamados seres humanos. O homem constrói a máquina; a máquina tem dominado o homem. Basta entrarmos em um banco, por exemplo. Os caixas eletrônicos estão espalhados e normalmente em maior quantidade que os funcionários. É claro que os caixas eletrônicos facilitam nossas vidas em nossas correrias de máquina, mas roubam nossos empregos. O homem constrói a máquina; a máquina está dominando o homem.

            Valorizar nossas raízes, a simplicidade e defender menos a tecnologia são partes de um processo que acredito que virá.

            Depois do e-mail, a carta ficou esquecida. Lembram-se daquele friozinho na barriga de esperar pela resposta, pelo prazer de reconhecer a letra? Pois é. Essa emoção ainda existe e não deveria morrer nunca. Afinal, inventaram as flores de plástico, mas a primavera nunca deixou de existir.

            Depois da Webcam, a curiosidade e a saudade ficaram menores, mas a valorização da espera e a surpresa da chegada também diminuíram.

            Depois da Internet, os livros e principalmente a valorização da escrita e da caligrafia diminuíram muito. Mas o que é bom não deveria perder força nunca. Abrir um livro e viajar por suas escritas é parte de um processo único que deveria ser expandido e não abolido. Afinal, inventaram a batida eletrônica, mas o clássico não morreu!

            Pequenos gestos como comprar um filme, ter a curiosidade de levar para revelar e ter que aturar o desfoque de algumas fotos e a surpresa da cara feia de outras são parte de nosso próprio processo, não deveria desaparecer. O fato de podermos nos ver nos Instagrans e conversarmos pelo WhatsApp não deveria ser empecilho para uma amizade verdadeira, para o falar olhando no olho. Eu não me vejo abraçando a tela. Eu preciso de calor humano. Afinal, inventaram a pílula, mas a gravidez indesejada não deixou de rondar o mundo.

            A vibração pelo computador, pelo celular, pelos aplicativos, pelo Playstation está virando um vício que impede o jogo de damas no fim de semana de ser um programa que une famílias, a valorização do irreal e do bem material está acabando com nossos princípios humanísticos, com a valorização da natureza, da religião, com elementos vitais.

            Eu não sou contra a tecnologia, já que ela faz parte de um processo de evolução terrena. Sou contra o excesso de materialismo e contra o esquecimento do prazer de encostar, de sentir, de vibrar com as pequenas coisas, como ver um relógio cuco tocar, por exemplo.

            Não espero que sejamos museus, mas sim que assimilemos que o que é bom deve permanecer. Afinal, “inventaram” o Lula, mas não deixamos de estudar Dom Pedro!

Fernanda Moreira
Professora de Língua portuguesa, psicopedagoga institucional e especialista em Literatura brasileira.
Instagram: @fernandamoreiraprof
E-mail: [email protected]